TRILHA SONORA VIVA
por Marco Aureh

“A música feita para teatro tem uma especificidade. Ela tem uma proposta principal que é servir a cena, portanto, mais importante do que a sua beleza ou qualidade é a sua funcionalidade” Certa vez me perguntaram numa entrevista: “O que é o teatro?”. Respondi: “É a arte mais completa de todas por ter a capacidade de reunir todas as outras artes”. Partindo desse ponto e considerando a música gravada como sendo algo “frio” em comparação àquela executada no momento presente, entendo que as trilhas sonoras de um espetáculo teatral (adulto ou infantil) devam ser executadas ao vivo. É óbvio que o teatro é um universo imensamente flexível, quase tudo nele é possível. Mas considero que a sonoplastia criada na hora (plásticos sugerindo o som da chuva, um par de cocos gerando o galope de um cavalo, por exemplo) têm muito mais condições de induzir e principalmente servir a cena. Isso se aplica para qualquer música tocada ao vivo. Ela pode seguir o tempo do ator e vice-versa; pode acompanhar as nuances variadas de um dia para o outro e compor um resultado muito mais associativo, mais sincrônico e real.
Vejamos o que ocorre no teatro feito para crianças.
As produções de teatro infantil, principalmente nas duas últimas décadas, investiram muito na música tocada ao vivo. Eu diria que esse investimento acabou influenciando o segmento de teatro adulto que também tem se apoderado deste recurso fundamental. Excetuando as categorias de espetáculos considerados “musicais”, onde a música ao vivo chega a ser a principal atração, sobretudo quando se conta a história e a biografia de um compositor (Noel Rosa, Villa Lobos, Pixinguinha, João do Vale, Cartola, Silvio Caldas, etc), a categoria de teatro adulto tem o costume de “simplificar” a trilha com uma sonorização gravada. É fato que a música ao vivo “normalmente” tem um custo maior do que uma trilha gravada, mas o resultado é infinitamente compensador.
A música feita para teatro tem uma especificidade. Ela tem uma proposta principal que é servir a cena, portanto, mais importante do que a sua beleza ou qualidade é a sua funcionalidade. Existem trilhas que sozinhas não funcionam como música. Podemos confirmar isso em alguns discos de trilhas de cinema que foram lançados e até vendem bem, porém a sua sonoridade perde sentido quando separados das imagens inspiradoras.
O poder da música é incontestável. A capacidade que ela tem de emocionar já é notória por si só, independente de estar ligada à uma imagem visual, porém, quando se une imagem (situação, ação), e som (música, efeitos sonoros) de forma sincrônica, o resultado é fantástico pois o áudio tem o poder de influenciar, induzir, antecipar, sublinhar e potencializar a cena.

Marco Aureh
Músico, ator e compositor