TODO TEXTO É SIGNIFICAÇÃO
por Nanci Nóbrega

PARTE I

Convido-os para algumas considerações acerca da adaptação de Vasalisa . Reflexões acerca da adaptação deste texto, desta história, desta narrativa para várias linguagens; neste caso aqui, para a linguagem teatral. Mais especificamente, se é que queremos classificar, para adaptação teatral ligada a um público específico, que é o público infantil – um público muito especial.
Para começar, precisamos de alguns pressupostos. O primeiro deles, ou seja, nossa primeira premissa é a questão de que as narrativas são atualmente assunto de vários campos de estudo. Encontramos a questão das narrativas na História, na Literatura, nos Estudos Culturais, na Mitologia, na Simbologia, na Leitura. Assim, nosso primeiro pressuposto acerca das narrativas é que elas são campo de estudo e, portanto têm uma multidimensionalidade.
Como nosso texto foi pesquisado em Clarissa Pinkola Estés, analista junguiana, é claro que nossa conversa terá seu enfoque na área da Psicologia, principalmente na Psicologia Analítica, a linha de trabalho de Carl Gustav Jung.
Nesse sentido, Vasalisa é narrativa que traz um núcleo fundamental, assim como todas as grandes narrativas, e representa um rito de iniciação. É uma jornada do herói, onde vão acontecer fatos, elementos, ações que configuram este processo de engrandecimento da alma e de constituição do Eu.
Porém, como pressupomos, não podemos enfocar nenhuma narrativa só por um aspecto, só com uma face, já que ela é pluridimensional. Desta maneira, é fundamental entender Vasalisa com esta percepção de que existe nela uma dimensão múltipla, pois, como vimos, a linha-mestra da minha compreensão é de que existem muitas dimensões numa narrativa.
Assim, Vasalisa, uma narrativa da tradição, possui este grande tesouro que é sua multidimensionalidade e, sendo assim, essas variadas dimensões têm que aparecer de alguma maneira nas adaptações que forem feitas para outras linguagens.
Para a Psicologia Analítica – e essa frase é de Marie-Louise Von Franz, que também é junguiana – um conto de fada é uma dança de arquétipos. Então, Vasalisa traz à tona os segredos de nossa alma, da alma de todos nós, aquelas imagens que pertencem à herança coletiva. Padrões simbólicos que pertencem a todos os povos, em todos os tempos. Assim, no momento em que falo da minha alma, da alma de cada um, estou também falando da alma coletiva.
Dessa forma, as histórias da tradição são histórias que nos constroem, são narrativas fundantes, que fundam esses que somos nós.
Então, na dimensão psicológica há um mergulho dentro de si, da alma individual, singular, da alma de cada um. E, ao mesmo tempo, e exatamente por isso, um mergulho na alma coletiva.
E é esta adaptação para dramaturgia, para esta linguagem dramatúrgica, voltada para um público especial, que é o público infantil, com sua inteligência e sua crítica, que nós vamos comentar neste Encontro.
Se considerarmos Vasalisa como esse mergulho na alma humana e na alma coletiva, e a compreendermos como arquetípica, precisamos refletir e nos indagar: é um arquétipo de quê? Do que fala Vasalisa? Quando eu conto Vasalisa, eu estou falando de quê?
E ainda: enquanto linguagem dramatúrgica, estamos contando Vasalisa numa linguagem diferente daquela do texto oral, ou do texto escrito, e, desta maneira, precisamos perceber seus pontos significantes, sua significação, para que estes, especialmente estes não deixem de existir nesta outra linguagem da adaptação.
Estou dizendo que é de uma extrema coragem essa decisão de adaptar Vasalisa para teatro, porque um texto como Vasalisa... A gente precisa desse texto! Ele vem ao longo do tempo e ele vem como narrativa oral e depois como narrativa escrita e, agora, ganhará essa outra forma de ser. É de grande coragem porque não é só uma adaptação, é uma transfiguração, quando você sai de uma linguagem para outra .
Estamos conversando sobre as narrativas da tradição e, ao mesmo tempo, falando da potência da palavra, fundamental nas narrativas. Nelas, as palavras não são palavras quaisquer, são palavras plenificadas, já que fazem viver as narrativas denominadas fundantes. Se for uma dança de arquétipos, não podemos dizer desses arquétipos com qualquer palavra. Então, são palavras muito bem escolhidas; cada uma delas é plena de significação. É a palavra pela qual conseguimos dizer o que queremos dizer. Então, cada palavra nesse conto, nessa narrativa, tem uma razão de ser.
Conseqüentemente, essa é a grande questão do reconto: quando fazemos uma adaptação, quando recontamos uma história, precisamos de uma grande bússola, um grande norte. Qual é a palavra que eu não posso deixar de dizer? Quais são as palavras que estão sobrando? Essa é a grande questão da adaptação: saber qual palavra resiste, qual palavra vai acionar alguma coisa na alma de cada um e na alma coletiva. Porque eu preciso dizer também que a minha questão dentro dessa dimensão múltipla das narrativas é percebê-las como táticas de resistência . As narrativas são isso. Sendo assim, elas têm um atributo político. É claro que vocês percebem, que não precisamos ter pudor de dizer a palavra político, uma vez que não estamos falando de politicagem, e sim de política, de um mecanismo de transformação pessoal e coletiva.
Nas narrativas também a questão do tempo é crucial. Quando é dito “era uma vez”, a gente suspende o tempo. O narrador, ele pára, ele morre, o narrador quando diz “era uma vez”, ele abre uma porta. O narrador está sempre no umbral. Para ele narrar é uma morte, porque ele precisa se apagar para acender a história. Nesse sentido – e para pensar no tema deste Encontro, na dramaturgia, na linguagem teatral – que morte será esta? Porque alguma morte tem que acontecer para que a narrativa viva. Porque é ela que é a resistência. Vem através dos tempos e chega até hoje porque se transfigura: oralmente, por escrito e, depois, numa encenação.
Então, vejam: estas histórias fundantes, esses textos-fonte, eles são fonte de inspiração de vida, eles próprios configuram-se como arquétipos: as ações, os personagens, essas vidas, esses universos que ali estão são fonte, fonte para cada um de nós, fonte para esse coletivo que somos nós.
Então vejam bem a delicadeza, o incrível compromisso, como é profundo trabalhar, mexer com essas questões e ao mesmo tempo como é corajoso trazer essas questões à tona. Quando você narra, você traz alguma coisa à tona; quando se escolhe Vasalisa para encenar, se está aceitando como compromisso trazer alguma coisa à tona, principalmente nos tempos de hoje, onde a superficialidade é imensa. Portanto, hoje há uma necessidade urgente de grandes conteúdos. Então é muito meritório enfrentar, digamos assim, Vasalisa.