POR QUE ESCREVER?
por Carlos Augusto Nazareth

Narrativa épica ou dramática - pequenas narrativas que contam o mundo, esta macro-narrativa. Estruturas diferenciadas, unívocas em suas possibilidades, potencialidades e capacidade de dizer.

Um desejo irresistível de falar sobre algo que implode e toma conta do autor - uma cena vista, um pensamento que voou para o espaço, um desejo que não realizou, uma aventura que viveu ou que não viveu ou que quer viver.

Tem que haver uma razão forte e algo denso a ser dito para fazer com que alguém seja levado a se sentar e passar horas frente à telinha. Meses. Anos às vezes. Não importa se narração ou teatro. A necessidade de expressar sentimentos, idéias, dúvidas, angústias, medos, desejos, felicidade, prazer, brincadeira, jogo tem que acontecer.

Uma história tem que dizer algo – e esse algo está bem distante de qualquer conceito de mensagem ou de moral e bons costumes. Posso querer dizer: subverta a ordem, dane-se o mundo. Na verdade tem que haver um porquê escrever. O escritor precisa querer desesperadamente dizer coisas que estão dentro dele.

A forma de construção varia de autor para autor. Há aquele autor que cria uma história totalmente fora dele (sic). Viaja, fotografa o local da história, faz longos perfis de seus personagens, cria a trama, pesquisa, planeja e escreve uma grande aventura, uma história de amor, ou uma ficção científica. E mesmo assim esta história fora (sic) dele teve razões muitas para ser escolhida – o lugar, a trama, a construção dos personagens. A forma de construção é esta, mas o dialogismo do autor/história existe também, claro, neste processo de criação.

Outros se valem de suas vivências e sentimentos do mundo e os colocam em fábulas que inventam, cuja trama conta a história, mas outra história se revela por baixo da trama. Aqui o dialogismo é dos sentimentos do autor com a própria trama interna que se arma dentro dele para poder expressar o que tem necessidade de dizer.

Se não há nada pedindo para ir para o papel, deixe-o em branco. Ou escreva para você mesmo, por uma necessidade de dizer algo que interessa provavelmente só a você, mas neste processo você escreve sem a interface do leitor, ou com a interface de você mesmo, de uma só vez emissor e receptor.

Uma história tem que emocionar, divertir, seduzir, provocar – tem que mexer com a emoção e a razão.

Quando escrevemos um texto teatral emoção e razão, associados, constituem, exatamente, o drama.

Criar histórias tem que ser um ato revelador para si mesmo e para o outro. E para criar histórias é necessário haver um talento próprio. Mas se a necessidade de dizer for imensa e você tiver nenhuma história que fale direto ao centro do seu futuro leitor ou espectador, reinvente histórias de outros. Mas só quando se apaixonar perdidamente por um texto, quando este texto disser aquilo que você tinha vontade de dizer e fizer você pensar:” Puxa, como queria ter escrito este texto!”

Escreva-o, coloque-o no palco se olhe ali, distanciado, porque lá vai estar, junto com o texto, com a encenação, nu diante da platéia, a nudez que vem da sua verdade exposta em cena. E só a verdade permanece no tablado – tudo mais se perde. A verdade descoberta por você em você mesmo ou no outro que são as duas possibilidades de você estar no palco – ou um texto autoral ou uma adaptação tão válida quanto um texto autoral, desde que você tenha estabelecido uma relação de paixão com o texto lido, do qual você vai se apropriar e ali se colocar e ser totalmente fiel e ao mesmo totalmente infiel a ele, pois nele, agora, você também está. Como breve estarão outros – leitores e espectadores. E é nesta construção dialógica que vai nascendo e crescendo a obra de arte. Um processo de modificação recíproca autor/espectador – uma relação da qual ambos saem modificados.

Porém, terrível é o desperdício de se chegar ao teatro e dele sair exatamente como entramos. Uma festa sem comida, sem bebida, sem música – teatro é jogo, brincadeira, das mais bem humoradas às mais trágicas. O teatro é um ritual; os deuses descem à terra para comemorar, festejar, confraternizar, provocar, mudar, emocionar e depois se vão. Os convivas ficam e então se fartam num banquete “dos deuses” e suas vidas mudam. Logo ou depois, mas as mudanças sempre vêm.

Mas o espectador tem que ser convidado pelo escritor a entrar em sua festa dionisíaca e o escritor tem que querer convidar o leitor.

E nesta festa o escritor tem que ter uma intenção de dizer e ter o que dizer “Por trás de todo ato de fala ou escrita existe uma intenção ... o projeto de comunicação de quem fala ou escreve é constituído dessa intenção...” 1

Esta vontade de dizer passa por um longo processo criativo, que começa no desejo de dizer e termina no palco, depois de ter dito, termina no aplauso, e até talvez no depois.
O físico alemão Hermann von Helmholtz e Graham Wallas, da Universidadede Londres estabeleceram quatro passos para que aconteça a criação.

O primeiro passo eles chamam saturação. É a própria vivência do futuro autor que lhe dá esta possibilidade – o que vê, o que sente, o que pensa, o que lê – prenhez de alma.

O segundo passo do processo criativo é chamado de incubação – o tempo que esta prenhez se desenvolve até acontecer o conhecido brado: “Heureca”.. Este é realmente o momento em nasce a idéia. E isto vem acompanhado de uma enorme sensação de prazer e alívio e a este momento eles chamam de terceiro passo. O quarto passo é a validação das idéias, onde o consciente analisa o resultado de todo este processo.


Portanto Arquimedes vive e se você não gritar heureca, duvide do que escreveu.

Sobre Por quê escrever? o escritor Bartolomeu Campos de Queiroz, diz:

“O primeiro elemento que me move a escrever é me perguntar se eu tenho o que dizer, e o que esse dizer tem a acrescentar ou tem a ser acrescentado pelo leitor. Não recorro à escrita sem estar sensível diante de uma emoção. Ela é que me leva a um desejo incontido de dividi-la com o leitor.” 2

Hoje muitos textos gratuitos, insosos, estão no palco. Não se pode dizer nem que, muitos deles, sejam textos mal escritos, mas são textos que não dizem, não acontecem, não são.

O ato da escrita dramatúrgica, criador, obra de tem função estética e será vista por inúmeras pessoas. Elas ali irão para sentir prazer, emoção, medo, tristeza, pensar o mundo, se repensar, pensar o em torno e sair com desejo da repetição daquela experiência.. E voltará então.

É também divertimento, prazer, riso, fantasia, simples ouvir histórias que provoquem o riso, o choro, o prazer.

Se nada acontece é porque o autor não teve “este desejo incontido da escrita” fala Bartolomeu Campos de Queirós e, como conseqüência, o espectador não terá o desejo incontido de assistir ávido o espetáculo teatral que está no palco. Não terá o desejo da repetição, que o fará voltar, como fala Grotowsky, e o que o faz voltar é o prazer vivenciado e a qualidade que ele apreende do espetáculo que assistiu

1 In: OLIVEIRA IEDA. O que é Qualidade em Literatura, com a palavra o autor, São Paulo, DCL, 2005
2 In : QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. Ibidem
# postado por Carlos Augusto Nazareth @ 4:34 PM

Comentários:
Muito bom esse texto, nunca fui em teatro, e lamento por isso. Tenho um forte desejo em ser escritor infanto-juevenil, espero um dia conseguir, sonho também em ilustrar livros para esse publico, o esta sendo meio difícil, e acabo fazendo trabalhos nada a ver.
visitem meu blque, e se possível comentem!

http://aspimentassussurrantes.blogspot.com/