TEATRO - ARTE e ESTÉTICA

O teatro, a arte e a visão aristotélica do teatro

por Carlos Augusto Nazareth

 

O indizível - aí é que começa a arte

Jean Louis-Ferrier

Arte – definições diversas tentam se acercar do indizível. Será arte todo objeto que possui qualidades artísticas, tendo na estética sua função dominante, dada pela intencionalidade do artista?

Será que existem valores característicos do belo? Hoje, como pensamos Arte e valores estéticos? Qualquer objeto ou atividade pode ser detentora de uma função estética?

Será a sensação de prazer que se faz quando estamos diante de uma obra de arte? Prazer este que move a necessidade de repetição deste estado.

O diretor de teatro Peter Brook disse, certa vez, que a beleza de uma peça está na qualidade e na perfeição que o público é nela capaz de identificar.

O juízo estético expressa o prazer desinteressado que experimentamos ao concentrarmos a nossa atenção na apreensão de um objeto. Kant propõe o pleno exercício na apreciação da obra de arte.

Esta experiência do prazer estético, ao qual se segue o desejo de repetição, no teatro, seguindo o que disse Peter Brook é a qualidade. E nesta qualidade estão incluídos equilíbrio e unidade na “trama” (tecido) da pluralidade das expressões artísticas que vão para a cena. São inúmeras linguagens que se unem para mostrar a história. E por mostrarem, a palavra não é seu material único, mas uma diversidade de linguagens que se vê em cena.

Tudo deve servir ao texto, à uma idéia, até mesmo a um fragmento texto, um poema, um verso até. Tudo – deve estar a serviço da encenação como um todo orgânico: cenários, figurinos, luz, cor, atuação, texto e o que mais estiver em cena.

Esta unidade onde os múltiplos sentidos são atingidos pela diversidade de linguagens, este bombardeio múltiplo e uníssono à emoção e ao racional é que torna única a experiência do teatro, seus estímulos múltiplos são absorvidos num mesmo momento, ativando todas as áreas de percepção do espctador.

Também múltipla é a função do teatro. E nesta sua multpliciade encontramos também o ritualístico. O teatro é ritualístico. Em suas mais antigas expressões se confunde no tempo com a origem do contar histórias, também.

No caminhar dos tempos o ritualístico se tornou expressão quase que religiosa, por um lado e herética por outro – o profano e o sagrado convivem e o ritual, a celebração, permanece como mantenedor das características essências desta manifestação artística.

No teatro Grego, as grandes questões míticas do Homem eram trazidas a público e a resolução destas questõs que afligem a natureza humana, aliviadas pela catarsis

O teatro, hoje, continua discutindo as questões básicas do homem - Quem sou? De onde venho? Para onde vou? O teatro em sua função primeira discute sempre as questões existenciais do homem posto no mundo, numa visão diacrônica e sincrônica.

O teatro fala da própria história do homem e é a única arte onde o drama (ação) acontece ali. Naquele momento, naquele lugar. Você presencia, a grande diferença entre o contar e o mostrar, que o teatro tem como único.

Dentro desta perspectiva o teatro tem função estética, catártica, questionadora, transformadora, política e social – uma obra de arte enquanto expressão artística que esxpressa o homem, fala do homem, para o próprio homem, questiona o homem e questiona O Homem.

Discutindo os conceitos aristotélicos

O tratado de Aristóteles – Ars Poetica – é um paradigma a partir do qual foram compostas quase todas as poéticas seguintes – exceto na Idade Média que, não conhecendo seu texto recorria a Ars Poética de Horácio.

Muitos dos conceitos encontrados na Poética de Aristóteles têm sido entendidos e a aplicados de forma superficial e equivocada. O conceito da mimesis aristotélica, por exemplo, é complementar de uma concepção gnosiológica da arte, mas não se confunde com imitação de fatos concretos, mas sim de questões humanas.

O imitar aristotélico das ações é uma criação, pois resgata o mundo nos mesmos moldes pelos quais ele se produz e isto se dá pelo intermédio do próprio mundo. O imitar o estado do homem e não a ação pura e simples do homem, recria a situação desencadeadora da ação, a emoção presente e que domina o agente da ação, que recria o clima em que se deu a ação. Ao encenarmos Medeia, quando o personagem começa a se lamuriar da tragicidade de seu destino, a encenação precisa presentificar este trágico sentimento. Cria. Recria. Critica, portanto, sempre no recriar é a crítica de quem reproduz a cena. A mimesis é para Aristóteles ativa e criativa e não meramente reprodutora de ação desprovida de sentimento e descontextualizada.

A “degeneração” propalada do sistema aristotélico revela-se ainda principalemnte na mimesis e na verossimilhança. Mas estas deturpações são o contraponto da vitalidade do modelo aristotélico.

A Poética de Aristóteles continuou a ser desconhecida até o fim da Idade Média. Teve-se conhecimento pleno dela a partir de 1498, através de uma tradução. Só na metade do século XVI as “poéticas” começaram a recorrer decididamente ao modelo aristotélico.

E o sistema aristotélico corresponde à estrutura do pensamento humano. Por isso tão difícil de ser quebrado. Mas não impossível. Mas, para ser desconstruído é necessário que dominemos e entendamos esta estrutura de pensamento, para saber porque e como romper com este modelo e a troco de que. Por quê?. Se não, é experimentalismo vazio, desprovido de conceito, objetivo e porquê.