REVISITANDO LUCIA BENEDETTI 3
por Carlos Augusto Nazareth

A criança através dos tempos
Em 1969, época da edição do livro Lucia Benedetti se perguntava se a criança de então seria a criança de sua meninice.
Lucia Benedetti reflete sobre o surgimento das diferentes midias – o rádio e a sua influência, o surgimento da televisão, a mudança que cada uma deles provocou nos hábitos famliares.
E deixa mais uma questão no ar. A criança se modifica cada vez mais rápido, pois cada vez mais rápido o mundo muda.
Mas, questionamos. O mundo muda o teatro muda a criança muda, mas o teatro, como todas as outras artes permanece. Há uma questão de multiplicidade de expressões que vão chegando e reduzindo evidentemente a forma de expressão em voga anterior. Há séculos, o pintor era o jornalista do reino. Um quadro pintado por um pintor famoso de uma rainha era motivo para festa na corte que comparecia em peso. Hoje uma galeria de arte abriga poucos visitantes a cada dia. A pintura morreu? Deixou de existir? Evidentemente que não, apenas divide espaço com outras formas de expressão, e portanto seu espaço naquela época era imenso, pois era quase única. E vem o jornal, o rádio, a televisão, a aldeia global, a internet. Os cinemas, quando surgiu o vídeo foi preconizada a morte do cinema. É verdade que centenas de cinemas nas cidades grandes e pequenas foram fechados. Mas também na época o cinematógrafo era uma sensação e ir ao Cinema Odeon, ver filmes mudos acompanhados pelos famosos “pianeiros”, dentre eles, inclusive, Ernesto Nazareth, passou. Mas o cinema, a arte do cinema continua e no Brasil, num momento pujante.
E assim é a história da ópera, do ballet, enfim, o mundo caminha mas as expressões artísticas ao contrário de se extinguirem se multiplicam – cada uma mantendo sua especificidade – e isto é o que cada uma não pode deixar de cuidar, pois pra um teatro infantil tirar hoje uma criança diante, nem mais da tv, mas do computador, e Deus sabe que outros mídias futuras, tem que ser O teatro – pleno de teatralidade, magia e sedução. Se não, para que sair de casa?

PARTE III
Para entendermos o teatro infantil hoje é essencial que se vá a suas origens. Há pérolas nos primórdios do teatro para crianças e uma delas Lucia Bedetti transcreve integralmente o que aqui repetimos, pois as Dezenove Regras de Dom Bosco para o teatro infantil, falam por si só.
D.Bosco, criador da ordem dos Salesianos, sua maior obra é o seu sistema de educar os jovens.. O santo dos jovens, morreu no dia 31 de janeiro de 1888, com 72 anos. Foi aclamado pelo Papa João Paulo II como o “Pai e Mestre da Juventude”. Dom Bosco é também o padroeiro de Brasília-DF.

Conhecendo os fundadores do teatro para crianças, sua época, seus métodos e princípios, que teve em D.Bosco um adepto fervoroso, depois a ele se seguiu Anchieta, outro santo e Padre Manoel da Nóbrega, toda esta origem religiosa, educativa, moralizadora, ancestral e cultural – este é o berço do teatro infantil e por isso tanta dificuldade em já tantos anos – de nos libertarmos de muitos conceitos que impedem que esta expressão artística alce vôos maiores. Estamos sendo tendo que lutar contra todo este pedagogicismo eucarístico – origem de nossos bens e nossos males. Mas vamos às regras de D. Bosco.

“Tendo o teatro como um dos meios de instruir e divertir seus pupilos, D. Bosco sabia muito bem quas as dificuldades que teria que enfrentar. Afim de ajudar aquela juventude a utilizar, com proveito, seus dons artísticos, e por outro lado, transmitir o melhor ao seu publico, teve o santo cidade de escrever algumas regras que serão sempre bem vindas para todos aqueles que desejam um real aproveitamento do teatro infantil.
Eis aqui o que prescreve D. Bosco.

1. A finalidade do teatrinho é alegrar, educar e instruir moralmente aos jovens;
2. O teatrinho terá um diretor. Este deverá manter o Diretor da Casa informado sobre o que vai ser representando, em que dia e estabelecer a escolha dos que vão representar;
3. Entre os que vão representar, haverá sempre preferência para os que tiverem melhor conduta, embora, de vez em quando, para estimular, sejam substituídos;
4. Aqueles que estiverem ocupados com os cânticos ou efeitos sonoros, que se mantenham alheios à representação. Só poderão aparecer em cena nos intervalos, caso desejem recitar ou cantar;
5. Os diretores fiquem fora da representação na medida do possível
6. Na escolha do texto é preciso que prevaleça o critério de que as composições sejam amenas e aptas a recrear e divertir, porém sempre morais e breves. O texto, demasiadamente extenso, além de ocupar demais os meninos com ensaios, geralmente cansa o auditório, faz perder o valor da representação e provoca aborrecimento, mesmo das coisas apreciáveis.
7. O que se poderia chamar de cenas de atrocidades, será evitado. Haverá, entretanto, alguma tolerância para com cena mais séria, sendo porém extirpado do texto quaisquer expressões chulas ou grosseiras que sejam consideradas pouco cristãs;
8. O diretor deverá estar sempre presente aos ensaios. Caso estes se procedam à noite, não deverão se prolongar além das dez horas. Um vez terminados deverá ele cuidar que cada um siga em silêncio, sem se deter em conversar que causam incômodo `aqueles que já se recolheram;
9. O diretor tenha todo cuidado para que, no dia da estréia o cenário esteja inteiramente pronto, a fim de que não haja necessidade de se trabalhar no dia festivo;
10. Que o diretor seja rigoroso em procurar vestuários decentes e baratos.
11. Que o diretor esteja entrosado perfeitamente com os chefes que dirigem os cânticos e operam com efeitos sonoros;
12. Não se permitirá, a quem quer que seja, que, sem um justo motivo, entre no cenário e muito menos no camarins dos artistas. Vigie também para que, durante a representação não se mantenham conversas particulares e que se observe a maior decência;
13. Que ninguém vá ceiar fora. Ninguém dará prêmios, sinais de estima, elogios àqueles que tenham sido favorecidos por Deus com aptidões especiais para representar, cantar, tocar instrumentos. Já são premiados com o tempo que possuem livres e as lições que recebem.
14. Que se recomenda aos atores uma emissão de voz não afetada, uma pronúnica clara, gestos desenvoltos e decididos. Isso será facilmente obtido se eles estudarem bem seus papéis.
15. Lembrem-se de que o encanto e especialidade de nossos teatrinhos consistem, também, em abreviar os intervalos entre um ato e outro com cantos e recitativos de autores de categoria.

Edição de textos de teatro
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