RELEITURAS
por Carlos Augusto Nazareth

Temos de quando em quando relido livros sobre o teatro infantil. Este data de 1953, portanto pouco mais de cinqüenta anos, que corresponde a existência do teatro infantil profissional do Brasil.
Como em outro livro que fizemos uma releitura “Para que serve o teatrinho de bonecos” e que tinha uma introdução da renomada Helena Antipoff, neste temos uma apresentação feita pelo conhecido e respeitado professor Lourenço Filho. Fizemos também uma releitura do livro de Lucia Benedetti sobre o Teatro infantil.
Estas releituras nos mostram os primórdios do teatro infantil e a forma como o teatro para crianças era encarado. Sempre didático, pedagógico, um metido auxiliar no ensino dos mais variados conteúdos que a escola se propunha a realizar através de “Peças educativas”.
Desta forma, o teatro, enquanto obra de arte, o teatro que faz repensar o mundo, que faz a criança se ver na cena do mundo e se repensar nesta cena. Compreender esse mundo e seu papel nele e sua função dentro deste universo se canaliza para um “ensinar”. Esta visão embora ainda forte hoje em dia em nosso teatro, princípio ainda observado por algumas escolas, vai aos poucos abandonando nossos palcos e dando lugar ao teatro-obra-de-arte, que se diferencia totalmente deste teatro escolar, didático, ensinante.
O livro é VAMOS REPRESENTAR? de Heloísa Marinho e Maria Isabel Marinho Lutz. Ambas professoras do colégio Bennet, conceituado colégio, e que à época se preocupava com a Arte como integrante de suas atividades, mas evidentemente com a visão desta época, a década de cinqüenta, já que o livro foi publicado pela Livraria AGIR Editora em 1953, mais ou menos na mesma época em que surge O Tablado de Maria Clara Machado.
Importante, pra entendermos a visão do teatro na escola é listar as peças escritas e logo após a apresentação do Professor Lourenço Filho:

A descoberta da América
Tiradentes
Independência
Princesa Isabel
A bandeira brasileira
Caramuru
O pássaro da amizade
O saci
Os livros
Chiquinho Ladrão
O pescador e o gênio
Cinderela
A Rosa Juvenil
A Ovelha Perdida

Apresentação
Prof. Lourenço Filho

As pequeninas peças reunidas neste volume distinguem-se das gerais que, correntemente, se propõem para o teatro infantil, em nosso meio. Realmente, não visam elas ao efeito da representação para ... adultos. Muito embora, em cada uma e em todas, na sua aparente simplicidade haja efeitos cênicos de grande beleza, a intenção das autoras é muito diversa: é a de proporcionar a crianças situações que lhes sirvam ao normal desenvolvimento emocional e social.
Ainda antes da fala, a pantomima aparece como recurso natural para esse desenvolvimento. Com a reprodução de testos e atitudes alheias, a criança ensaia a sua participação na vida do grupo. Mais tarde, em situação de jogo ou brinquedo, juntando aos gestos a palavra, irá representar mil e uma cenas. Tomará, então, a si o papel de um companheiro, ou de adultos com os quais conviva, com a mais perfeita naturalidade...
Por que o faz? ... Ainda e sempre como instrumento par a afirmação de sua nascente personalidade. Imitar a outrem, nessa idade, é antes de tudo um esforço para melhor compreensão do comportamento alheio. A criança não representa, apenas para fins de reproduzir um ato, mas para habilitar-se a enfrentar situações em que lês surjam e em conveniente expectativa. Impõem-se desse modo, a si mesma, condições de disciplina. (sic)
Esta é uma das mais fecundas lições do estudo atual do comportamento da criança, de que excelentemente se aproveitaram as autoras destas peças, só escritas depois de pacientes ensaios e tentativas. A professora Heloísa Marinho é das mais competentes e cultas pesquisadoras da vida infantil. A professora Maria Isabel Marinho Lutz reúne aos dotes pedagógicos grande sensibilidade artística.
Nas peças que escreveram, muitas vezes é suscitada a participação de todo um grupo de alunos os que estejam no palco e os que figurem como espectadores, chamados a participar de um coro como no teatro grego. De outras vezes a intervenção adequada de um narrador sugere um debate íntimo, acentua um aspecto simbólico de enredo, encaminha para o melhor desfecho uma experiência emotiva... Em nenhum caso, porém há rígido automatismo, como convém a teatro infantil deste gênero.
É certo que, para resultado educativo integral, serão necessárias aos que façam representar estas peças, também alguma intuição e finura psicológica. Sobretudo na preparação e condução dos ensaios, cada um dos quais deverá ser uma representação, não preparo enfadonho da representação final. Essa intuição não falta, porém, aos mestres da infância, que a este trabalho hão de dar a melhor acolhida.

A apresentação do Professor Lourenço Filho embora não seja uma análise aprofundada dos textos, fala na verdade muito mais da sua visão do teatro para crianças do que dos textos apresentados.
O Professor Lourenço Filho, fala da “mimesis” aristotélica, onde a imitação vai levar ao entendimento do personagem, do comportamento alheio e por conseqüência da situação apresentada e por transferência a situações futuramente vividas pela criança.
Fala da importância do processo sobre o resultado num processo educativo e do objetivo das peças cujo foco é a própria criança e não o resultado para ser apresentado para adultos.
Ao final o prof. Lourenço Filho fala da importância na preparação e condução dos ensaios para os quais deverá haver uma preparação – (e aí pode se entender de forma ampla esta preparação, mas entende-se claramente que não é a montagem pela apresentação final que ele chama de “preparo enfadonho da representação final”. Portanto valorizando o aspecto do aprendizado no exercício do fazer teatral, que aqui ainda é tomado Teatro Infantil, como Teatro feito POR crianças e para crianças. Neste momento da história do teatro infantil predominava esta vertente – teatro infantil aquele feito POR crianças.
Resta-nos agora analisar algumas das peças reunidas neste livro para vermos se elas realmente correspondem á própria expectativa do Prof. Lourenço Filho. Se nos basearmos apenas pela listagem e pelos títulos, nos parece mais um programa de História do Brasil do que teatro propriamente dito.

A DESCOBERTA DA AMÉRICA

Na verdade de uma maneira simplista e não simples, como diz o Prof. Lourenço filho as autoras tratam da questão como um quadro ilustrativo ficcional de como teria se dado a ajuda da Rainha Isabel de Castela a expedição de Cabral às Índias que o levou a descoberta do Brasil.
No entanto de tão simplista o texto, não coloca nenhuma questão básica que permita um entendimento maior de quem era este navegador, que motivos o moviam, e que motivos moveram o rei e a rainha a ajudarem-no nesta empreitada, ou seja, a compreensão do fato histórico, das motivações e razões, que possibilitem um entendimento mais amplo do fato. Na verdade é uma ilustração que as autoras criam sem nada acrescentar e nada ter de teatro. Pois, na verdade são diálogos que não contêm em si Ação dramática e que servem apenas para contar como as autoras imaginam ficcionalmente como teria sido o encontro de Colombo com os reis de Castela.

TIRADENTES

Mais sucinto ainda que A descoberta da América, o texto Tiradentes, diz em poucas linhas o mais superficial da nossa “conspiração mineira” tão rica em motivos, motivações, tramas, envolvimentos políticos. Os textos nos parecem um pequeno resumo de aulas de história, escritas em diálogos para que as crianças “decorem” com mais facilidade a síntese da síntese destas episódios contados, de uma maneira absurdamente superficial, e sem nenhuma estrutura teatral enquanto a conflitos, personagens, peripécias – apenas um “ponto” de história transformado em diálogo.

Mas esta era a visão da época do teatro para crianças. Teatro feito POR crianças, para crianças, na escola, com caráter didático, como método auxiliar de ensino das matérias escolares. E com esta origem não é de nos espantar que hoje ainda encontremos nas escolas esta visão da função do teatro para crianças. Embora possamos reafirmar que não é mais uma totalidade, mas uma parcela bem grande de escolas vêm ainda assim o teatro para crianças. Ou pior. Vêm como uma festa de final de ano, como uma formatura
E assim as peças vão servindo como facilitador de “pontos” de História do Brasil. Tratam de moralidades e comportamento, como na peça “O Pássaro da Amizade” e tangenciam a cultura popular brasileira como em O Saci.
Mas em todas as peças o teatro propriamente dito com sua magia, que é realmente o que o faz importante no desenvolvimento da criança é absolutamente secundário, se é que possa se dizer sequer que exista. Há textos, dialogados, com objetivo de ensinar, mas teatro, aquele que emociona, faz pensar, propicia o entendimento das relações humanas, faz a crianças ver como o mundo funciona e se ver nessa cena do mundo vivenciando na ficção questões vitais que enfrentará na sua vida hoje e adulta, não existe.

A apresentação do Prof. Lourenço Filho encerra o entendimento que ele tem do teatro para a criança e feito por criança, mas os textos absolutamente não trazem embutida esta teoria de Lourenço Filho, muito pelo contrário, nos deixa um rastro de evidências das origens do que hoje ainda lutamos no teatro infantil, e que já apontamos várias questões. Principalmente esta relação do teatro com a escola que precisa ser definitivamente revista e modificada, pois, ela, por uma questão de mercado, acaba se estendendo às produções comerciais que querem ver seus espetáculos comprados pelas escolas e se utilizam deste didatismo para convencer as escolas mais desavisadas que o espetáculo é bom porque exatamente ensina e facilita a compreensão do conteúdo programático. A literatura infantil muitas vezes também ainda sofre deste mal embora de forma muito menos contundente do que o teatro pois, o trabalho que se desenvolve de reflexão sobre o fazer literário para crianças é muito mais amplo do que aquele que se desenvolve sobre o fazer teatral para crianças e que o CEPETIN Centro de Pesquisa e Estudo do Teatro Infantil (www.cepetin.com.br) está tentando dar sua contribuição.