POR UMA DRAMATURGIA RENOVADORA
O desafio do desconhecido
por Carlos Augusto Nazareth

Há alguns anos atrás a critica de teatro infantil do JORNAL DO BRASIL, Lucia Cerrone, dizia que o teatro infantil estava se especializando em fazer peças para não-crianças.
Há alguns anos uma editora de literatura infantil de uma renomada Editora foi despedida – alegaram que ela sabia fazer livros para prêmios, mas não livros que vendessem.
Há alguns anos as pessoas repetem que não há renovação na dramaturgia do teatro para crianças, no entanto as tentativas de buscar novos caminhos são sempre vistas com certa desconfiança.
De modo que a eterna luta entre qualidade e popularidade de um produto cultural se estabeleceu em nosso meio.
Como buscar este equilíbrio?
E que equilíbrio seria esse?
Em primeiro lugar, equilíbrio entre o teatro da textualidade e teatro da teatralidade.
O teatro da textualidade, aquele onde o texto é o centro, origem e razão de tudo, o teatro da teatralidade, aquele que o que importa é a cena. Este tipo de encenação teve seu auge nos anos 80.
Mas o ponto medio, onde texto e encenação caminhem de forma equilibrada é ainda uma busca, sempre.
O ponto de equilíbrio entre espetáculos de qualidade, que agradem a critica e aos teóricos e espetáculos que agradem ao público é ainda uma interrogação.
O que é um espetáculo infantil, um espetáculo infanto-juvenil, um espetáculo para jovens ainda é uma questão não esgotada.
Espetáculos que agradam muito aos pais, muitas vezes não agradam às crianças e muitos espetáculos com os quais o público infantil se encanta, o público adulto tem restrições sempre inúmeras restrições – técnicas, conceituais, dramatúrgicas.
Lidar com o novo é muito mais fácil para a criança do que para o adulto.
Fazemos teatro para a crítica, fazemos teatro para a classe teatral. E não nos preocupamos, antes de mais nada, com criança, hoje, e com seu universo. Não nos preocupamos com seus desejos, necessidades, vontades, muito menos pesquisamos sobre o seu imaginário.
Os adultos , com toda a convicção e autoridade - “isto não é para criança” ou "este espetáculo tem texto demais" e vão emitindo conceitos a partir de antigas perecepções, velhos conceitos, idéias emboloradas.
Não se pesquisa e as velhas formas vão sendo eternamente repetidas - não formas que pretendam inventar ou re-inventar o teatro, mas que se proponham a decobrir como se utilizar da linguagem teatral e recontar, cenicamente, histórias, mantendo qualidade, inventividade e o interesse do nosso público-alvo – a criança.
Ninguém deseja inventar a roda, mas, na verdade, ninguém quer outra solução que não a própria roda - esta já é velha conhecida. A possibilidade de erro diminui, mas o novo, o diferente, a experenciação de formas diversas de construção do espetáculo teatral, assusta.
E assim ficamos estagnados nos re-conhecidos modos de encenar um texto, ficamos encerrados em recursos cênicos tradicionais, em encenações convencionais e continuamos a reclamar da mesmice, ao mesmo tempo em que esta mesmice se transforma em desesperado porto seguro para aqueles que não arriscam.
Como descobrir novos caminhos, novas formas, novos meios?
Pesquisa, estudo, inquietação, descoberta, experimentação, enfim, um trabalho contínuo de aprender, experimentar e descobir.
Risco é a palavra.
Risco.
Quem quer correr o risco?
Quem tem força bastante para enfrentar o risco?
Muitos trabalhos que foram considerados “estranhos” viraram, anos depois, verdadeiros ícones, exemplos imexíveis do “bom teatro”
Há necessidade de se escancarar definitivamente a porta da busca, da pesquisa, da experenciação, do novo, do insondável, do desconhecido, da tentativa, do acerto e erro, como a possibilidade de se descobrir novos caminhos. Caminhos estes que venham a ser fator de mudança do panorama vigente.
É preciso arriscar e não ter medo das conseqüências imediatas do risco, elas podem, a longo prazo apontar direções novas, caminhos diferentes.

“O brilho do arame cintilava na escuridão do circo. A equilibrista colocava seu pé experimentado a textura do arame, a tensão, a firmeza. O risco estava sempre presente, mas a vontade de descobrir seu próprio limite fazia com que ela pedisse que o arame fosse colocado cada vez mais alto. Até que um dia pediu que retirassem todas as redes de segurança. E então, num vôo cego, arriscado, corajoso e vibrante venceu medos e barreiras e descobriu ,nela mesma, uma nova dimensão de si mesma, da sua arte e de seu mundo. E então pode CRIAR.. “
Isabel Laban