TEATRO INFANTIL – Comunicação e novos olhares
Renata Mizrahi


Conseguir ver o mundo com o olhar da criança é um exercício que todos devem fazer, sendo artista ou não. Para a criança tudo é uma descoberta, uma novidade, uma surpresa. Está tudo fresco, saindo do forno. Quantas vezes, nós adultos, sentimos que perdemos esse frescor? É preciso resgatá-lo. Temos que exercitar, praticar, sair da zona de conforto.

Quando Carlos Augusto Nazareth me convidou para escrever este artigo para falar do novo olhar para o teatro infantil, não podia fazer diferente, senão, começar com o parágrafo acima. Afinal, para mim, fazer teatro infantil é estar em plena conexão com as crianças de hoje, é ouvi-las, se misturar entre elas. Afinal, foi esse contato que me estimulou a escrever textos para as crianças. Durante 6 anos tive a oportunidade de conviver com mais de 600 crianças de 7 à 11 anos, longe de seus pais, em uma colônia de férias que acontece em janeiro, num sítio longe da cidade, onde dei aula de teatro. Foi uma experiência incrível. Porque, de fato, para conseguir o que queria com elas, precisei saber me comunicar.

E aí percebi que para mim, o elemento principal do teatro infantil é, antes de qualquer coisa, saber se comunicar. E comunicar bem. Principalmente para esse público tão sincero com olhar arregalado querendo ser surpreendido. Entendi que (pelo menos para mim) não adianta fazer teatro cheio de pompa, grandiosidade, efeito especial, figurinos magníficos e impecáveis, músicas originais e etc. Isso pode até ajudar e contribuir, mas não se sustenta, se não houver uma boa história, um cuidado com as palavras, uma atenção aos diálogos, ou, se não houver palavras, uma linguagem envolvente, ou seja, comunicação.

E para se comunicar precisamos estar atentos e conectados com as necessidades das crianças de hoje. Elas são as primeiras que absorvem as mudanças sociais. Elas não estudam os novos comportamentos, elas são os novos comportamentos. Por isso, nós, artistas envolvidos com a arte para crianças, precisamos acompanhá-las, entendê-las, percebê-las e com isso, nos renovar. Isso não significa que temos que colocar em cena computadores, projeção, luzes coloridas de última geração. Como disse antes, não é grandiosidade e a pompa que fazem um espetáculo infantil ser bom. Uma peça sem recursos ou efeito especial pode atingir muito mais que uma super produção. Acompanhar as crianças significa estar ligado à sua lógica, como enxergam o mundo e como o mundo se coloca diante delas.

Acho que, felizmente, o teatro infantil vive um momento muito rico, pois existem muitas pessoas que estão olhando para ele com essa consciência, pensando em renovação, em comunicação e qualidade. Estamos preocupados com que tipo de tensão vive a criança hoje, quais sãos os verdadeiros conflitos, o que gera a angústia. Os vilões não são mais o lobo-mau, a bruxa, o monstro, etc. Os vilões se tornaram invisíveis. São a falta de afeto, a dificuldade de comunicação, o bulling, os problemas ambientais, os valores distorcidos, o consumo excessivo, o isolamento, a discriminação e tudo o que envolve as transformações que passamos. Os contos de fadas e as histórias populares, por exemplo, são montadas com nova roupagem, nova visão. São montagens atentas ao que essas histórias representam hoje em dia e o que, de fato, significam em pleno século XXI.

Muito bom olhar o jornal e ver uma grande oferta de bons espetáculos. Muito importante deixar os pais na dúvida em qual peça levar seu filho, porque existem muitas peças boas. Isso se reverbera nas redes sociais. Os pais trocam ideias, criam blogs onde indicam espetáculos, fazem críticas, colocam seus filhos dando depoimentos no youtube, divulgam no facebook. Isso é um reflexo do bom momento do teatro infantil. Já foi tempo em que pais levavam seus filhos ao teatro, hoje os pais vão com seus filhos ao teatro. É uma grande diferença, pois os pais hoje se envolvem de verdade, não se sentem mais fazendo um favor aos filhos. Eles também querem compartilhar junto aos filhos, as sensações causadas no espetáculo.


E se por um lado, pais e filhos começam frequentar mais e com vontade o teatro infantil, os artistas começam a valoriza-lo mais também. Percebo que muitas pessoas da classe (artística), que até então tinham pouca, ou nenhuma ligação com o teatro infantil, estão vendo o quanto ele cresce em qualidade e reconhecimento, e entendendo-o como algo fundamental e primordial para a formação de plateia. Ou seja, precisa ser bom. E para ser bom e manter o nível, é preciso muito trabalho e cuidado. Novos realizadores lutam por bons projeto. Eles se juntam à realizadores e Companhias com muita experiência no teatro infantil e que há anos vêm construindo esse novo olhar. Estamos formando assim, um time cada vez mais forte.

Os diretores, por exemplo, não subestimam mais a lógica das crianças. Estamos tendo o mesmo respeito na direção de um infantil que temos na direção de um adulto. Pude observar isso com o diretor Diego Molina, meu parceiro na Cia Teatro de Nós, diretor de “Joaquim e as Estrelas” e “Francisco e o Mundo”. Joaquim..., por exemplo, foi sua primeira direção para teatro infantil. Via que nos ensaios ele fez o mesmo processo de direção que nas peças adultas: análise de texto, discussão de personagens, experimentação com os atores. Ou seja, um dos motivos da peça ter sido bem sucedida é que o diretor a tratou como um texto que tem seus conflitos, suas complexidades, nuances, e etc. Afinal, o público merece esse cuidado, sempre.

Finalizando, acredito que estamos vivendo um momento muito rico, porque estamos fazendo o nosso melhor. É tempo de unir as forças e continuar elevando a consciência e renovando os olhares.
Trabalhar em prol da qualidade nos faz conquistar cada vez mais espaço dentro das redes, das mídias, dos editais, etc... É um caminho que, passo a passo, estamos desbravando e vencendo. E isso vem de um tempo. Afinal, formar plateia e opinião é uma coisa muito séria e deve ser reconhecida e valorizada. O teatro infantil bom significa renovação de público e continuidade da nossa arte. Que a boa comunicação nunca pare e que as crianças implorem aos seus pais: “Quero teatro! Quero teatro!”

Companheiros, que essa corrente continue cheia de energia, e que nosso olhares nunca deixem de enxergar o essencial.

Evoé!