REVISITANDO LUCIA BENEDETTI
Aspectos do Teatro Infantil 1969 - RELEITURA COMENTADA
por Carlos Augusto Nazareth

PARTE I
Pouquíssimos são os livros que fazem uma reflexão sobre o teatro infantil, ainda hoje. O fato de Lucia Benedetti, a precursora do teatro infantil profissional ter escrito em 1969 um livro sobre as questões do teatro para crianças é um feito de valor incontestável. Mas passados quase quarenta anos de sua primeira edição é necessário que se faça, hoje, uma leitura crítica, lendo o livro inserido em sua época e cotejando princípios e conceitos com a contemporaneidade.
Lucia Benedetti começava a puxar os fios das origens do teatro infantil, de sua linguagem, de seus “princípios” de uma atividade que – de forma sistemática e profissional não tinha nem vinte anos ainda.
A releitura do livro de Lucia Benedetti nos leva a refletir nas origens das questões que hoje se levanta em torno do teatro para crianças, de alguma forma coloca algumas concepções históricas do que seja teatro infantil, por exemplo, expõe conceitos da época, a moral e os costumes vigentes, enfim nos dá uma visão diacrônica da questão, importantíssima de se resgatar e reler com um olho no passado, outro no presente e os dois no futuro.
De início, teatro infantil era, principalmente aquele feito pela criança não para a criança.
E Lucia Benedetti aborda a criança enquanto ator. A criança enquanto agente do ato de representar, que era como se definia na maioria das vezes, o teatro infantil. Não era o teatro feito para crianças, mas o teatro feito por crianças.
Dentro desta abordagem Lucia Benedetti fala do “talento inato” da criança para representar e se refere ao parapsicólogos que chamam a este talento de “talento do inconsciente”
Ainda com uma frágil literatura sobre teatro e sobre teatro infantil, principalmente, o que acontece ainda hoje, L.Benedetti tangencia diversas questões, tentando fazer uma leitura do todo deste fenômeno do teatro para crianças ou do teatro e a criança.
Lucia Bendetti inicia o segundo capitulo de seu livro com uma deliciosa frase “é uma velha ambição da humanidade fazer teatro para crianças” – diz Maria Signorelli em seu “A criança e o teatro”
E Lucia Bendetti fala desde as civilizações antigas, passando pelo Egito, Grécia, Roma, Rússia. Seriam os primórdios, o berço do teatro infantil – Signorelli fala sobre o teatro que serve para adultos e que talvez servisse para crianças. Hoje esta questão já está muito mais complexa do que então. E a autora pergunta:
“ Existe de fato um teatro que pelas suas características possa ser chamado infantil? “ Esta é uma questão que se mantém atual.
E nos reportando às questões primeiras do surgimento da idéia de criança e teatro, Jesualdo, mestre em literatura infantil, coloca questões hoje, acreditamos, bem definidas, principalmente dos anos cinqüenta em diante.
“ ...devemos tomar por teatro infantil as peças que as crianças escrevem, as que os adultos escrevem para elas ou as que elas representam. E há muito seriamente quem ponha obstáculos em peças escritas por adultos para crianças. São por demais “comprometidos”, dizem, para fazer uma literatura adequada.
Aqui Jesualdo coloca o panorama do que seja este confuso universo chamado teatro infantil.
Como especialista em literatura infantil Jesualdo se contradiz, quando fala do adulto escrevendo teatro para crianças. Não seria o mesmo em relação à literatura infantil, já que teatro é literatura também – só que literatura dramática e não épica. Quando fala das crianças que escrevem ou que representam fala do teatro, hoje, na escola, que pode ter esta vertente, dentre as muitas possibilidades que existem. Mas o teatro infantil que se discute hoje é o teatro infantil profissional escrito e feito por adultos para as crianças.
Lucia Benedetti comenta sobre o conceito de aristotélico de “mimesis”, hipótese sublinhando, não a criação artística, mas a pedagogia . “A criança é antes de tudo um pequenino ser que imita. Imita os seus maiores e imita às vezes com tanto ímpeto que os grandes precisam andar com cautela para não dar mau exemplo – e aqui faz um “mix” de pedagogia – ou didática do comportamente - com a “mimesis” Aristotélica. E continua:
Ora, se os grandes não escreverem, os pequenos não terão a quem imitar, nem de quem aprender. Portanto esta hipótese está eliminada – ou seja – o adulto deve escrever para servir de exemplo para a criança imitar - diz a autora.
E aí abrimos a questão para a interpretação sempre equivocada da “mimesis” aristotélica que é sempre tomada como simples imitação de ações, e como o próprio Aristóteles diz, a “mimesis” é a imitação da paixão dos homens – ou seja – o próprio percurso de vida do homem no mundo e suas paixões, motivações que provocam as ações –o importante é o que move “a cena”. Se não resgatamos esta motivação, que sempre é, ao mesmo tempo racional e emocional (emoção+razão=drama), no momento mesmo da representação ou mesmo jogo teatral, não há teatro.
E a autora tangencia uma questão talvez central do teatro adulto/ teatro infantil – quando fala da impossibilidade de se montar Hamlet e da possibilidade de se montar “Arsênico e Alfazema”, que segundo ela tem tantas mortes ou mais que Hamlet.
Mas a questão não é tratar da morte com a criança. A morte faz parte do universo em que vivemos. A diferença são exatamente as motivações- exatamente como diz Aristóteles. As motivações em Hamlet são a vingança, a traição e outros sentimentos que não fazem parte ainda do universo infantil, porque dependem de julgamento de valor, abstrações, deduções, suposições – uma série de procedimentos que ainda não estão desenvolvidos na criança, embora ali em forma embrionário e intuitiva. Mas a outra peça é uma comédia e costumes, onde as mortes acontecem como elementos de um humor absurdo, e sem nenhuma questão metafísica.
E conclui Lucia Benedetti este capitulo falando das origens jesuíticas e cristãs do teatro para crianças feito para ensinar, praticado por D. Bosco, por Anchieta e Padre José Manuel da Nóbrega, para catequisar índios e praticar a art,e mas a arte de educar. Esta origem do teatro infantil deixa vestígios até hoje, quando é moralista, quando pretende ensinar, quando pretende “enformar” e a função do teatro é “desenformar” para poder transformar. Palavras todas de mesma origem “forma” mas com prefixos que as diferenciam e definem estas idéias opostas.