A GAIOLA

 

 Em tempos de dúvidas, entre grades e horizontes, é maravilhoso ver a arte quebrando certezas artificialmente construídas ao longo do tempo. O espetáculo A Gaiola cumpre essa importante função, sobretudo no panorama do teatro dedicado às crianças. Não foi à toa que conquistou tantos prêmios (premiado em 7 categorias pelo CBTIJ 2016; e vencedor do Prêmio Botequim Cultural 2016, nas cinco categorias dedicadas ao teatro infanto-juvenil), além de estar indicado nas dez categorias do 11º Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil (2016/2017).

 

Numa abordagem mais técnica, cada elemento da encenação mereceria um texto à parte. Aqui, entretanto, cabe destacar o conjunto, com a excelente organicidade do espetáculo: a fusão dos inúmeros acertos nas escolhas em cada aspecto da criação e da execução, todos conectados por uma poderosa concepção, cujas consequências foram elaboradas em detalhe. Isso evidencia o talento e a competência de cada um dos envolvidos e, ainda mais importante, a convergência desses vários fazeres na construção do resultado. É visivelmente um trabalho criado e movido pelo afeto.

 

A situação proposta na história é aparentemente simples: a relação entre uma menina e um passarinho que cai em seu quintal. Mas já no livro de Adriana Falcão (Prêmio Jabuti 2014), que dá origem à peça, essa situação é explorada poeticamente, desenvolvendo uma trama sutil como metáfora do relacionamento amoroso em todos os níveis. Em vez de ser um facilitador, a singeleza do livro impõe um desafio ainda maior à transposição para a cena, tarefa de dramaturgia plenamente realizada pela própria Adriana em parceria com Eduardo Rios e Duda Maia, também diretora da peça. O resultado é um espetáculo delicado, preciso, aberto às muitas leituras que, encantados pelo lirismo, crianças e adultos podem fazer. A fidelidade ao livro se expande para uma criação cênica sustentada pelas detalhadas partituras corporais, terreno cultivado por Duda Maia há anos, sempre com a maior desenvoltura.

 

O espaço cênico de A Gaiola traduz a força de sua concepção, unindo simplicidade e apuro nos detalhes: um trapézio, que serve inicialmente às coreografias aéreas do passarinho; um banco reto, que é intensamente explorado como espaço de aproximação e afastamento dos dois personagens; e, ao lado, parecendo inicialmente um tablado, há uma caixa rasa e instigante, a partir da qual é montada a gaiola – que mais do que um elemento cênico é uma obra de arte em si (criação de João Modé, responsável pelo cenário). Esses poucos objetos, justapostos em linha, ganham profundidade e maior sentido, conforme os vários climas da peça, através da iluminação precisa e também poética de Renato Machado.

 

A narrativa, costurada com leveza pela bela música original de Ricco Viana, mergulha na múltipla e eficaz interpretação da dupla Carolina Futuro e Pablo Áscoli. Os dois artistas, cada qual com seu bem afinado corpo-voz, constroem um todo harmônico, seja no canto ou nos diálogos, a tal ponto que não se evidencia a separação entre música e texto; entre intenções, gestos e falas. Tudo vira poesia: poesia-som, poesia-imagem, poesia-sentimento. E, como poesia, as metáforas estão ali servidas, num misto de clareza e sutileza, à disposição dos espectadores de todas as idades.

 

Em uns poucos momentos, algumas crianças muito pequenas parecem se dispersar. Mas, nas duas vezes em que assisti A Gaiola (no CCBB/RJ e na atual temporada), pude verificar que esses momentos coincidem com breves repetições de movimentos, diálogos e músicas, ilustrando a rotina dos personagens, que mesmo sendo bela e amorosa também cansa aos que nela vivem. Pareceu-me, então, que essa reação de uma pequena parte da plateia não evidencia desconexão ou desinteresse, mas talvez uma forma diferente de reagir, de digerir tanto sentido/sentimento e de processar aquele cotidiano exposto em cena, tão estranho quanto familiar. Inclusive porque esse nível de relação cena-plateia não é um exercício habitual nas peças dedicadas às crianças. A construção efetiva enquanto espectador teatral impõe um trabalho gradual, que a constante facilitação limita. Tenho convicção de que, para além da intensa fruição do momento, a potência das imagens sonoras desse precioso espetáculo irá impregnar, por muito tempo, a retina/tímpano da memória dessas crianças, sendo decifradas e deliciadas ao longo do seu desenvolvimento.

 

A Gaiola nos leva a refletir sobre limites e possibilidades, amores, desejos e medos. Da proteção à liberdade. É a dúvida sobre o que será levando à descoberta de “um monte de pode ser”! Em cartaz no Teatro Ipanema, aos sábados e domingos, às 16h, somente até 30 de julho. Voe pra ver!

 

Por Leonardo Simões

Pesquisador, Autor e Diretor teatral.

Diretor do NEPAC – Núcleo de Ensino e Pesquisa de Artes Cênicas

Integrante do Júri do Prêmio Zilka Sallaberry de Teatro Infantil  


Casa Caramujo

 

Casa Caramujo, cujo texto é baseado num conto escocês do século XI, tem como premissa a relação de uma criança com a morte de sua mãe. Um tema aparentemente complicado para se abordar num espetáculo infantil. Mas essa percepção não passa de um “falso dogma” amparado num pensamento antigo de que as crianças “não devem saber demais”. O que é

uma ilusão, visto que as informações estão cada vez mais ao alcance delas. Portanto não será o teatro que se eximirá de colocar em cena tudo que achar relevante – com todo o cuidado e leveza que uma obra de arte merece. E é assim que Casa Caramujo discute a temática da morte com seu público: com beleza, suavidade e até com boas doses de humor.

A dramaturgia de Gustavo Paso tem seu mérito justamente na escolha do tema, que junto com a visualidade do espetáculo, consegue contar uma bonita e delicada história. Mesmo que falte uma carpintaria dramatúrgica que deixe a narrativa mais clara, há uma progressão na trama que leva o espectador a se colocar como o protagonista: o problema aparece (a iminência da morte da mãe), não sabemos como lidar com isso, até que, através de uma jornada particular,

compreendemos porque a morte é necessária.

A direção (também de Gustavo Paso) trabalha muito bem com toda a equipe, em especial com a trilha sonora (André Poyart) e a iluminação (Paulo César Medeiros), e cria climas extremamente lúdicos e poéticos que contribuem para a abordagem do tema. Apesar do ambiente mais sombrio, a visualidade não deixa o espetáculo pesado e consegue ótimos momentos, como o do passeio ao fundo do mar. A utilização dos bonecos, das máscaras (criação de Marise Nogueira) e das formas animadas é outro acerto da direção, que, junto com uma boa manipulação por parte do elenco (com o treinamento de Marcio Nascimento), torna

o universo do espetáculo mais amplo e próximo do seu público.

Os figurinos (Luciana Anselmi), através de sua palheta de cores, fornecem um contraste adequado para a caixa preta que domina o espaço cênico, além de serem muito bonitos. O cenário (Gustavo Paso e Luciana Anselmi), por um lado causam uma certa estranheza pela sua estrutura amorfa, mas se mostra bastante útil justamente por permitir uma pluralidade bem-vinda em sua utilização.

O elenco (Raquel Botafogo, Marcio Nascimento, Viviane Rayes, Antonio Barboza e Felipe Miguel), em seu conjunto, está muito bem. Além de mostrarem seus talentos na exploração de recursos específicos para a composição dos personagens (corpo e voz), todos realizam seus trabalhos com técnica e rigor. O destaque vai para Marcio Nascimento, que desenvolve seu personagem com bastante humor e estabelecendo uma importante comunicação com a plateia. Também há que se destacar a atuação de Antonio Barboza como o caramujo, pelo precioso trabalho corporal. Nesse sentido, é importante mencionar o trabalho de Fernando Vieira nas “técnicas de treinamento corporal” (como menciona o release).

O ponto negativo do espetáculo se dá em alguns momentos de excessivo clima e instauração de ambiente, e quando o imagético parece assumir o protagonismo da cena em detrimento da progressão dramática, causando algumas fortes quebras no ritmo da peça. Mas o conjunto da obra é extremamente positivo. Trata-se de espetáculo com conteúdo relevante, em que tudo é realizado com competência, tem ótimo acabamento de produção (direção de produção de Luciana Favero) e um precioso cuidado estético.

 

Diego Molina


MARIO, MAR E O AMOR

 

Mário, mar e o amor é um espetáculo musical, que navega suavemente no palco, sob  direção precisa e criativa de Leonardo Simões.

               Mário, o herói, se lança ao mar em busca de aventuras e riquezas. Ao retornar, depois de viver inúmeras peripécias, descobre que seu verdadeiro tesouro é Ana Rosa, sua amada, que havia deixado em terra.

               O espetáculo, de uma refinada simplicidade, traz o lirismo na medida certa: lirismo e aventura; aventura com momentos de suspense e viradas da narrativa, que prendem a atenção do público; uma história de amor, uma saga de herói em busca de si mesmo, com total harmonia entre as diversas linguagens teatrais:  texto,  música,  objetos cênicos, gestual, coreografias. Organicidade.

               O público “embarca” completamente nesta viagem, acompanha as músicas, entende nitidamente a história, que traz, em sua construção, o viés da narrativa oral cênica, onde os três atores também se alternam entre narradores e personagens.

               O excelente texto, também de Simões, fala de heróis, mocinhas, aventuras – com claros códigos da Narrativa do Herói,  de Joseph Campbell , articulado com os “textos” das músicas, sob   primorosa direção musical de Victor Salzeda,  que traz um repertório popular brasileiro rico, diversificado e absolutamente integrado à narrativa textual e cênica.

               A música, ao vivo,  é conduzida com extrema competência pelos músicos do Grupo Fabricarte Juan Paz, Camila Ferola, Natan Figueiredo, Giovana Sassi com arranjos também de Victor Salzeda.

               O elenco – Victor Salzeda, Raquel Penner e Thiago di Muniz - interpreta, narra, canta, coreografa, manipula objetos cênicos, de forma integrada, cúmplice e talentosa.

               Cabe aqui destacar o trabalho da atriz Raquel Penner, que no papel da “mocinha” Ana Rosa, coringa em outros papéis,  em composições ousadas,  principalmente a de Sinhá Zepha,  cheia de humor e mistério, quando a atriz anda no fio da navalha, com total sabedoria cênica. É difícil fazer diversos papéis num espetáculo infantil, pois a criança sempre “descobre” o ator, o que neste caso não acontece – o público assimila os três personagens de Raquel Penner, sem nenhuma hesitação.

               O espetáculo abrange uma ampla faixa etária; é um espetáculo musical para toda a família, que prende a atenção de adultos e crianças, por sua história lírica,  mas cheia de aventuras,  suspense e magia,  com  heróis e heroínas,  embalado pelas músicas  entoadas por toda a platéia. Uma tarde de aconchego, no acolhedor espaço cênico da Scuola di Cultura.

 

Carlos Augusto Nazareth   -  Jurado e Coordenador do Prêmio Zilka Sallaberry em sua 11ª edição

Crítico do Jornal do Comércio    2003

Crítico do Jornal do Brasil           2004/2005/2006

Crítico do Jornal  Culturarte       Petrópolis

Crítico do Jornal Vertente e do site do CEPETIN

Jurado do Prêmio Coca Cola

Jurado dos Prêmios de Dramaturgia da Funarte

Jurado do Prêmio de Dramaturgia Luso Brasileiro

Jurado do Premio de Dramaturgia Minas Gerais

Jurados de diversos editais do Municipio, Estado e Nacional

Jurado e debatedor de Festivais Nacionais e Internacionais como Blumenau,

Juiz de Fora, Belo Horizonte, ,Manaus, Rio de Janeiro

Jurado do Prêmio de Dramaturgia CBTIJ

Jurado da seleção do circuito Sesc Cbtj

Jurado dos Prêmios Ana Maria Machado e Magda Modesto do CEPETIN