O UNIVERSO DO TEATRO INFANTIL
O universo e a diversidade do que é chamado teatro infantil
por Carlos Augusto Nazareth

São tantas formas e maneiras de se realizar atividades correlatas e similares ao teatro, tantos usos que cada área profissional encontra no que chama de teatro, que o termo, na verdade, adquire um plurisignificado. E assim, mesmo se utilizando da palavra teatro, muitas vezes estamos falando de fenômenos culturais absolutamente diversos.
Teatro – na sua acepção primeira – é antes de tudo uma Obra de Arte com todas as funções, riscos e possibilidades de qualquer obra de arte.
Tem suas definições próprias, seus próprios nortes sempre suscetíveis de mudanças e transformações, através do tempo, acompanhando a evolução do homem e do mundo.
Século XXI e se clama por um teatro infantil criativo, de qualidade, não dogmático, não didatizante, nem pedagógico, que não tenha a função de comemorar datas festivas, de complementar conteúdos programáticos. Que não defina regras, que não dê receitas de bem viver, mas que, sim, amplie a capacidade criativa crítica e inventiva da criança e de seu potencial imensurável de perceber o mundo com o seu lado afetivo aberto e sensível que, com o tempo, a sociedade vai sufocando. A Arte, colocada num segundo ou terceiro plano, deixa de fazer parte ativa da constituição da formação integral do ser humano.
No nosso trabalho de pesquisa constante sobre a criança e sobre a arte nos caiu nas nossas mãos um livro que nos chamou a atenção pelo seu título: “Vale a pena fazer teatrinho de bonecos”. Imediatamente associamos esta publicação à recente matéria de Dib Carneiro Neto cujo título é “Teatrinho é a vovozinha”.
Este livro, de 1963, traz nele as origens do pensamento da relação do teatro e da criança, com nítidas heranças catequéticas jesuíticas e de teorias pedagógicas do século retrasado.
Apenas quarenta e três anos nos separam das idéias veiculadas neste livro. Mas ao contrário da ciência que evolui do Quatorze Bis aos veículos interplanetários, o homem ainda caminha lentamente em seu desenvolvimento pessoal. Portanto, a análise deste livro não tem a intenção de invalidar as idéias veiculadas, próprias a adequadas à época, mas mostra as raízes das posturas contra as quais ainda lutamos, hoje, para acompanharmos e estarmos sintonizados com época em que vivemos e nos preparando para o novíssimo mundo, que ainda vamos viver.
O texto do livro em questão é revelador e nos mostra toda a questão da relação da criança e arte, da arte e da escola, do teatro na escola e do teatro, não tomado como obra de arte, mas como recurso auxiliar de outras áreas da educação, da arte-educação e até mesmo da arte-terapia.
Sem invalidar as questões levantadas, tendo em vista o contexto e a época em que foram formuladas, vamos analisar o texto tomando o teatro sob a perspectiva da obra de arte, como ele é visto hoje, tentando evidenciar os diversos teatros – pois assim se nomeia tudo que tenha uma relação com o “drama” – dentro do Teatro, área que estamos tomando em sua forma absoluta.

Logo de início o prefácio diz Helena Antipoff: (1)

“Desde a “apresentação” e no decorrer do trabalho, podemos notar o entusiasmo que empolga as autoras pra com esta “arte menor”. (Mesmo vindo entre aspas, isto denota como era visto o teatro, no caso especificamente o teatro de bonecos – uma arte menor, o teatrinho de bonecos. E Helena Antipoff continua.) “Um teatrinho de bonecos é um excelente meio de ocupar a criançada. (grifo do autor. E continua a autora do prefácio a falar de importantes receitas que asseguram o pleno êxito do teatrinho de bonecos, como a importância de uma cortina bem colocada e do teatrinho utilizado na Suíça, no Instituto Jean Jacques Rousseau, onde se utilizava um " teatrinho de um único personagem: Johnny, o macaquinho – de pelúcia marrom de rabo longo" . Aqui é evidente a terrível confusão feita entre teatro e artefato lúdico e por razões que ignoramos era chamado de minúsculo teatrinho de um único personagem.
Salvando, de alguma forma seu prefácio, Helena Antipoff diz que o trabalho das irmãs Milward, autoras do livro, contribuirá certamente para a maior expansão desta preciosa “arte” (assim mesmo arte entre aspas) cujos dramas e comédias podem ter benéficas repercussões na procura dos equilíbrios emocionais após descargas (grifo do autor) de riso, choro, medo, raiva, simpatia, hostilidade vividos no pequeno palco ou na platéia. Embora reduzida ao conceito único de possibilidade catártica, de alguma forma Helena Antipoff reconhece pelo menos uma das funções mais antigas e primeiras do teatro, que Aristóteles foi o primeiro a codificar – a catarse – forma de alívio das tensões, com possibilidades talvez terapêuticas, possivelmente o viés aqui entrevisto pela autora.
Dando continuidade a nossas observações, já agora a partir do texto do livro de Vera, Lea e Elza Milward, no capítulo que fala especificamente de dramatização, observamos algumas relevantes colocações.

“A estória é um gênero de atividade recreativa de grande importância." Além do prazer que causa à criança, tem um grande valor como instrumento educativo. (grifo do autor)

“A estória, quer seja contada, lido pelo professor ou pela própria criança, dá margem a um sem número de atividades tais como – desenho, recortes, modelagem, dramatização.”

“Tem a dramatização um valor incontestável como processo educativo”

“A dramatização seria um passo ou uma motivação para o teatro. Uma comemoração, uma festa, também podem motivar a organização de um teatrinho.”

“O teatro surgiu como instituição educativa e se não corrige costumes, pode alterá-los profundamente. Os gregos e romanos já o empregavam como esta intenção – “teatro, espelho de costumes para servir de escola.”

“O teatro infantil constitui uma atividade recreativa de grande valor educativo. Todas as atividades, na encenação de um peça, no teatro infantil podem ser realizadas pelas crianças, desde a escolha ou escrita da peça, distribuição dos papéis à confecção de cenários, indumentárias, etc. A atividade da criança pode, entretanto, restringir-se à representação”. Se analisarmos o conjunto destas afirmações vemos aqui o teatro tomado tão somente como uma atividade recreatitva (e não o deixa de sê-lo, mas não se reduz a isto) e como instrumento educativo. Ou seja o teatro feito para ensinar.
Dramatização também surge como uma atividade complementar da leitura, como o recorte, o desenho e não como uma forma de expressão autônoma e criadora em si mesma.
A dramatização é vista como “uma motivação” para a encenação, que também pode ser uma data cívica ou comemorativa. A dramatização não é vista aqui como elemento mobilizador de toda uma carga emocional vivenciada pela crinaça que a auxilia no auto-conhecimento, no conhecimento do outro e no conhecimento do mundo
E estas assertivas ditas e reditas de formas diferenciadas ainda toma o teatro infantil como o teatro feito por crianças para crianças. Não é ainda o teatro feito por atores, o teatro feito por adultos, o teatro feito por profissionais – menos mal.
No entanto estas premissas ainda se vê hoje transitarem nas escolas e nos palcoscomo verdades e objetivos e definições do que seja teatro para criança. Quase meio século se passou, o homem chegou à lua e breve estará fora da nossa galáxia, mas o universo do teatro para crianças ainda sofre as conseqüências de suas origens brasileiras catequéticas/ indígenas.
Quando as autoras falam dos “objetivos do teatrinho de bonecos” diz que, na escola ou no hospital seu objetivo primeiro é recreação “principalmente para as crianças do interior e do meio rural ou ainda as de condições sócio-econômicas precárias ou as hospitalizadas que carecem muito de meios de recreação. E é justamente através da recreação que vamos alcançar o segundo objetivo – educar. Inúmeras oportunidades nos dá e nenhuma deve ser perdida, quer no que diz respeito à educação moral, quer na transmissão de conhecimento.”
Esta fala final, antes de as autoras entrarem na transcrição da Peça para fantoches em três atos “A cidade da nutrição” vemos a ótica menor com que é vista a criança e a atividade teatral que fica reduzida e atrelada ao binômio recrear e educar. Serve para educar moralmente e transmitir conhecimentos.

Trecho do texto “A cidade da nutrição”

Sinopse: Conta a história de um menino que não queria comer e por isso é considerado um assassino e é julgado pelos seus atos (!)

(...)
Miguel: Renato! Deixe esse brinquedo e venha comer! Faz três horas que saímos de casa! Ora! Venha, menino.
Renato: Comer? Não tenho fome. Comam vocês.
(...)
Miguel: Renato pare com isso e venha comer qualquer coisa! Olhe, se você fosse obediente, pelo menos tentaria comer qualquer coisa. Mas não liga ao que tia Márcia fala. E a pobre criatura sofre com sua teimosia. Coitada da tia. Arrumou a cesta com tanto carinho! Oh, por favor, Renato, venha, coma alguma coisa.

(O menino não come, o piquenique acaba mas ele resolve ficar mais um pouco na floresta (sic)

Renato: Ai... sinto umas tonteiras... A cabeça me pesa! Como me dói aqui. Ai. Já sei. Há muitas horas não me alimento. (Levanta a cabeça, olha para as árvores e fala) Oh! Os gigantes de braços levantados. (Renato fica paralisado de espanto)
Vozes: Você é um criminoso!
Renato: Eu... criminoso? ...Por queê?
O Gigante: Você é um criminoso porque está desperdiçando o bem mais precioso que recebeu de Deus –a saúde – não se alimentando como devia.
As vozes: É um criminoso. Criminoso!
Renato: Perdão! Prometo não fazer mais isso.
Gigante: Não basta. Tem que ser julgado.

(Há um julgamento, mas ele é absolvido, graças a intervenção do Sr. Leite a quem ele dava alguma atenção à noite. No fim era um pesadelo. Renato pede para se alimentar e diz)

Renato: Nunca mais esquecerei desses ensinamentos. E, outr coisa, assumi o compromisso de ensinar a todos os meus colegas e amigos, o que aprendi sobre nutrição.

Estamos em 2006, Maria Clara Machado e o Tablado já completaram mais de meio século. Ilo Krugli mais de quarenta anos de trabalho com o teatro para crianças, mas textos como esses e piores ainda sobrevivem em nossos palcos.
Momentos auspiciosos já viveu o teatro infantil. No entanto, se analisarmos o que vemos hoje, no quadro geral dos espetáculos em cartaz, verificamos muitas dessas premissas arraigadas nos trabalhos apresentados, pois estão arraigados numa mentalidade colonialista e restritora que infelizmente ainda domina a educação neste país, que é transmitida na formação dos professores, por eles assimiladas, e compactuada com os pais que também a receberam de herança e não a questionam, com a mesma veemência que questionam seus direitos de liberdade em todos os campos, inclusive o de gênero. E os produtores, preocupados principalmente em atender professores e pais, pois estes são os verdadeiros consumidores de seus produtos, não querem se arriscar a criar, enquanto artistas responsáveis por uma obra de arte e preferem não perder seu mercado de trabalho.
A hora é de ser contundente. Não há mais como contemporizar a questão. A literatura infantil já deu o seu grito de Independência há muitos anos, e aí está pujante, claro, embora com muitas literaturas menores ainda existentes e que sempre existirão, mas o teatro infantil precisa dar um basta definitivo a esta mesmice que já se arrasta por séculos – dos jesuítas aos vídeo-games.

Helena Antipoff - Trajetória e Obras (1)
Helena Antipoff cursou Psicologia em Sorbonne na França. Estudou e trabalhou com Pavlov, Bergson, Pierre Janet, Edouard Claparède, André Rey, Jean Piaget.
Em 1929 chega em Belo Horizonte.
No Brasil, criou o seguintes órgãos:
- 1929: Laboratório de Psicologia Aplicada criado na Escola de Aperfeiçoamento de Professores - Minas Gerais;
- 1932: Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais;
- 1945: Sociedade Pestalozzi do Brasil no Rio de Janeiro - 1934: Associação de Assistência ao Pequeno Jornaleiro;