TEATRO E LITERATURA

Muitos são os pontos de contato entre a literatura e o teatro e o ponto principal deste encontro se faz na literatura dramática. Os fatores identitários de um se encontram no outro, a ponto de, por vezes, se confundirem, por se aplicarem tanto a um quanto a outro. De modo que artigos escritos sobre literatura infantil, falam das questões pertinentes também ao teatro infantil. Além do ponto de contato a que nos referimos, há a questão da obra de arte voltada para um público específico – o infantil, principalmente quando a questão aborda a relação da Arte com a Escola. Por esta razão estamos reproduzindo um texto de Luiz Antônio Aguiar, com sua autorização, sobre literatura infantil ao lado de um texto de Dib Carneiro Neto, sobre teatro infantil, já divulgado pelo Fórum de teatro.
Carlos Augusto Nazareth

Leitura não é tortura
Luiz Antônio Aguiar

Diante de algumas situações de inércia, torna-se necessário repetir o óbvio: leitura é prazer. Transformada em dever de casa ou/e matéria de prova – como acontece em muitos colégios que ignoram (inercialmente) a viva discussão que se empreende contra a utilização paradidática da literatura infanto-juvenil – seu efeito é devastador: forma gerações de inimigos do livro, para quem malignos autores aliados a sádicos professores conspiraram para arruinar os fins de semana de jovens saudáveis e desejosos de viver.

O desafio posto é o seguinte: precisamos seduzir o jovem e a criança para a leitura; devemos rejeitar, repudiar todos os artifícios que tornem a leitura uma obrigação. Leitura não é coadjuvante nem acessório do currículo. Não pode ser rebaixada a servir de instrumento (paradidático) do ensino da gramática, muito menos da moral e dos bons costumes e de molduras afins. Pelo contrário, a leitura, o livro, coloca-se ao lado do leitor no seu direito de experimentar o mundo.

Leitura é um ato de troca entre o indivíduo e o livro. É um ato também de intimidade (introspecção) e de liberação. Não pode ser devassado por pressões externas, por fichas de abordagem, pelo que «vai cair na prova» ou pela interpretação que «a professora acha correta».

Leitura, enfim, é algo à parte, singular, dentro de casa, na escola e no mundo. É um procedimento de formação (não de educação) informal, que não pode estar sujeito a cobranças. É para ser oferecido em espaços estimulantes e particularizados, tais como oficinas, bibliotecas, espaços extracurriculares – que não valem nota – que podem se dar ao luxo de transgredir, de cultuar o proibido, de praticar o lúdico, sugerir o acesso ao inconfessável e explorar o conflito. Precisa tornar-se tentadora, irresistível, fascinante. Fracassa sempre que o jovem ou a criança se refiram ao momento de ler com um «ai, que saco!» do qual não tem como escapar.

Enfim, leitura e escritura são uma coisa só. São um gesto de descoberta e de aprofundamento, através da expressão escrita. São para romper (ou para oferecer a possibilidade de ruptura a quem queira tentá-la) o monolitismo bem-aceito e para inventar humanas verdades contra a ditadura da verdade única. São o «hipermercado... de impossíveis possibilíssimos» (Drummond, A suposta existência), onde o leitor produz matéria-prima para criar mundos para si. São a aventura que não estará nunca refletida no boletim escolar, mas no reconhecimento do que se ganhou, do que se aproveitou e se ampliou na existência.
(Publicado no «Caderno de Idéias», Jornal do Brasil, 30/4/94. Luiz Antônio Aguiar é presidente da Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil AEILIJ)****************************************************************
Pecinha é a vovozinha
Dib Carneiro Neto

1. Excesso de intenções didáticas – não é preciso ser explícito, criança é capaz de entender sugestões, simbologias. Arte é feita de alegorias, de metáforas. Estranheza é saudável. Criança tem capacidade de interpretar o que vê.

2. Uso do humor fácil e grosseiro – muitos autores lançam mão de bordões televisivos para fazer a platéia rir (“da hora”, “fala sério”, “faz parte”)
Isso cria no autor um falso retornode aprovação do humor da peça. Essa facilidade de recorrer ao bordões chulos e vazios da TV é um recurso pobre, que só escancara a incapacidade do autor criar situações engraçadas por elas mesmas.

3. Excesso de efeitos multimídia – muitos autores ficaram com idéia de que, para atingir o jovem no teatro, basta levar para o palco os recursos tecnológicos a que esse jovem está acostumado a lidar ou seja, a linguagem do videoclipe, a rapidez da internet, as cenas pré-gravadas em vídeo e exibidas em telões em cima do palco. Mesclar linguagens diferenciadas é até coerente com o universo adolescente, mas abusar disso é lamentável e afasta os autores das especificadades da carpintaria dramtúrgica;

4. A obsessão pela lição de moral – teatro infantil não tem a obrigação de encerrar em si uma bela lição construtiva. Em vez do dedo em riste e da lição de moral, vale mais a pena e é até mais honesto, tentar contar livremente uma história e deixar que a criança se identifique, que a criança a vivencie por si mesma. Não é ecessário invadir o imaginário da criança com regras de conduta.

5. Edulcoração dos contos de fadas – os contos de fadas nasceram muito mais realistas, muito mais cruéis do que eles são hoje. Hollywood e Walt Disney transformaram tudo em final feliz, valorizando excessivamente o triunfo do amor e da bondade. Reduziram o poder transformador de um conto de fadas, minando neles a capacidade de fazer uma criança amadurecer. Um conto de fadas oferece significado em muitos níveis diferentes e enriquece a existência da criança em muitos modos.

6. Participação forçada da platéia – até hoje, muitos autores de teatro infantil reproduzem aquela cena que um personagem se esconde do outro que se dirige à platéia com a infalível pergunta: “Para onde ele foi? “ E a garotada e até os pais entram no jogo ela se vão uns dez minutos de “Foi pra lá”, “Não, foi por ali”, “Agora está aqui” e assim por diante. O autor fica feliz porque acha que conseguiu promover uma interação do espetáculo com o público. Quem foi que disse que, para estar interagindo com o espetáculo uma criança tem de berrar, sapatear, gritar?. O profundo silêncio de uma platéia, muitas vezes, é a maior prova de interação, da comunicação com o espetáculo.

7. Obsessão pela segmentação – existe hoje uma tendência mercadológica castrante e limitadora, que segue distribuindo rótulos em profusão às manifestações artísticas, enquadrando tudo em faixas etárias, dividindo o mundo em categorias fechadas, acomodando a arte em gêneros estabelecidos. Teatro infantil é antes de tudo teatro. E como tal, no máximo, pode ser classificado por sua boa ou má qualidade.

8. Uso abusivo e despraparado da linguagem dos clowns. Proliferam montagens em que os atores encaixam uma bola vermelha no nariz e acham estar fazendo um espetáculo teatral. A linguagem do clown é difícil, especializada, deve ser trabalhada com rigor, com muito critério e criatividade. As crianças são submetidas no palco a típicos shows de palhaços de festinha de aniversário e os pais saem achando que levaram o filho ao teatro infantil. Isto vale também para os espetáculos de bonecos. Não basta comprar fantoches em uma loja da esquina e montar um espetáculo. Artistas estudam anos e anos para entender a arte da manipulação de bonecos.

9. Diálogos mal escritos e ineficientes. Dramaturgia é antes de tudo literatura e, por isso deve ter todos os compromisso com a profundidade e criatividade da literatura, sem perder o pé da oralidade. O texto teatral é uma expressão artística que deve ser encarado com responsabilidade, porque o texto dramático tem a capacidade específica de reproduzir falas sociais, as aspirações, os sonhos, as esperanças. Peça infantil com diálogos descuidados, frases mal construídas, idéias truncadas, é um mau teatro.

10. Mercantilização do espetáculo teatral – há quem não seja tão rigoroso com relação a esse aspecto, mas realizar sorteios no final dos espetáculos é um desvirtuamento da função do teatro, é um mercantilismo. A criança tem de levantar da poltrona concentrada no que viu, na arte que desfilou pelo palco o tempo todo e não preocupada se o número de sua poltrona vai ser o número sorteado para ganhar os brindes. Teatro não é programa de auditório.