O TECIDO TEATRAL
por Carlos Augusto Nazareth

“Nas mais diversas culturas surge periodicamente à tendência para considerar o mundo como um texto e consequentemente o conhecimento do mundo é equiparado à análise filológica desse texto: à leitura, à compreensão, à interpretação.”
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“O texto universal compor-se-ia por “textos da vida” e “textos da arte”: unicidade contra pluralidade, existindo entre estas um isomorfismo geral ou mesmo uma relação generativa.”

Lotman e Uspenskij, 1988

A partir destas afirmações de Lotman e Uspenskij, podemos pretender tomar um texto como expressão do universo.
O macro texto – o universo - seria composto de milhões de micro-textos que, interligados, o estruturiam.
E ainda mais: textos de arte refletiriam, por mimetismo – conceito encontrado na Arte Poética de Aristóteles – os textos da vida.
É a vida representada na arte.
Portanto, o texto teatral seria um dos muitos textos possíveis, e, como os outros, reproduziriam o mundo real através da “mimesis”.
A mimesis de que fala Aristóteles não é, como se toma muitas vezes erroneamente, simples imitação dos acontecimentos, mas sim das paixões que movem o homem a realizar o fato, portanto ao re-criar o fato em um texto teatral, o dramaturgo não está apenas reproduzindo, mas se apropriando do fato e recontando-o com toda a gama de emoções da ação mostrada, através de uma ótica que passa pelo olhar crítico e contemporâneo do autor. Portanto a proposta de texto não se limita a “reproduzir” – na verdade é um reconto que traz nele embutido uma visão crítica, assim comentando o mundo, interpretando-o, falando sobre ele.
A palavra textus é o particípio passado de texere empregado em sentido figurado, metáfora que considera o conjunto lingüístico do discurso como um tecido.
Compreende-se que a palavra textus tenha surgido num mundo judaico-cristão que possuía as tábuas da lei “escritas pela mão de Deus” (Êxodo,31,18) que assim torna sagrado o próprio ato da escrita. E o teatro tem sua origem no sagrado também.
O texto expressa o mundo e a compreensão e interpretação dos textos são a compreensão e interpretação da vida e do mundo.

“A arte é a expressão da consciência humana em uma imagem metafórica única”
Susanne Languer, 1998
O espetáculo teatral é uma narrativa que começou a ser analisada sistematicamente nos anos de 1915-1930, pelos formalistas russos que se apoiavam nas sugestões do grande folclorista Veselovskij. E foi ainda um folclorista, (Propp, 1983) que, nesses mesmos anos, levou mais longe o método de análise. Estas investigações foram retomadas a partir dos anos 50, com a contribuição de etnólogos como Lévi Strauss e teóricos da literatura como Todorov, Bremond.
O espetáculo tem origem ritualística, e como todo ritual, pretende mantê-lo fiel a seus princípios básicos. Da mesma forma que o texto possa ter sua origem divina o teatro sempre foi a celebração do divino. E como ritual e celebração obedece a uma série de preceitos que constituem sua própria essência. A essência primeira do teatro seria a possibilidade de mostrar, ao invés da essência da narrativa que é o contar.
O ritual do teatro congrega inúmeras manifestações do ser humano; a dança, o canto, a palavra, o gesto – e assim chegamos a idéia de tecido: inúmeras linguagens que se entrelaçam e criam uma tessitura una.
Partindo do conceito de trama, tecido, urdidura, o espetáculo teatral é um tecido composto da urdidura e trama de diversas linguagens: o texto, o ator – corpo, voz, interpretação, cenário, figurino – ou seja, a plasticidade, a música, a luz. Portanto o espetáculo tem idéias, emoções, música, plasticidade, movimento – corporalidade. Tem, além da ação dramática a ação no sentido de fisicalidade, presente no teatro antropológico de Eugênio Barba.
Cada uma destas linguagens – e ainda há outras que se podem associar, como a linguagem de animação, do clown, do contador de histórias – são narrativas das quais os criadores precisam se apropriar. É necessário, também, então, que se apropriem das técnicas. Linguagem e narrativa têm sentido, código, sintaxe.
A luz tem significado, o movimento é narrativa, o som, a música é texto, o ator em movimento é a fisicalidade do teatro, que tem significado.
Portanto é necessário para uma expressão artística, que aceita, comporta, tantas linguagens que cada uma delas seja plenamente exercida e que seu conjunto resulte num todo único e harmônico, esteticamente agradável, que passe emoção, prazer estético, que emocione, e faça pensar. E o teatro para a infância como todo e qualquer teatro precisa de todos estes requisitos para ser teatro.
Num mundo capitalista onde as consideradas não produtivas terceira idade e infância são desvalorizadas, a produção voltada para a criança, no mundo atual, é olhada com total descaso, por vários setores – pela mídia e até pelos próprios artistas. Qualquer um pode fazer, qualquerum pode escrever, qualquer um pode montar um espetáculo teatral, porque é para criança... Mas o teatro é obra de arte e como tal atua na formação da criança de forma contudente e para que seja realizado trazendo benefícios e não causando danos – às vezes irreparáveis – não só ao desenvolvimento do gosto estético da criança, mas quanto à ideologia que o espetáculo transmite. E pra realizar bem é necessário talento e técnica para subsistir, pesquisa e estudo, experimentação, espaço para discussão.