Sobre Imagens
Francine Bordin

“Tomando-se que Teatro é imagem, imagem e ação, imagem e palavra, aqui nos deparamos com questões inerentes ao teatro e a relação com seu ”interpretante” e nos focamos aqui na IMAGEM, na semiologia, tendo como pano de fundo o fazer teatral e seu público.” CEPETIN

“Se a imagem contém sentido, este tem de ser 'lido' por seu destinatário, por seu espectador: é todo problema da interpretação da imagem. Todos sabem, por experiência direta, que as imagens, visíveis de modo aparentemente imediato e inato, nem por isso são compreendidas com facilidade, sobretudo se foram produzidas em um contexto afastado do nosso (no espaço ou no tempo, as imagens do passado costumam exigir mais interpretação).
(…) a abordagem semiológica, com sua distinção entre diferentes níveis de codificação da imagem, fornece uma primeira resposta a essa questão: em nossa relação com a imagem, diversos códigos são mobilizados, alguns quase universais (os que resultam da percepção), outros relativamente naturais, porém já mais estruturados socialmente (…), e, outros ainda, totalmente determinados pelo contexto social. O domínio desses diferentes níveis de códigos será desigual segundo os sujeitos e sua situação histórica, e as interpretações resultantes serão proporcionalmente diferentes.”
(Aumont, 1993, pág.250)

In: BORDIN, Francine Borges. As representações expressas nos desenhos infantis - um olhar antropológico. 2010. 85f. Monografia (Ciências Sociais) - Universidade Federal de Pelotas.

Algumas considerações sobre semiótica
Para compreendermos a semiótica, utilizaremos a teoria de Charles Sanders Peirce (apud Santaella, 2003) sobre os signos. A semiótica é então uma teoria geral dos signos, possuindo a capacidade de poder ser aplicada a todo tipo de análise, seja na linguagem verbal ou não verbal, seja nas mais variadas formas de representação, como a imagem, por exemplo. O que se busca nesta pesquisa é significar o objeto de análise, traduzindo-o enquanto signos peircianos. Na perspectiva geertziana, como já vimos anteriormente, o pesquisador procede à interpretação de interpretações nativas, sendo estas, de primeira, segunda, terceira (ou mais) mãos.
O signo é uma coisa que representa outra coisa, e ele possui alto poder representativo. O signo só pode ser considerado signo se possuir esse poder de representar, mas devemos ficar atentos ao fato de que o signo não é o objeto em si, ele apenas representa o objeto. Na medida em que representa, essa representação depende de um intérprete. O intérprete é aquele que observa o signo e lhe atribui o significado a partir da representação mental chamada interpretante.
Podemos dizer então, que o signo passa por um processo de representação, dependente de um intérprete onde se dá o interpretante e, que esse ciclo gera outro signo resultante do primeiro. Com isso Peirce estabelece dois objetos do signo e três interpretantes sobre o qual não entraremos em detalhe neste trabalho, pois focaremos aqui a atenção na tricotomia mais geral das classificações do signo.
Essa tricotomia está classificada a partir de três relações: o signo consigo mesmo, o signo com seu objeto dinâmico e, o signo com seu interpretante. Daí temos o signo enquanto ícone, índice e, símbolo. O signo enquanto ícone não representa, mas apresenta uma simples qualidade, algo que se dá à contemplação, por isso é considerado um quase-signo.
Sendo o ícone um quase-signo e tendo esse alto poder sugestivo, seu interpretante será uma mera possibilidade “ou, no máximo, no nível do raciocínio, um rema, isto é, uma conjectura ou hipótese” (Santaella, 2003, p.14). Os ícones se colocam então sempre no nível do parecer, aquele que aparece, que apresenta, enquanto o índice tem o papel de indicar o universo do qual o signo faz parte.
“Desse modo, uma coisa singular funciona como signo porque indica o universo do qual faz parte. Daí que todo existente seja um índice, pois, como existente, apresenta uma conexão de fato com o todo do conjunto de que é parte. Tudo que existe, portanto, é índice ou pode funcionar como índice. Basta, para tal, que seja constatada a relação com o objeto de que o índice é parte e com o qual está existencialmente conectado.” (Santaella, 2003, pág.14)

Sendo um ponto real e concreto, o índice produz múltiplas direções para o intérprete, apenas funcionando como signo quando o interpretante estabelece a conexão em apenas uma dessas direções, constatando a relação física entre existentes, trazendo para o signo uma existência concreta. Apesar de o índice estar diretamente relacionado à existência concreta, ele também está habitado de ícones (quali-signos, qualidades). Dificilmente se verificará um signo como ícone ou índice isoladamente.
Saindo do concreto para o abstrato, temos o símbolo, quando este é de lei, considerado um tipo geral com alto poder de representação. O símbolo não representa um objeto por sua qualidade ou por sua existência concreta, mas por seu poder de representar uma lei ou convenção que determina a representação daquele signo. Seu interpretante vai se dar no nível do argumento, que gerará outro interpretante que, para ser interpretado, exigirá um outro signo e assim por diante. Símbolos também trazem caracteres icônicos e indiciais, que potencializam seu poder de significar por ser portador dessa lei de representação.
“Note-se que, por isso mesmo, o símbolo não é uma coisa singular, mas um tipo geral. E aquilo que ele representa também não é um individual, mas um geral. Assim são as palavras. Isto é: signos de lei e gerais. A palavra mulher, por exemplo, é um geral. O objeto que ela designa não é esta mulher, aquela mulher ou a mulher do meu vizinho, mas toda e qualquer mulher. O objeto representado pelo símbolo é tão genético quanto o próprio símbolo.” (Santaella, 2003, p.14)
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É importante observar que essas três formas de classificação dos signos aparecem dependentes uma das outras, elas não existem sozinhas. Seria impossível analisar uma imagem apenas como um ícone, por exemplo. Pois todos os fatores devem ser levados em conta, e classificar a imagem quanto à tricotomia nem sempre é possível. Pode acontecer de estes significados estarem tão intrínsecos e envoltos um no outro que não seja possível distingui-los. É quando percebemos que os significados estão emaranhados em uma teia (Geertz, 2003), em que as conexões entre um ponto e outro dão sentido e forma à cultura, podendo ser interpretados e analisados em seu meio cultural.
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Sobre as imagens
(...) as crianças abstraem o concreto ou o real à sua volta e transformam-no em imagens cujos caracteres são ricos de significados e interpretações. Mais uma vez aparece a importância das representações e da reprodução interpretativa (Corsaro, 2002), pois é nesse processo de apropriação do mundo exterior ao seu, passando por um processo de interpretação rico em interações e ludicidade (Sarmento, 2002b), que as crianças embelezam esse mundo e o confrontam com suas estruturas, reproduzindo-o e ressignificando-o de forma a obter aceitabilidade entre seus pares – crianças. Ou seja, brincando e desenhando, as crianças criam uma percepção própria do meio em que vivem, formando uma pluralidade de culturas (Sarmento, 2002b) característica de cada sociedade. (...)

A produção das imagens e dos desenhos infantis, está inteiramente ligada ao imaginário – seja individual ou coletivo (Pesavento, 1992). São as representações desse imaginário que dão características ao meio social no qual emergem. Buscando compreender o imaginário infantil (Sarmento, 2002b) representado em seus desenhos, buscamos analisar este processo a partir Aumont (1996 apud Turra-Magni, no prelo), considerando a imagem a partir de três aspectos distintos: sua fabricação, sua referência e sua circulação. (...)

Assim, podemos considerar o caráter essencialmente simbólico de todos os desenhos produzidos, na medida em que são codificados, relacionados com o imaginário (seja individual ou coletivo) e passam por um processo de interpretação e de transformação do real. Podemos perceber nesses desenhos as representações que o meio social impõem aos alunos e as transformações, representadas por eles, trazendo a característica da representação que as crianças fazem da sociedade, transformada por seu imaginário individual e coletivo (considerando principalmente a escola). (...)

Obs: publicação adaptada.

REFERÊNCIAS:
AUMONT, Jacques. A imagem. Campinas, SP: Papirus, 1993.

CORSARO, William A. A reprodução interpretativa no brincar ao “faz-de-conta” das crianças. Educação, Sociedade e Culturas, nº 117, 2002, p.113-134. Disponível em: http://www.fpce.up.pt/ciie/revistaesc/ESC17/17-5.pdf Acesso em: setembro de 2009.

GEERTZ, Clifford. Descripción densa: hacia una teoría interpretativa de la cultura. In: ____. La interpretación de las culturas. 22ª Ed. Barcelona: Gedisa, 2003. 387f. p.17-40.

PESAVENTO, Sandra Jatahy (coord). Imaginário Social e Utopia: um outro olhar sobre a história. In: 500 anos de América: imaginário e utopia. Porto Alegre: Ed.Universidade/UFRGS, 1992.

SARMENTO, Manuel Jacinto. Imaginário e Culturas da Infância. Instituto de Estudos da Criança, Universidade do Minho, 2002b. Texto produzido no âmbito das atividades do Projeto As Marcas dos Tempos: a Interculturalidade nas Culturas da Infância, Projeto POCTI/CED/49186/2002, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Disponível em: 
Acesso em: setembro de 2009.

SANTAELLA, Lúcia. O que é semiótica. 2ª Ed.: Brasiliense, 2003. Livro digitalizado e formatado para Projeto Democratização da Leitura – PDL. Disponível em:www.portaldetonando.com.br Acesso em: julho de 2010.

TURRA-MAGNI, Claudia. Nova pobreza e paradoxos da política de inclusão social francesa: considerações a partir de uma oficina cerâmica no Socorro Católico. No prelo.