O TEATRO
SOB A PERSPECTIVA DA OBRA DE ARTE
por Carlos Augusto Nazareth

“O indizível – ai é que começa a Arte”
Jean – Louis Ferrier
"As pessoas devem confiar na sua sensilidade”
Fayga Ostrower
Para ela, a arte é necessária, é uma linguagem que mostra o que há de mais natural no homem; através da qual é possível verificar, até mesmo, que o homem pré-histórico e o pós-moderno não estão distantes um do outro quanto o tempo nos leva a imaginar.

"A arte é baseada numa noção intuitiva que forma nossa consciência. Não precisa de um tradutor, de um intérprete. Isso é muito diferente das línguas faladas, porque você não entenderia o italiano falado há quinhentos anos atrás, mas uma obra renascentista não precisa de tradutor. Ela se transmite diretamente. E essa capacidade da arte de ser uma linguagem da humanidade é uma coisa extraordinária".
Arte – definições diversas tentam se acercar do indizível. Será arte todo objeto que possui qualidades artísticas, tendo na estética sua função dominante, dada pela intencionalidade do artista?
Será que existem valores característicos do belo? Hoje, como pensamos Arte e valores estéticos? Qualquer objeto ou atividade pode ser detentora de uma função estética?
Será a sensação de prazer que se faz quando estamos diante de uma obra de arte? Prazer este que move à necessidade de repetição deste estado.
O diretor de teatro Peter Brook disse, certa vez, a beleza de uma peça está na qualidade e na perfeição que o público é nela capaz de identificar.
O juízo estético não é juízo dessa adaptabilidade, mas expressa o prazer desinteressado que experimentamos ao concentrarmos a nossa atenção na apreensão de um objeto. Kant propõe ainda o pleno exercício na apreciação da obra de arte.
Esta experiência do prazer estético, ao qual se segue o desejo de repetição, no teatro, seguindo a teoria de Peter Brook é a qualidade – e acrescentamos, o equilíbrio e a unidade conseguida através da pluralidade de expressões artísticas que vão para a cena. São inúmeras linguagens que se unem para mostrar a história. E por mostrarem, a palavra não é seu material único, mas uma diversidade de linguagens que se percebe, que se sente e que se vê em cena. Tudo serve ao objetivo central de se encenar ou um texto, ou uma idéia, ou um fragmento – importa o suporte, mas importa mais o que se quer dizer ao público, e tudo – deve estar a serviço deste objetivo: cenários, figurinos, luz, cor, atuação, texto e o que mais entrar em cena. Esta unidade onde os múltiplos sentidos são atingidos pela diversidade de linguagens este bombardeio múltiplo e uníssono à emoção e ao racional é que faz existir a experiência estética no teatro que tem esta característica de estímulos múltiplos sendo absorvidos num mesmo momento e ativando todas as áreas de percepção.
A função do teatro é múltipla. O teatro é ritualístico. Possivelmente em suas mais antigas expressões se confunde no tempo com a origem do contar histórias.
No caminhar dos tempos o ritualístico se tornou expressão quase que religiosa, por um lado e herética por outro, mas o ritual, a celebração, permanece em sua base.
No teatro Grego, as grandes questões, arquétipos e mitos eram oferecidos ao público e a catarse era o grande propulsor do teatro grego. E o passar dos tempos foi reunindo em torno do teatro inúmeras funções.
Portanto, o teatro continua discutindo as questões básicas do homem. Quem sou? De onde venho, para onde vou?
O teatro discute as questões do homem posto no mundo, tanto numa visão diacrônica como sincrônica.
O teatro é ontológico. Fala da própria história do homem.
O teatro continua catártico, e é, ao mesmo tempo, uma expressão artística a ser apreciada, onde inúmeras linguagens se reúnem para discutir o Homem. É a única arte onde se vê o drama acontecendo ali, naquele momento, naquele lugar. Você presencia - é a grande diferença entre o contar e o mostrar, que o teatro tem como único.
A mimesis aristotélica tem que ser entendida exatamente aqui.
Não se reproduz um fato ou uma ação, se reproduz um estado de espírito. A emoção do teatro vem da emoção que se repete todos os dias, ou que se renova, que se refaz. Não é uma simples repetição de palavras, uma repetição física.
É um resgate de um momento onde a emoção tem que estar presente, ou corre o risco de não ser teatro.
Dentro desta perspectiva o teatro tem a função estética, catártica, questionadora, transformadora, política e social – uma obra de arte - expressão artística do homem, que fala do homem, para o próprio homem e questiona O Homem