UM OLHAR SOBRE A INFÂNCIA
Infância e história
por Carlos Augusto Nazareth

Para os gregos a infância é um período fantástico para o aprendizado. É comum se dizer que o que se aprende, quando criança, fica de modo indelével na memória.
A cultura grega tem a tendência de considerar a infância como uma fase privilegiada da vida humana.
Diferentemente da grega, a arte romana teve uma preocupação com a idade e com a criança pequena e em crescimento. Preocupação esta que só estaria presente na arte ocidental, durante a Renascença.
Vale lembrar que a primeira lei que proibia o infanticídio data de 374 DC..
Na Idade Média, o comportamento é marcado pela infantilidade entre todas as faixas etárias. Nota-se que não há um conceito exato de adulto e muito menos de criança.
Sendo assim, a infância se estende apenas até os sete anos. Nessa idade passa a ter acesso à língua escrita. O menino de sete anos é um homem em todos os aspectos, exceto na capacidade de fazer amor e guerra.
Nesta época não existia o mundo da infância, as crianças freqüentavam festas em que homens e mulheres alcoolizados se comportavam vulgarmente, sem pudor na frente dos menores.
Sintetizando, invisível era a palavra que definia a criança na Idade Média, sem dúvida uma diferenciação entre o mundo medieval e o mundo moderno.
Na modernidade, em culturas onde há diferença explícita entre o mundo adulto e o mundo infantil esses segredos são revelados às crianças na medida em que elas se encaminham para a fase adulta e quando se acredita que esses segredos sejam assimiláveis psicologicamente.
Um novo ambiente começou a tomar forma no século dezesseis como resultado do surgimento da imprensa e da alfabetização, surgindo uma nova definição do conceito de idade
Assim se chega a uma concepção de infância que reclama a necessidade de ser protegida dos segredos do mundo adulto, principalmente os sexuais e assim surge uma visão considerada moderna do sentimento de infância.
No entanto, para que a idéia de infância se concretizasse foi necessária uma mudança fundamental que ocorreu em meados do século XV, quando Gutenberg inventou a imprensa.
Assim, a nova idade adulta passou a excluir as crianças e estas, expulsas do mundo adulto, passaram a habitar um outro mundo, o mundo da infância.
Depois da invenção da imprensa os jovens para se tornarem adultos tinham que entrar no mundo letrado e para tal tarefa precisavam de educação. Diante disto a escola foi inventada pela civilização européia
O surgimento da escola provocou uma revolução profunda no próprio sentimento de família. Agora, esta não era mais responsável pela aprendizagem de suas crianças, pelo contrário, confiava à escola o papel de educar seus filhos.
Então, no século XVII as crianças foram se tornando sujeitos de respeito, especiais. Com natureza e necessidades diferenciadas, separados e protegidos do mundo adulto.
No século XVIII se difundiu dois conceitos de infância. Uma onde a criança era vista como uma “folha em branco” a ser preenchida a caminho da maturidade. Tudo se constituía num processo de desenvolvimento do aprendizado, nada importando o biológico. Por outro lado a visão romântica concebia a criança como importante em si mesma, um cidadão em potencial. De natureza sincera, curiosa, espontânea, não deveria ser castrada pela educação.
No final do século XIX, estabelece-se uma discussão que fundamenta até os dias de hoje os debates sobre a infância. Por um lado se defendia que a criança não era uma tabula rasa, devendo-se levar em conta as exigências feitas pela sua natureza, pois do contrário poderiam ocorrer disfunções de sua personalidade.
Ao mesmo tempo Freud afirmava que as primeiras interações da criança como o meio eram decisivas para determinar o tipo de adulto a ser formado.
O primeiro sustentava, assim como Rousseau, que a mente da criança não é uma tábula rasa, devendo levar em conta as exigências naturais desta, pois, caso contrário, ocorreriam disfunções na personalidade. Ao mesmo tempo, Freud confirma Locke, afirmando que as primeiras interações da criança com o meio são decisivas para determinar o tipo de adulto a ser formado, encontrando na razão um meio de controlar e sublimar as paixões da mente humana. Da mesma forma, mas num âmbito filosófico, Dewey afirmou que as necessidades psíquicas da criança devem ser entendidas a partir do que a criança é e não do que ela será. Apenas com a identificação dos instintos e necessidades reais da infância, a disciplina e a cultura da vida adulta virão na época devida.
Dewey afirmou que as necessidades psíquicas da criança devem ser entendidas a partir do que a criança é e não do que ela será. Apenas com a identificação dos instintos e necessidades reais da infância, a disciplina e a cultura da vida adulta virão na época devida.
A criança passou a ser entendida como possuidora de suas próprias regras de desenvolvimento, sua própria natureza, desenvolvidas no meio que em interação com o meio sócio-familiar e que estas características próprias, inerentes, inalienáveis não devem ser reprimidas com o risco de não se alcançar uma maturidade plena, adulta

O desaparecimento da infância

Através dos meios de comunicação, a informação chega a todos de maneira indiscriminada e simultânea; portanto, percebe-se que a mídia eletrônica não retém qualquer tipo de segredo. Explicita-se aqui o motivo pelo qual a infância torna-se ameaçada perante este contexto: os segredos são inexistentes. Como dito anteriormente, o segredo é um pré- requisito para que exista a infância. Na Idade Média não havia meio de contar com a informação exclusiva para os adultos; portanto não havia diferenciação no nível de conhecimento e, conseqüentemente, não havia infância. Contudo, na "Era de Gutenberg", surge este meio, enquanto na "Era da Televisão", ele se dissolve.
Isto posto, infere-se que tanto a autoridade do adulto quanto a curiosidade da criança perderam o espaço, pois é nos segredos que as "boas maneiras" e a vergonha estão instaladas. Estamos à frente das mesmas condições presentes no século XIV, quando nenhuma palavra era considerada imprópria para a percepção audível de um jovem.
Como visto, a infância é um evento social, pois está condicionada ao "olhar" da cultura e de um determinado momento histórico. Deve-se considerar, também, para essa conceituação, o fator econômico, uma vez que a infância perpetuou-se, de fato, apenas no momento em que uma idéia de classe média em ascensão pôde sustentá-la
A linha divisória entre a infância e a fase adulta criada pela prensa tipográfica foi apagada pela televisão. A cultura livresca criou um novo modo de pensar adulto firmado em um progresso gradual e cumulativo de conhecimento, em contrapartida, a cultura predominantemente visual e imagética permeada pela linguagem oral que a televisão traz em seu bojo, permite com que as crianças tenham acesso ao mundo que antes era considerado impróprio a elas. Assim, antes mesmo da criança aprender a ler e a escrever, a mídia televisiva já terá escancarado o universo do adulto, que antes se constituía em algo a ser desvendado aos poucos, acompanhando o crescimento da mesma.
Atualmente, o conceito adulto-infância está bastante confuso, sem fronteiras. Nota-se que brincadeiras de rua, jogos, brinquedos manuais, já não são mais alvo de interesse de nossas crianças ou então não estão disponíveis as mesmas. O vestuário infantil confunde-se com o do adulto: crianças vestem roupas sensuais, salto alto, usam maquiagem e acessórios exagerados; enquanto adultos querem prolongar a adolescência, vestindo-se de forma apropriada a este período
A partir dessas considerações, parece que a concepção de infância dos dias de hoje é semelhante à da Idade Média, quando a criança era concebida como um adulto em miniatura.
Nesse sentido, mais particularmente, a noção de individualidade é que faz com que a criança seja entendida, assim como visto nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (1998), como um "sujeito de direitos", um ser uno, indivisível, curioso, dotado das melhores potencialidades da espécie e que deve ser respeitado, pois se encontra num momento de formação da personalidade e dos valores morais. A criança passou a ter uma identidade e constituiu-se em alvo de atenção e respeito.
É essencial destacar que o sentimento de infância geralmente é muito mais presente nas famílias dotadas de maior poder aquisitivo.
Afastando as crianças das brincadeiras e da vida escolar, o trabalho infantil é um velho conhecido que ainda se encontra na pós-modernidade. Está presente no cotidiano tanto dos menos quanto dos mais favorecidos economicamente, claro que de maneira diferenciada. Enquanto uma minoria, geralmente oriunda de famílias um pouco mais privilegiada economicamente, trabalha atuando na televisão, nas passarelas, e até mesmo junto aos pais em seus negócios; a maioria das crianças, advinda de camadas desprivilegiadas da sociedade, trabalha em atividades penosas fisicamente.
Estas duas formas de trabalho prejudicam a criança, que é privada de se desenvolver dentro dos limites de suas potencialidades
A infância está cercada de inúmeras ameaças. Neil Postman defende que a infância está desaparecendo.
E é diante desta infância ameaçada e de tão difícil definição que a Arte atua e tem papel preponderante, mas para isso é necessário que mais que nunca se conheça a criança hoje. Suas necessidades, anseios e carências. Seu real e seu imaginário.
Através da arte tocamos o sensível. Através do drama tocamos o sensível e o lógico. A possibilidade de construção e reconstrução se faz aqui e agora no contato com a Arte, e com a Arte dramática o repensar é mais amplo, porque drama é a interação do sensível com o lógico.
Bibliografia:
In, Revista Sul Americana de Filosofia e Educação (resumo)
ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LTC, 1981
BRAYNER, Flávio. Da Criança-cidadã ao Fim da Infância. In: Educação e Sociedade,
KOHAN, Walter Omar. Filosofia para Crianças. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. Coleção (O que você precisa saber sobre).
POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999
RUSSEFF, Ivan. A Infância no Brasil pelos Olhos de Monteiro Lobato. In: FREITAS, M. C. (org.). História Social da Infância no Brasil. 2 ed. São Paulo: Cortez, 1999.