TEXTO TEATRAL E LEITORES: DISTANCIAMENTOS REAIS, APROXIMAÇÕES POSSÍVEIS

 

Carlos Augusto Nazareth[1]

Fabiano Tadeu grazioli[2]

 

 1 A dramaturgia ausente do contexto escolar (e a falta que ela faz)

 

Os professores que estão atuando em escolas públicas e particulares no
Brasil, ao oferecerem gêneros textuais a seus alunos com o objetivo que
possam construir o significado dos textos, num processo de recepção

singular, se considerados os referenciais dos leitores e a busca do contexto

e dar referências do autor, têm deixado de lado nesse processo o texto

dramatúrgico, o texto teatral (RÖSING, 2005, p. 15).

 

         

           O texto teatral não faz parte do universo do leitor brasileiro. Verificamos esta realidade muito mais acentuada, quando o foco é o âmbito escolar, bem como afirma Tânia Rösing no fragmento utilizado como epígrafe. Normalmente o texto teatral é tomado como algo que apenas interessa às pessoas de teatro (atores, diretores, encenadores) e que visa, unicamente, à montagem teatral. Esta questão tem suscitado uma profícua discussão sobre suas possibilidades enquanto meio de ampliação das habilidades de leitura.

          Os Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa recomendam a diversidade de textos, assinalando o texto teatral, tanto no ensino de primeira a quarta série, como no ensino de quinta a oitava série e no ensino médio - como forma de ampliação das possibilidades de leitura do mundo. No entanto, a preferência pelo gênero narrativo é quase absoluta, com um pequeno espaço para o texto lírico e uma total escassez de atividades e metodologias em torno do texto dramático. Embora previsto nos programas é sabido que as escolas, nos diversos níveis de ensino não promovem o contato entre aluno e texto teatral. Muito antes de os PCNs serem organizados, Helena Barcelos já observava que “a criança aprende poesia e prosa, mas a dramaturgia nunca foi pensada e lhe é negada” (1975, p. 33).

          A leitura do texto dramático pode ser entendida como um processo de formação de duas categorias de leitores: uma voltada para a leitura do texto teatral impresso, e outra voltada para a interação entre o leitor e a atividade cênica, considerando as diversas formas em que essa interação pode acontecer. Assim sendo, ignorando as possibilidades metodológicas acerca do texto dramático, a escola estará negligenciando a formação de uma outra categoria muito especial de leitores: aqueles capazes de interagir com a arte dramática, seja como público receptor de espetáculos teatrais, seja como aprendizes ou praticantes de atividades que envolvem o texto teatral e a arte dramática. Dessa maneira, no nosso

 

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[1]Graduado em Literatura Brasileira (UERJ). Professor, escritor, dramaturgo, diretor teatral e crítico de teatro do Jornal do Brasil, Pos-graduado em Literatura Infantil UFF

[2]Mestre em Letras - Estudos Literários (Leitura e Formação do Leitor) pela Universidade de Passo Fundo/RS (2007). Especialista em Metodologia do Ensino da Literatura pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – Campus de Erechim/RS (2004). Diretor de Teatro.

 

entender, um único equívoco – a negação da leitura do texto dramático – apresenta duas conseqüências negativas: o afastamento do leitor do texto dramático impresso e da arte dramática, para a qual o texto é elemento fundamental.

          É importante salientar que a leitura do texto dramático é uma maneira de aproximar o leitor do teatro. O texto dramático é o único elemento permanente da representação teatral, já que o espetáculo teatral é efêmero – dura o tempo de uma apresentação. O texto teatral, considerado uma obra de arte intermediária, que se complementa no palco, também se completa no imaginário do leitor. Segundo Catarina Sant’ Anna “é um texto grávido de um espetáculo teatral” (1995, 38) e sua leitura inicia o leitor com naturalidade na transcodificação de uma obra de arte, na transformação de uma linguagem em outra linguagem – a arte literária em arte teatral. A “gravidez” a que se refere Sant’Anna não se completa necessariamente no palco, mas também pode completar-se, como já dissemos, no imaginário do leitor.

          Esse processo de leitura - é importante que se diga - é próprio do diretor teatral que, pela prática de sua atividade, “vê” o espetáculo que pretende montar através da leitura do texto dramático, pois ali estão, como que condensadas, todas as linguagens (musical, plástica, gestual, vocal) das quais o espetáculo teatral se vale para existir. Contudo, qualquer leitor pode, com a prática, ir “descobrindo” e “revelando” todas estas linguagens contidas num texto dramático, o que lhe permitirá, em seu imaginário, a visualização de um espetáculo completo. Isso permite afirmar que, se tivermos cem leitores, teremos cem espetáculos diferentes, pois cada leitor cria o seu próprio espetáculo virtual em um espaço também virtual, a sua mente.

 

2 O texto teatral e sua estrutura diferenciada

 

          Uma das diferenças fundamentais entre o texto narrativo e o texto teatral é que o texto narrativo “conta”, enquanto o texto teatral “mostra” uma história. Esta diferença se acentua pela ausência, no texto dramático, do narrador evidente, tal qual verificamos na narração. É claro que o texto narrativo é lacunoso, no sentido de permitir dialogicamente a interação entre leitor e texto, contudo o texto dramático, pela sua estrutura e pela ausência do narrador tradicional é, certamente, mais lacunoso que o texto narrativo, permitindo ao leitor uma ação mais efetiva como co-autor do texto.[3] A ausência do narrador tradicional e o seu aparecimento nas rubricas, tal como aponta Anatol Rosenfeld (2002, p. 29), é uma característica particular do texto dramático que faz com que sua estrutura também se altere, pois, na ausência do narrador evidente, o texto dramático reproduz em discurso direto as falas dos personagens. Tais falas têm função dramática, pois criam uma ação dramática e têm um objetivo, um fim determinado e, através dos diálogos, revelam os personagens, suas características, maneiras de agir e de ser.

          Outra diferença fundamental entre o texto narrativo e o texto teatral, que já deixamos implícita no parágrafo anterior, é o fato de a construção do segundo se operar em dois níveis. Um, constituído pelas falas dos personagens e o outro pelas rubricas ou didascálias que nos dão informação sobre movimentação da cena redigida, seu clima, sobre o estado do personagem e seu caráter. Portanto, essas diferenças e peculiaridades têm que ser mostradas ao leitor iniciante, para que ele possa entender a história e fazer a transcodificação a que nos

 

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[3]Desenvolvemos esse tema na próxima seção.   

 

referimos anteriormente “vendo” a cena em seu imaginário, com movimentação, cenários, luzes e figurinos vai se formando como um quadro, pois o texto fornece elementos que lhe possibilitam visualizar a história, vê-la. É por isso que afirmamos que o texto dramático “mostra”.

          Cabe salientar que a possibilidade de a palavra ser responsável pela criação de imagens visuais, proporcionando ao leitor a visualização da cena (presente, ali e agora) ocorre também no rádioteatro e na contação de histórias. Daí advém o fascínio dos leitores e espectadores por essas manifestações da linguagem artística.

 

A ativação da imaginação pela leitura do texto teatral

 

          Comentada a estrutura do texto teatral, é importante salientar que é devido a essa estrutura que a ativação da imaginação provocada pelo texto dramático se diferencia das formas de ativação provocadas pelos outros gêneros. De modo geral, a leitura implica um exercício de imaginação que se torna mais intenso, quando relacionado à literatura e cada gênero literário ativa de forma diferenciada a imaginação. O gênero lírico afeta diretamente a emoção do leitor, que parte, em seguida, para a associação de idéias, do que resulta a criação de imagens e sensações.O gênero narrativo promove a relação do leitor com o protagonista (ou narrador) e, com o desenvolvimento do enredo, desperta a capacidade de ouvir e entender uma história contada, relacionando seus elementos e observando o andamento do enredo – a história é o foco. O texto dramático, por sua vez, ativa a capacidade de visualizar a cena da história, a maneira como aconteceu; resgata a história e o sentimento da história, seja para o espectador, seja para o leitor. Massaud Moisés assim discorreu sobre tal diferenciação: “O leitor de teatro, falho de recursos como dissertação, narração e descrição, vê-se obrigado a movimentar todas as turbinas de sua imaginação, sob pena de permanecer impermeável ao texto” (1969, p. 212).

          O texto teatral apresenta “aqui e agora” um fato ocorrido na realidade ou ficção em qualquer época, em qualquer local. Uma cena que poderíamos chamar de uma unidade do drama, que tem um clima e uma função dentro da história, e que abriga personagens, também que têm um estado e uma função dentro do drama. Este estado de tensão emocional que acompanha o texto é resgatado pelo espectador, vivenciando a cena como se a houvesse presenciado, mas este potencial de tensão dramática pode ser recuperado também pelo leitor do texto, do mesmo modo que o é pelo espectador da encenação.

          Portanto podemos afirmar que a leitura do texto teatral em relação aos outros gêneros é um exercício de imaginação vital, pois a natureza do gênero dramático atribui-lhe uma particularidade, a qual associa a possibilidade de encenação às possibilidades de interpretação do sujeito leitor. O fato de essa possibilidade estar latente, gritante em sua composição, exige que sua leitura “dê conta” de atualizar mentalmente toda a narrativa e imaginá-la, devendo o leitor apostar nessa faculdade humana para realizar uma leitura significativa do texto teatral.

           Quando uma criança está “vivenciando” uma história, ela forma cenas da sua imaginação no seu interior, em resposta às palavras. Através da habilidade de formar imagens mentais, de compreender, a criança vê sentido na atividade de leitura.

Sem esta habilidade, a criança pode muito bem decodificar as palavras em uma folha de papel, mas continuará sendo funcionalmente iletrada. Daí a importância da atividade interior da leitura. É muito difícil desenvolver aulas junto a alunos de quinta ou sexta séries que tenham dificuldades com compreensão da leitura, com a construção de imagens mentais. Esta capacidade interior, muitas vezes, parece não se ter desenvolvido neles. Por outro lado, crianças do jardim de infância e das primeiras séries, se deixadas desimpedidas, permanecem naturalmente ocupadas, desenvolvendo, interiormente, cenas imaginativas. Estas crianças adoram ouvir histórias e, verdadeiramente, vivem no reino visual da imaginação. A criança “joga” naturalmente, visualiza, vivencia, faz a leitura viva, mas, aos poucos, com o “adestramento” para uma “boa leitura” que recebe, acaba perdendo esta faculdade de visualizar e construir imagens, o que permite uma compreensão integral do texto, daí a importância da leitura do texto teatral, que pode claramente exercitar esta capacidade nata de visualizção através da imaginação, nata na criança pequena e que vai se perdendo ao longo de sua escolarização.

 

4 A Leitura Dramática

 

          Já apontamos, na segunda seção, as diferenças entre texto teatral e narrativo. Agora, é importante que ressaltemos uma similaridade entre eles: ambos contam uma história, ambos têm sua razão de existir porque estão à disposição do fluxo narrativo. Sendo assim, um texto teatral só tem seu sentido de existir, por que narra uma história, fato que o habilita para ser lido como qualquer outro texto, observando, é claro, suas características e especificidades.

          Em um primeiro contato com o texto teatral é fundamental conhecer a história enquanto fábula, situá-la dentro de um contexto e buscar compreender sua premissa, seu significado, sua ideologia, sua qualidade literária. Depois de o texto ter sido compreendido dentro deste viés de leitura, devemos observar as características peculiares do texto teatral. É importante compreender que estrutura que o dramaturgo, ao conceber sua obra, observou. Se é uma estrutura aristotélica, onde um conflito é desenvolvido com vetores que o favorecem e que o atrapalham, até chegar a um clímax, onde se resolve o conflito e então tem-se a solução; ou uma estrutura circular, que é composta por cenas interdependentes, onde uma não é conseqüência da outra como na estrutura Aristotélica; ou então a estrutura da dramaturgia contemporânea, onde a fragmentação predomina, e há falta de início meio e fim claramente definidos.

          Em seguida é necessário observarmos as cenas em que se divide o texto, tomando a cena como um sintagma, ou seja, um trecho da narrativa que se inicia, se desenvolve e termina. Cada um destes sintagmas tem uma função na história, por isso é importante saber a função de cada sintagma no processo narrativo. Dentro do sintagma os personagens têm também uma função e um estado. É de suma importância para a compreensão verticalizada do texto teatral descobrir a função de cada personagem dentro de cada sintagma e em que estado ele se encontra. 

          É importante salientar que o teatro e, portanto, o texto dramático, são capazes de resgatar “aqui” e “agora” o fato ficcional ou real que tenha ocorrido em qualquer espaço ou tempo, possibilitando, assim, que se entenda a fábula, sua razão de ser, suas causas e conseqüências resgatadas no tempo.

Só depois deste entendimento, que pode ser feito através de debates, o que numa montagem profissional se chama trabalho de mesa, é que cada um pode se debruçar sobre seu personagem para intensificar mais ainda o seu entendimento, descobrir suas pequenas nuances, suas características, como se relaciona com os outros personagens, como desenvolve suas funções enquanto condutor da narrativa através de suas ações e diálogos.

          A partir deste momento o grupo (seja de atores, seja de alunos) está pronto para começar a atividade de leitura dramática. Sugerimos que o diretor/professor distribua os personagens entre os participantes e escolha um para ler as rubricas, que são fundamentais, pois trata-se de uma leitura “intermediária”, que fica entre a leitura em voz alta e a espacialização (encenação) de um texto.

          A leitura dramática é quase uma encenação, contudo, na sua dinâmica, estamos privados da ação física completa. Podemos ter um gesto, uma expressão facial, até mesmo um objeto, mas não temos a fisicalidade total, necessária para dar vida ao personagem e verdade à história. Portanto a fala, a voz, a entonação, a intenção, o subtexto têm que ser fortemente definidos para que tenhamos uma leitura viva e que permita ao ouvinte criar seu espetáculo em seu imaginário com toda a vivacidade como se ele estivesse ali sendo encenado naquele momento.

           É importante destacar que a maneira de expressar o personagem tem que vir da compreensão do ator e do “material” que ele possui: sua memória, sua observação, seus sentimentos, sua verdade, que ele empresta ao personagem que “vai tomando corpo”, nascendo, evoluindo, até se tornar pleno e conseguir a contracena, ou seja, saber ouvir, que constitui um dos momentos importantes do ator. Ouvir faz parte do reagir, que é a base da contracena, a qual mantém viva a história.

          A leitura dramática é uma forma de aproximação com o teatro. Se bem realizada e bem conduzida, pode conquistar um leitor e transformá-lo num espectador inveterado, mas mesmo sem se tornar um espectador, ele passará por todas as emoções que um espectador passa ao ver o texto encenado. A leitura dramática é capaz de ser tão prazerosa e eficaz quanto um espetáculo, guardadas as suas respectivas origens, diferenças e similaridades.

 

5 Sugestões de textos dramáticos

 

          Para finalizarmos, apresentamos algumas sugestões de textos teatrais que julgamos próprios para serem utilizados em leituras dramáticas na escola. Optamos por apresentar textos curtos, por que acreditamos serem os mais próprios para iniciar tais atividades no contexto escolar, principalmente nas turmas de 4ª e 5ª séries do Ensino Fundamental, nas disciplinas de Arte, Língua Portuguesa e outras.

 

O casamento de Dona Rosinha[4]

Carlos Augusto Nazareth

 

Personagens

Capitão João Redondo: homem sério, e muito rico

Quitéria: futriqueira, assanhada, esposa de João Redondo

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[4]Peça inspirada no Mamulengo, teatro de bonecos popular de Pernambuco.

 

Dona Rosinha: filha de João Redondo e Quitéria

Benedito: empregado da família, popular leva-e-traz, “desfaz embrulhada, arranja enrascada”

Mateus: figura sempre constante nas festas populares, aqui faz o papel de pretendente de Dona Rosinha

Cabo 70: militar, autoridade na pequena cidade

 

Ato único

Capitão: (Entrando em casa) Quitéria! Quitéria! Em que diabos se meteu essa mulher?

Quitéria: Calma, homem! Que gritaria danada! Por que tanto estardalhaço?

Capitão: Vim matutando pelo caminho. A gente precisa arranjar marido pra Rosinha. Tá ficando velha, acaba ficando pra titia.

Quitéria: Velha? Mal fez dezoito anos!

Capitão: Dezoito? Só se for de janela. Endoidou, mulher? Tá mais do que no tempo de ela se casar. (Saem os dois. O capitão falando e Quitéria atrás reclamando. Benedito, que tudo tinha visto escondido, entra em cena)

Benedito: Mas o Capitão... De onde foi que ele tirou essa idéia de casar Dona Rosinha? (Rosinha está entrando em cena e ouve o comentário de Benedito)

Dona Rosinha: Casar? Casar quem?

Benedito: Nem conto pra senhorita. Se contar, até desmaia.

Dona Rosinha: E se não contar é você quem desmaia, pois que te dou com um porrete!

Benedito (Conta rapidamente): Seu pai quer arranjar marido pra senhorita. Disse que a senhorita já ta ficando “veia”

Dona Rosinha: Velha? Eu? (Benedito se acaba de rir) Se rindo de que? (Dá uma surra em Benedito)

Benedito: Foi seu pai que falou! Puxa, doeu.

Dona Rosinha: E ai de você se fizer alguma coisa pra ajudar meu pai a me arranjar marido.

Benedito: Quer casar não?

Dona Rosinha: Tou ainda muito moça, não quero saber de casamento. Tenho muito que namorar!

Benedito (Para o público): Deixe o Capitão saber disso!

Dona Rosinha: Benedito, vá procurar Mateus. Preciso falar com ele.

Benedito: Mas logo o Mateus? Aquela boa bisca, malandrão?

Dona Rosinha: Vá chamar Mateus antes que te faça morder a língua, falastrão. (Sai correndo atrás de Bendito)

Quitéria (Entrando): Benedito! Peste danada!

Benedito: Senhora, minha patroa, pois sim.

Quitéria: Vá procurar o cabo 70. O Capitão quer casar ele com Rosinha. Vá depressa. (Sai)

Benedito (Para o público): O que eu faço? Que beco sem saída. Rosinha me manda chamar o Mateus, e se não chamo ela me arria o porrete. Dona Quitéria me manda chamar o cabo 70 pra modo dele casar com Rosinha, que não quer saber de casamento, só de namorar. E se não chamo, ela me põe no olho da rua. Tenho que resolver uma coisa de cada vez. (Pensa um pouco) Primeiro vou chamar o Mateus. Depois cuido do resto. (Sai)

Dona Rosinha (Entrando): Que demora desse danado. Benedito não chega, preciso falar com Mateus.

Mateus (Entra empurrado por Benedito): Rosinha, minha flor, me dê um cheiro.

Dona Rosinha: Que homem arreliado. Tome tento!

Mateus: Tomo sim, mas antes me dê um cheiro, vá. Aqui na bochecha. (Fecha os olhos e fica esperando “o cheiro”. Quitéria entra, vê a cena e dá uma bofetada em Mateus)

Quitéria: Benedito!

Benedito: Ai meu padrinho padre Cícero!

Quitéria: Quem é esse pilantra?

Benedito: É o mestre de dança senhora Dona Quitéria, é para preparar Dona Rosinha pro baile de casamento.

Quitéria: Benedito, Benedito, eu tou velha mas ainda tenho coco pra pensar. Você não me engana não. (Bate novamente com o porrete em Benedito)

Benedito (sai gritando): Ai, de novo não!

Capitão: Quitéria! (Grita de fora da cena)

Quitéria: Rosinha, seu pai. Me acuda, meu Deus!

Benedito (Pega Quitéria e começa a dançar com ela. Toca uma música.): Dance, Dona Rosinha! Dance, Mateus! Senão quem dança sou eu! (Entram o Capitão João Redondo e o Cabo 70)

Quitéria: Ufa! Senhor meu marido, eu já dancei um bocado. Estou um pouco velha, mas ainda dá pra brincar.

Capitão: Que história é essa?

Quitéria: “Tamos” ensaiando pra festa de noivado. Esse aqui é o Mestre de Dança, o senhor Mateus. Senhor Mateus, este é o senhor meu marido, Capitão João Redondo, e o cabo 70, futuro noivo de Rosinha.

Capitão: Pois você é mestre de dança, não é mesmo? Então comece a dançar. (Para a mulher) Você e Benedito que devem ter arrumado essa trapaça! (Tira um “trabuco” da cintura começa a dar tiro pro alto, Mateus e Rosinha saem correndo, ela chora desesperada)

Capitão: Quitéria, velha abusada. Vá chamar sua filha, que faço esse noivado é agora. (Quitéria sai chamando a filha)

Quitéria: Mas senhor meu marido... (Quitéria hesita, mas resolve sair em busca da filha)

Capitão (Gritando para fora de cena): Nem senhor meu marido nem capitão. Se avie e traga sua filha, mulher desorientada.

Cabo 70 (Diz firme o cabo): Desse jeito, capitão me desculpe, mas não caso.

Capitão (Puxando o revólver): O que disse cabo 70?

Cabo 70 (Muda de idéia assustado): Que desse jeito, pelo visto, caso logo...

Quitéria (Volta aos gritos): Capitão senhor meu marido. Acuda

Capitão: Acuda o que, mulher?

Quitéria: Nossa filha fugiu com o safado do Mateus.

Capitão: Pois vamos na busca dos dois. Que agora esse casamento sai de qualquer jeito. Vamos embora, Cabo 70 (Os dois saem. Entra Benedito pé-ante-pé)

Quitéria: Ai, Benedito, que confusão você foi arranjar.

Benedito: Eu, minha patroa?

Quitéria: Você mesmo, imprestável. (E dá com o porrete em Benedito)

Benedito: Mas patroa, eu não sou o noivo, não sou o namorado, muito menos a noiva e só eu que apanho?

Quitéria: E é bom não reclamar, se não apanha de novo.

Benedito (Ouve vozes do capitão chegando e o choro de Rosinha): Ai meu Deus vou me mandar, se não vem paulada de novo. (Sai sorrateiro. Voltam o capitão e o cabo 70 trazendo Rosinha, chorando, pela mão)

Capitão: Tá aqui a fujona. Tome conta dela Quitéria, que eu mais o cabo vamos buscar o padre, que hoje mesmo se faz o casamento. (Saem. Se ouve um canto de fora, é Mateus)

Mateus: Não chora, Rosinha / Ai, não chora / Você de lá dá um suspiro/ Eu de cá suspiro e meio!

Dona Rosinha (Para Quitéria): É Mateus, minha mãe.

Benedito (Entrando, doído de pancada): Dona Rosinha... Ai! Que se me arranja mais confusão eu acabo-me descaiderando de vez. Desiste desse matuto. Case logo com o cabo 70. Acabe com meu sofrimento... Ai.... Ai....

Quitéria: Seu pai vai acabar matando você e eu. Desiste de Mateus, tome juízo e se case com o cabo que um é bom partido.

Dona Rosinha: Que fazer, meu Santo Antônio?

Benedito: Se case Dona Rosinha, ainda é melhor que ficar pra titia. E eu descadeirado de vez...

Quitéria: E órfã de mãe!

Rosinha (Chegando na janela): Mateus, meu bem querer, minha família não deixa eu me casar com você. Meu pai mata a mim e a você. (Ouve vozes chegando) Fuja, que não tem mais jeito. (Mateus responde de fora)

Mateus: Ai, vou-me embora, vou-me embora / Levo saudades e pena / Lembrança pro pessoal / Ai menina da cor morena!

(Entram o Padre, o Capitão, Cabo 7 e o Delegado, que entra com a garrucha na mão)

Capitão: Vamos logo com o casamento, seu padre, que não tenho mais tempo nem paciência. Aqui está seu delegado, que vai fazer cumprir a ordem. (Os personagens se colocam em semicírculo, preparam-se para o casamento)

Padre: “Dominus vobiscum” e que estejam casados! Pronto capitão, o serviço está feito, e que Deus me perdoe.

Benedito: Que casamento mais fuinha....Melhor começar a festa. Toca aí, sanfoneiro! (Dona Rosinha se agarra no marido, Quitéria no delegado. E dançam. O Capitão bota Benedito pra correr, debaixo de porrete. O padre se anima dançando no canto da cena)

Capitão: Pare a música, sanfoneiro. “Rapaziada, o negócio é o seguinte. Eu peço desculpas a todos, senhores e senhoritas, presentes neste local, se algo não esteve a gosto. Foi tudo uma diversãozinha pequena. E agora, eu, Capitão João Redondo vou-me embora. E viva os noivos! E a todos boa noite, obrigado pela atenção. (Benedito bota a cabeça em cena e fala)

Benedito: E está terminada a função.  

 

O médico[5]

 

Personagens

Pedro

Lenhador

Maria (mulher de Pedro)

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[5]Farsa de Luce Hinter, tirada de uma comédia de Moliére, traduzida da “Collection feu et flamme”, Editions Fleurus, Paris. Não tivemos acesso às referências bibliográficas do texto.

 

O mensageiro do rei

O rei

A filha do rei

 

1º Ato

Cenário: Um jardim

(Pedro, armado de um pau, chama por Maria)

Pedro: Maria! Maria! Você vem ou não vem? (Anda pelo palco, furioso) Maria! Maria! (Chega Maria, sua mulher, tremendo de medo)

Maria: Pronto, Aqui estou... Aqui estou...

Pedro: Onde é que você andava, mulher? Na certa, tagarelando com as comadres faladeiras como você. Venha aqui que lhe mostro o que é desobedecer ao marido. (Com um pau, Pedro bate em Maria)

Maria: Ui... Ui... Ui... Deixa estar, malvado, que eu me vingo. Hoje mesmo eu me vingarei. (Sai resmungando queixas)

Pedro: E agora irei à floresta arranjar um pau mais forte. Este está ficando muito usado. (Sai. Entra o mensageiro do rei procurando alguém)

Mensageiro: Ó de casa! Não há ninguém aqui? (Maria arrisca a cabeça)

Maria: O que é que o senhor deseja?

Mensageiro: Saber se este caminho vai até a cidade.

Maria: Bem... É sim. É o caminho. Mas por que o senhor quer ir até a cidade (Ela aparece) Fazer o quê?

Mensageiro: Você quer mesmo saber? (Confidencial) Pois vou arranjar um médico para a filha do rei.

Maria: Um médico para a filha do rei! Coitada... Ela está doente?

Mensageiro: Muito doente. Está com uma espinha de peixe atravessada no gogó. Não pode nem beber nem comer!

Maria (à parte): Está na hora de eu me vingar de meu marido. (alto) Senhor mensageiro, não é preciso ir à cidade. Meu marido é um ótimo médico.

Mensageiro: É médico?

Maria: É, mas...

Mensageiro: Mas, o quê?

Maria (Aproximando-se dele e confidencialmente) Ele não irá se o senhor não lhe bater bastante. É uma mania... Quanto mais apanha, melhor médico ele fica. É assim mesmo meu marido...

Mensageiro: Onde está este homem? Quero levá-lo, vivo ou morto, à presença do rei.

Maria: Ele deve estar ali perto daquele bosque. Pode chamá-lo. O nome dele é Pedro.

Mensageiro: Pedro! Pedro! Ó Pedro... (Maria desaparece)

Pedro: Quem me chama?

Mensageiro: Sou eu... Venha depressa encontrar-se com o rei.

Pedro: Com o rei?! Por quê?

Mensageiro: Ora! Porque você é médico e o rei está precisando de um urgentemente.

Pedro: Que tenho eu que o rei esteja precisando de um médico? É melhor você me deixar em paz e ir buscar o raio do médico em outro lugar.

Mensageiro: Calma, Pedro calma! (Aproximando-se) Sei que é preciso bater muito em você para... (Bem perto) Chegou o momento... (O mensageiro começa a bater vigorosamente em Pedro. Este grita, esperneia, foge e depois torna a gritar)

Pedro: Chega! Chega! Eu vou!... (De vez em quando aparece Maria e dá umas risadinhas)

Maria (para o público): Cada um por sua vez... Ah... ah... ah!

Mensageiro (Batendo sempre): Ande, Pedro... Para o palácio do rei. Depressa!

 

2º Ato

Cenário: Palácio do rei

(A princesa está recostada num canto, sofrendo. O rei anda de um lado para o outro, aflitíssimo, De vez em quando para, olha a filha e suspirar)

Rei: O mensageiro está demorando muito (Torna a andar) Estou ouvindo barulho...

Mensageiro (falando baixo): Senhor rei, eu vos trago um famoso médico. Mas ele tem uma mania esquisita. Só trata dos doentes quando apanha muito. (Neste momento a filha começa a andar, mas cai de novo)

Rei (Aflito): Então, pau nele, depressa!

Pedro: Mas, rei, não sei nada de medicina.

Rei: Não sabe não? Ah! (Para o mensageiro) Bata nele... Vamos!

Pedro: Ui... Ui... Ui... (Ele faz gestos, contorções, de tal maneira que a filha do rei começa a rir)

Filha do Rei : Ai, meu Deus! De tanto rir, a espinha saiu da minha garganta

Pedro: Senhor rei, vossa filha já está boa. Agora deixai-me voltar para casa.

Rei (solene): Ainda não. Ainda não. Você merece uma boa recompensa.

Pedro (À parte): Ai, será que eles vão começar a me bater de novo? (Alto) Não senhor rei. Muito Obrigado. Estou muito contente de ter prestado um serviço à princesa. Agora quero voltar!

Rei (Enérgico): Ainda não. Mensageiro, dê a este grande médico uma bolsa cheia de ouro e o acompanhe até sua casa.

Mensageiro: Sim Senhor.

Pedro: Muito obrigado... Muito obrigado. Mas prefiro que o mensageiro não me acompanhe. Prefiro ir sozinho. (À parte) Como dói a gente apanhar! Prometo nunca mais bater na Maria! (Maria aparece, abraça Pedro e saem os dois, muito contentes).

 

6 Referências Bibliográficas

 

BARCELOS, Helena. Desenvolvimento da Linguagem Teatral da Criança. Revista de Teatro da SBAT - Seminário de Teatro Infantil, Rio de Janeiro: Serviço Nacional de Teatro - MEC, p. 30-34,1975.

 

BRASIL. Ministério da Educação e do Desporto. PCN: Língua Portuguesa. (Educação Fundamental – primeira à quarta série) Brasília, 1997.

 

________. Ministério da Educação e do Desporto. PCN: Língua Portuguesa. (Educação Fundamental – quinta à oitava série) Brasília, 1998.

 

GRAZIOLI, Fabiano Tadeu. Teatro de se ler: o texto teatral e a formação de leitor. Passo Fundo: EDIUPF, 2007.

 

MOISÉS, Massaud. Guia prático de análise literária. São Paulo: Cultrix, 1969.

 

ROSENFELD, Anatol. Literatura e Personagem. In: __________. A Personagem de Ficção. Série Debates: Literatura. São Paulo: Perspectiva, 2002.

 

RÖSING, Tânia. In: SITTA; Marli. POTRICH, Cilene. Teatro: espaço de educação, tempo para a sensibilidade (apresentação). Passo Fundo: UPF, 2005.

 

SANT’ANNA, Catarina. Teatro na escola: viver o paradigma holonômico na educação. Revista de Educação Pública, Cuiabá: Edufmt, v. 4, n. 5, p. 33-45, jan./jun. 1995.