UMA TARDE INESQUECÍVEL
por Carlos Augusto Nazareth

Em 1995 Ilo Krugli, no I SEMINÁRIO DO TEXTO TEATRAL E DO TEATRO NA ESCOLA, realizado na Biblioteca Estadual Celso Kelly, depois que o público colocou suas preocupações, suas questões e sua visão da situação do teatro infantil no país, Ilo teve uma fala comovida:
“Ouvindo vocês falarem tenho a sensação de que nada fiz nestes trinta e cinco anos de trabalho, pois, quando comecei as reclamções eram as mesmas que ouço hoje... trinta e cinco anos depois”
Hoje à tarde, assistindo a um espetáculo no Rio de Janeiro, tive exatamente a mesma sensação que Ilo Krugli, em 1995. Parece que nos meus vinte e cinco anos de trabalho com o teatro infantil nada mudou.
E já tivemos momentos gloriosos mesmo de excepcional qualidade e excelência do teatro para crianças.
Temos, no momento, ações permanentes – o CBTIJ Centro Brasileiro do Teatro para a Infância e Juventude, que desenvolve trabalho sistemático em prol da qualidade do teatro para crianças, o Centro de Referência do Teatro Infantil, que tem uma programação de qualidade e realizará em meados do ano o seu já conceituado Encontro de Linguagens, em busca da excelência do teatro infantil, este blog, que foi criado com este mesmo objetivo e também com este mesmo objetivo foi criado o Centro de Estudo e Pesquisa do Teatro Infantil CEPETIN, que criou o Prêmio Zilka Salaberry de teatro infantil, o Fórum permanente de dramaturgia, em parceria com a Casa da Leitura, e outras atividades em desenvolvimento.
E o que vemos? Um texto de Maria Clara Machado, Maria Minhoca, em cena, da forma mais inacreditável que se possa imaginar. Uma tarde para não se esquecer jamais.
O público reduzidíssimo de cerca de vinte pessoas, absolutamente apático, assistia ao festival de sandices em cena.
Um dos personagens, para não ver o outro “escondido” atrás de um banco ficava todo o tempo de sua fala de costas, para não ver o personagem, atores que não sabiam falar, diziam mecanicamente o texto, muitos deles com problemas sérios de prolação, necessitando urgentemente de orientação de um fonoaudiólogo.
O cenário era uma tapadeira de pano, onde havia uma porta e uma janela com cortinas, com flores de plástico embaixo da janela; era o protótipo da “estética do teatro infantil” que ocupou os palcos durante anos, mas que agora, só se vê em casos terminais.
Os figurinos simplórios, chegavam a ser risíveis. Ternos imensos, para atores pequenos, leão de astracam e uma espanhola, feita por um “ator” que era – no mínimo – para deixar qualquer ator realmente profissional ofendido e pasmo. Além de tudo o ator, na pele da sensual espanhola, tinha posturas corporais e movimentos com a boca que chegavam ao obsceno.
A chamada trilha sonora eram alguns ruídos mal gravados e altíssimos, que eram introduzidos na cena, sem a menor sutileza e uma música gravada sobre a qual a atriz fazia mímica, como se cantasse. Trágico, senhores. Trágico.
Não é possível que estes atores não assistam aos espetáculos em cartaz que resguardam a dignidade do teatro infantil, como OS DIFERENTES do grupo Hombu, ESTAÇÃO DRUMMOND, da Cia. de Teatro Medieval, ROBSON CRUSOE, com Eudardo Rieche, dirigido por João Baptista.
Impossível que não percebam que há algo diferente no mundo do teatro para crianças.
Impossível que não percebam que este teatro que fazem é anacrônico, insulta a classe artística, o pai, o educador e a criança.
Para completar a tarde e mais uma vez percebermos como se trata a criança no teatro, havia na platéia três deficientes mentais, já com bastante idade e que – evidentemente – tinham o comportamento que o elenco propunha e estimulava em seu público infantil, avisando que o personagem foi por ali e não por aqui, aconselhando-o que tomasse cuidado. Assim os realizadores deste teatro infantil vêm seu público. Os deficientes mentais emocionavam pela sua sinceridade, mas acreditamos firmemente que eles estariam muito mais satisfeitos se lhes fosse dado um espetáculo digno como também merecem e não só as crianças. É uma delicada questão, onde a questão da ética e da estética aqui se coloca de forma plena.
O nome de Maria Clara Machado é usado para atrair público a um espetáculo desta natureza e o teatro Cândido Mendes, que já teve seus momentos de glória, precisa preservar ainda o nome da instituição e melhor selecionar seus espetáculos. O espaço também é responsável por estes desastres cênicos, pois, de alguma forma, estar em cartaz no Teatro Cândido Mendes é, ainda, um respaldo de que assistiremos a um bom espetáculo.
E seriamente se pensa – como é possível este tipo de peça sem NENHUMA qualidade estar em cena no Rio de Janeiro, em Ipanema, no Teatro Cândido Mendes? Este espetáculo é uma acinte ao público. Um desrespeito. Na era da comunicação imediata, não conseguimos entender como um grupo de teatro não tomou ainda conhecimento que este teatro é anacrônico, contra-producente, desestimula a ida ao teatro, uma assassinato a ética e à estética, é uma das razões do teatro para crianças estar vazio, cada vez mais, a cada dia que passa.
E mais ainda. Na verdade o teatro reflete como o país trata a criança, a educação, a formação de cidadãos - é apenas um reflexo de algo bem mais grave.
Os pais, embora tentando fazer com que aqueles momentos fossem aproveitados pelos filhos, com certeza têm sensibilidade suficiente para não tornar a levar seus filhos ao teatro para crianças. E este triste registro ficará gravado no inconsciente das crianças que amanhã, com certeza, detestarão teatro.
O público de amanhã está sendo destruído pela péssima qualidade do teatro infantil hoje.
As honrosas exceções e os movimentos pontuais não têm sido suficiente para deter esta escalada destrutiva que assola o teatro para crianças. É desastroso. É triste. É desanimador. É revoltante.
O que fazer? Assistir de braços cruzados a este infanticídio, a este teatricídio a este espectadoricídio? Não sei. Há momentos que parece que a única coisa fazer é bater em retirada.
Mas algo às vezes inexplicável e maior que nós mesmos nos faz permanecer na luta. Até quando?