TEATRO INFANTIL – TEATRO POPULAR
por Maria Helena Kühner

PARTE I
A relação que se estabelece entre o infantil e o popular ? Os espetáculos recorrem ao folclore, a contos populares, e inclusive a adaptações de clássicos que partiam desta mesma base. Levando-me a perguntar: que relação existiria entre o infantil e o popular?
A pergunta vai longe. Desde as constatações primeiras e mais superficiais sobre sua posição, situação e papel na sociedade em que estamos ao sentido e significado mais profundos de suas representações. Ou seja, da marginalização comum a ambos dentro de uma sociedade hierárquica e autoritária, fundada em relações verticais que colocam em plano inferior, em termos de expressão artística ou cultural, os produtos a que dão o rótulo de "infantil" ou de "popular".
De uma sociedade em que o fanatismo do ganho ou do lucro faz do negócio (nec-otium) sua lei – e nessa negação do ócio, da possibilidade contemplativa ou recreativa (recriativa), instala o fanatismo do trabalho, fazendo desse trabalho um dever – pelo qual se prolonga e se mantém a alienação daquele que muitas vezes não trabalha para viver, vive para trabalhar, e para o qual o ser "trabalhador", em termos adjetivos, tem conotação elogiada e premiada, com a qual se oculta sua condição explorada e alienada de ser, substantivamente, um trabalhador.
De uma sociedade em que são, assim, desqualificados ou desvalorizados o jogo, a brincadeira, as representações e as manifestações espontâneas que, ao lado do saber adquirido, expressam um exercício de pensamento com total liberdade de movimento e uma ingenuidade que é a abertura mesma para o imaginário; em que a "seriedade" daquele saber estabelecido e institucionalizado é posta em confronto, nos planos ontológico e ético, com a suposta "superficialidade" dessas representações; em que a "realidade" em que se alicerça a primeira crítica, implícita ou abertamente, a imagem "ilusória" que caracterizaria as demais. Mas é com essas e outras confrontações que o adulto desqualifica o infantil, a "cultura" de elite desqualifica a expressão popular, e uma sociedade de relações verticais fabrica uma ideologia que tenta justificar a necessidade e a pretensa "verdade" das hierarquizações que estabelece.
No entanto, as últimas décadas vêm mostrando acentuada tendência para uma crescente apropriação daquelas expressões e manifestações por aqueles que hoje manipulam a chamada "indústria cultural". No caso da criança, como forma de atuar sobre ela e formá-la à imagem e semelhança de modelos desejados – modelos que, como tem sido seguidamente denunciado, sobretudo no que se refere à mídia, buscam legitimar toda a escala de "valores" da sociedade estabelecida capazes de garantir a reprodução social. No caso do "lazer" adulto repetindo as relações da sociedade que o gera: as competições (esportivas, automobilísticas, festivais de cinema e música etc.), a valorização em função do mercado (que hoje se pavoneia como "marketing cultural"), os mecanismos de projeção (como no futebol e carnaval) aliviando tensões e inquietações.
Não é dessas manifestações produzidas para a criança e para o povo que falamos. Falamos em a-propria-ação, termo que tem à raiz a noção de serem aquelas expressões próprias ou características do infantil e do popular. O que as caracteriza, ou seja, o que trazem como caráter ou marca sua, e que é sentido como um valor a ser apropriado e transformado em mercadoria de consumo, ou tornado objeto de manipulação e controle? Ou mais, o que poderiam ter de potencialmente ameaçador para o status quo para gerar a necessidade de sua manipulação e controle? Ou seja, generalizando.

O que é folguedo ou brincadeira popular, o que é o jogo?
O que denotam, do brinquedo infantil ao folguedo popular, dos jogos da criança, ou atleta, ao jogo teatral do ator no palco? O que têm em comum essas diferentes expressões? Qual o seu sentido e significado mais profundos? Qual o seu papel para a criança ou para o povo que os gera?
A formulação mesma das perguntas já evidencia a diferença do enfoque: perguntar o que são para a criança ou para o povo é buscar desvendar os recursos geradores dessas expressões, ou seja, aqueles que informam quanto a suas formas de garantir uma sobrevivência material ou usar produtivamente a própria experiência; quanto às formas de associação ou relação com os outros; quanto às formas de expressar ou representar no plano simbólico suas relações com o mundo em que estão e os seres humanos que nele vivem. Recursos que, conscientizados ou sentidos como tais, têm um potencial transformador cada vez mais evidente: "A imaginação no poder", escreveram os estudantes nos muros da França em maio de 68 – o que é mais que um simples protesto contra o intelectualismo dessa repressiva "civilização da ciência e da técnica", que fez do pensamento racional a forma única de abordagem da realidade e uma negação das demais formas possíveis – imaginação, sensação, intuição; é também uma contestação a tudo que surgiu historicamente com ele, inclusive a pressão do "pensamento único" e dos fundamentalismos cujas conseqüências estamos vendo na prática. E a experiência das revoluções político-sociais do século passado, o surgimento de "revoluções culturais" e os questionamentos das novas "ciências do homem" têm demonstrado a insuficiência de uma transformação externa das estruturas sem uma interiorização geradora de novos modos de pensar e novos modos de agir capazes de criar uma sociedade mais aberta e humana, ou seja, uma sociedade para o ser humano.
Pois uma das primeiras e mais evidentes características comuns das "brincadeiras" ou jogos populares e infantis é o fato de serem a fabulação de uma relação. Como vimos, por exemplo, no 5º Festival: em O Boi Viramundo, fabulação das relações sociais – o patrão, o padre, o doutor, apresentados de forma crítico-cômica, nelas afirmando o papel do "brincante"; ou em outro espetáculo, A Porta Azul, a da mulher jovem enfrentando com o Barba Azul os obstáculos e desafios a sua individualização e crescimento; que em O Casamento da Princesa Juliette incluíram a vivência da diferença, a abertura ao mundo-floresta e a negação da tradição no que tem de castradora (a educação dita "feminina", a etiqueta...); ou no dono do Cirquinho e seus palhaços e destes entre si, reproduzindo criticamente as formas dominantes atuais; ou em João e Maria atingindo em plano profundo a relação pais / filhos, e sua possível carga de medos, fome, abandono e morte. Os exemplos, multiplicáveis, mostrariam sempre uma relação, experimentada ou revivida, o re-trato de uma relação.
Daí a posição ambivalente da criança, ou do brincante, no jogo ou brinquedo, que ora suscitada sua atividade – e aí desprende toda a potência da fabulação, fazendo-a assumir papéis, inventar estratégias para as situações criadas, enfrentar obstáculos, resolver problemas, correndo todos os "riscos", tendo que "ser Arisco, um Corisco" – ora se mantém em passividade, brincando de ser ela própria o brinquedo, o joguete do jogo – como se sentem muitas vezes quando os acontecimentos estão acima e além de seu controle e a "sorte" ou o "azar" é que decidem.