REVISITANDO LUCIA BENEDETTI 2
por Carlos Augusto Nazareth

" Para se conduzir crianças a um conhecimento da arte dramática, o primeiro passo não é montar atabalhoadamente uma peça. O primeiro passo, verdadeiramente é este: jogos dramáticos. Dentro destes jogos a mestra os irá conduzindo lentamente a uma foca de expressão corporal que, mais tarde, permitirá que, nas sua escola possam desenvolver uma atividade cênica bastante aproveitável. “ È claro aqui que o objetivo final desta atividade é “uma atividade cênica bastante aproveitável. No entanto, na escola, esta fase pode nem ter o foco do produto acabado.
O Jogos Dramáticos têm a função de trabalhar a percepção de si mesmo e do outro, do sentimento, da emoção e outras questões – e aqui, ainda imbatível, o livro de Viola Spolin tudo esclarece.
A montagem “atabalhoada” é uma outra atividade possível, onde o objetivo é – aí sim - o produto fnal, evidentemente sem uma preparação para a atividade completa, mas que trabalha o lúdico, o grupo, a iniciativa de buscar um texto, ler, buscar recursos para montá-lo, descobrir vocações de ator, de figurinista, de cenógrafo. Geralmente montagens de fim de cursos promovidas pelos Grêmios, revelaram a muitos a vocação de ator, portanto, mesmo “atabalhoada” tem sua função específica.
Finalmente a autora fala, de forma discutível, do brincar (jouer, to play) – é brincando que a criança aprende a andar de cabeça erguida, a empostar corretamente a voz, a modular com facilidade, a articular bem. Diríamos que isto a criança aprende desenvolvendo-se tecnicamente, até com certa rigidez e muito treinamento. Mas brincando o que ela descobre é a magia do de brincar de ser o outro, de forma natural, isso sim. De partilhar e da contra-cena que já se esboça nas brincadeiras de “casinha” das meninas, onde todos assumem os papéis dos adultos, no caso, seus personagens.
Até aqui Lucia Bedetti revela os primórdios e as premissas que conduziram esse início do teatro infantil em nosso país.
O teatro, a criança, o aluno, a didática, o pedagógico, a moral, os bons costumes, o jogo, enfim, tudo isto colocando no mesmo balaio que até hoje tenta-se separar, pois todas as atividades têm a sua função. Só que, cada uma, tem sua função própria,.seus objetivos métodos espeíficos.. A partir do capítulo V a autora já se volta mais para o teatro feito por adultos para crianças, se encaminhando para o futuro teatro profissional infantil.

CAPITULO V

No capítulo V Lucia Benedetti trata de uma interessante questão, polêmica até hoje, que chamamos de adequação e que se refere a relação entre o espetáculo e o público para o qual é destinado.
E de início a autora toca numa questão até hoje ponto de discussão permanente. “Quando alguém se propõe a fazer teatro para crianças, quase sempre tropeça com problema da idade do seu público. Não pode ser ignorado tal fator por quem faça esse teatro especializado. Um teatro muito interessante para uma criança de cinco anos poderá não passar de algo muito fastidioso pra uma criança de onze anos.”
De alguma outra forma já abordamos esta questão quando falamos da farasa medieval e do teatro de mamulengo, mas vamos além. Num país de extensões continentais, de desigualdades sociais tão fortes e diversas, definir a criança apenas pela sua faixa etária é extremamente difícil também. Retomando o próprio exemplo da autora, e olhando hoje, uma criança de cinco anos da zona sul do Rio de Janeiro, que freqüenta shoppings e vai a Disneylândia uma vez por outra, não pode fazer parte do mesmo grupo de uma criança da baixada, cujo universo não vai além da sua própria rua de terra com esgoto a céu aberto. No entanto, as duas têm um ponto vital em comum – são crianças, que têm um eixo norteador de desenvolvimento central, que se diferenciam por suas vivências e experiências, mas que mantêm um núcleo interno onde se identificam, na capacidade de sonhar, dentro do conceito de Bachelard. Portanto, por vezes, trabalhar com arquétipos, tocam igualmente a um e outro publico tão diverso. A forma de tratar cênicamente estes arquétipos por vezes variam, mas aí é um campo de experenciação estética de classe social e vivências diferenciadas que determina. E assim temos, de bairro a bairro, dentro, por vezes, de uma mesma escola, microcosmos diferentes que tornam a referência faixa etária frágil. Por outro lado impossível se abster de ter um certo conceito-padrão para cada uma faixa etária para que se possa caminhar por um fio condutor, porém absolutamente atento às diferenças sempre presentes de pessoa a pessoa de grupo a grupo.
Um case a ser relatado é o de uma escola pública municipal da zona oeste foi criada, pela primeira vez a quinta série, numa escola que, até então era só uma escola “primária”(1973).
As turmas, nesta escola foram formadas respeitando a faixa etária, o que revelou um quadro sócio econômico interessante e desafiante. As turmas 1 e 2 eram de crianças de dez anos, classe média que haviam se mudado para a Zona Oeste já em busca de melhor condições de vida, para casas com piscinas, pais com carro, e todos os bens de uma classe média em ascenção. A turma 4 era a turma dos moradores locais do bairro, dos “oriundi” que eram de uma classe de baixo poder aquisitivo e cultural, mas dentro ainda dos padrões considerados aceitáveis por aquela sociedade local. Eram já de uma faixa etária um pouco superior, tinham enfrentado problemas de conseguir vagas nas escolas públicas, dificuldades financeiras por vezes, e outros mais. E as turmas 5 e 6 eram moradores de Cidade de Deus, recém construída, alunos de 14 a 17 anos, oriundos de diferentes favelas do Rio de Janeiro. Portanto, dentro de uma mesma escola tínhamos três universos distintos para uma mesma programação curricular de uma quinta série. Back-grounds distintos, estimulações distintas, desejos e sonhos distintos, interesses distintos, gupos familiares e sociais distintos. E tudo isto numa mesma escola, num mesmo bairro, numa mesma série. Amplie-se esta experiência a nível Brasil e veja quanto frágil são nossos referenciais para sabermos a que público nos dirigimos.
E retornando ao teatro, Lúcia Benedetti, nos traz algumas considerações ainda de Jesualdo, um golpe fatal nesta questão. Jesualdo refere-se com certa amargura sobre certos teatros que são oferecidos às crianças. E dá certeiras flechadas em certos espetáculo que são, ingênua ou ardilosamente oferecidaos ás cirnaçs e aos quals falta até mesmo o mais comezinho bom gosto....” e diz mais Jesualdo, dando a definição de Martinez Estrada do que seja teatro infantil – um classe de espetáculos que não interessam aos adultos e tampouco às crianças” Vai além e diz;; “mediocridade presunçosa que deseja dissimular sua inépcia com o pretexto de que é infantil. Pueril, sim, infantil, não. Citando ainda Jesualdo “O teatro infantil deve ser, antes de tudo, “um teatro” na mais completa acepão da palavra. Isso significa que deverá ter uma fisionomia própria, cracteres perfeitamente definidos, um repertório especial que abarque os mais diversos gêneros: drama, comédia, farsa, ópera, comédia musical, ballet, espetáculos mistos e sobretudo uma legião de atores profissionais formados e educados para intrepretear esse novo gênero...
Aqui Jesualdo lança uma questão pouco discutida até hoje. São a literatura infantil e o teatro infantil um novo gênero? Mesmo hoje, quando implodem os gêneros, esta pergunta não aponta ao menos para uma especifcidade da criação e do criador ao fazer literatura e teatro para crianças? Não terá suas leis próprias diferentes dos da literatura e do teatro como têm outros gêneros, a partir de um núcleo comum? Esta é apenas uma provocação, mas uma provocação que ecoa uma murmúrio que vem crescendo defendendo esta idéia, pelo menos, de especificidade.
E absolutamente contemporâneo nas questões que levanta, Jesualdo continua – acentua a necessidade de acomodar a criança ao teatro e o teatro às crianças, isso significa, em termos gerais, procurar um teatro para cada idade. Esta é uma outra provocação absolutamente atual.