O TEATRO - PERSPECTIVAS
por Carlos Moreno

No estudo de uma peça de teatro, da perspectiva literária, interessa especificamente o texto, bem mais do que o espetáculo em que este se concretiza. Analisado como objeto de código lingüístico, o texto de teatro passa, então, a ser considerado em termos de diálogo e indicações cênicas. Outra questão fundamental na análise do texto de teatro é a caracterização da obra selecionada quanto ao gênero. Senhora dos Afogados, por exemplo, é denominada tragédia por seu próprio autor, Nelson Rodrigues. Na tentativa de compreender tal gênero, é recordada também a definição aristotélica. Há quem negue a possibilidade da tragédia no mundo moderno. Mas a luta do herói trágico contra forças poderosas, originalmente ligadas ao arbítrio divino, teria sido substituída hoje em dia: os dramaturgos atraídos pelo gênero trágico procuraram deslocar a fatalidade para o conflito com o meio sufocante ou a própria falha interior.
No estudo de uma peça de teatro, da perspectiva literária, interessa especificamente o texto, bem mais do que o espetáculo em que este se concretiza. De qualquer forma, a leitura de um texto teatral supõe pelo menos a construção de uma representação imaginária, já que o teatro, como indica Anne Übersfeld, é uma prática cênica e não um mero gênero literário [1]. Analisado como objeto de código lingüístico, o texto de teatro passa a ser considerado em termos de diálogo e indicações cênicas.
Sobre a experiência teatral, comenta Maria do Carmo Peixoto Pandolfo:
O teatro (etimologicamente "lugar de onde se vê") conjuga recitantes e espectadores numa identificação espiritual e readquire assim a acepção originária de local privilegiado onde se desenrola um rito religioso [2].
Aristóteles, na Poética, distingue a mimese "na forma narrativa" daquela em que as "pessoas agem e obram diretamente", ou seja, em que se processa a representação da ação (em gr. drama). O que aqui recolhemos desta distinção vem a ser o embate dos diálogos, a que se acrescentam, não menos importantes, o não-dito e o silêncio. Senhora dos Afogados (SA), por exemplo, é denominada "tragédia" por seu próprio autor, Nelson Rodrigues (NR). Na tentativa de compreender tal gênero, vale recordar a definição aristotélica:
A tragédia é a imitação de uma ação séria e completa em si mesma, de certa extensão; em linguagem tornada agradável pelo emprego separado de cada uma de suas formas, segundo as partes; em uma forma dramática, não numa forma narrativa; com incidentes que suscitam a compaixão e o terror, para obter a purificação de tais emoções [3].
Segundo Junito de Souza Brandão, a teoria da mimese e da catarse é o instrumento empregado por Aristóteles para separar a arte da moral [4]. Embora o mito em sua forma bruta seja a matéria-prima da tragédia, ela é “imitação (mimese) das realidades dolorosas, que são poeticamente apresentadas”, passando, assim, para um outro plano, próprio da realidade artificial que constitui a arte. Paralelamente, como "Catarse, kátharsis, significa na linguagem médica grega, de que se originou, purgação, purificação"[5], a tragédia alivia com o terror e a piedade a matéria bruta dos mitos para torná-los esteticamente operantes. Em SA, de modo semelhante, a brutalidade na abordagem da questão do incesto é aliviada pelo processamento artístico.
Graças ao equilíbrio estabelecido pelo poeta, "a tragédia 'purificada' vai provocar no espectador sentimentos compatíveis com a razão" [6]. O próprio NR procura conferir um caráter aristotélico a seu teatro, quando explica por que a “ficção, para ser purificadora, precisa ser atroz”:
O personagem é vil para que não o sejamos. Ele realiza a miséria inconfessa de cada um de nós[7].
Em Aristóteles, o herói trágico é o homem que cai no infortúnio, não por ser perverso e vil, mas por causa de algum erro [8]. Assim, a reviravolta na fortuna do herói não deve nascer de uma deficiência moral, mas de grave falta cometida. Entretanto, tal transformação não implica necessariamente num desfecho infeliz para a tragédia. O transe da infelicidade para a felicidade é nela admitido[9]. Nesse sentido, é possível distinguir o “conflito trágico fechado”, em que há a passagem da ventura à desdita, como em Antígona, da “situação trágica”, em que a mudança é da desventura à felicidade, como na Oréstia[10]. Junito de Souza Brandão explica que “o trágico pode não estar no fecho, mas no corpo” da peça:
Chamamos, por isso mesmo, tragédia à peça cujo conteúdo é trágico e não necessariamente o fecho [11].
O conteúdo da tragédia talvez possa ser relacionado ao sentimento trágico da vida, definido por Miguel de Unamuno como “ponto de partida pessoal e afetivo de toda a filosofia e de toda a religião” [12]. Nesse sentido, o pensador discute a condição humana:
O homem - diz-se - é um animal racional. Não sei por que não tem sido chamado um animal afetivo ou sentimental. E talvez até que o que mais o diferencie dos outros animais seja o sentimento e não a razão [13] .
Por outro lado, Jean-Marie Domenach comenta que o delírio passional é incapaz de constituir a tragédia se outros elementos não intervêm, já que a linguagem trágica não apenas obseda o personagem, aprisionando-o em sua paixão, mas também serve para distanciá-lo de si mesmo, fazendo surgir “sob o eu passional um ser mais profundo, uma lucidez que está além da consciência ou da inconsciência” [14].
A tragédia, segundo Domenach, está, portanto, ligada a um equilíbrio de sombra e luz, de consciência e perda de si, oscilando entre dois extremos aparentemente contraditórios. De um lado, a falta inconsciente e a punição desmerecida, ou seja, a atmosfera pesada e fechada da fatalidade; de outro, um mundo, de aparência brilhante mas enganosa, de liberdades heróicas, exaltado de honra e de sacrifício:
O mistério trágico é constituído quando se misturam um ao outro os dois elementos, na sua maior pureza e na sua mais estreita unidade: o querer humano e a essência inumana da fatalidade [15].
De acordo com Domenach, o trágico corresponde ao “pressentimento de uma culpabilidade sem causas precisas e de que, no entanto, a evidência não é propriamente discutida” [16]. Segundo o pensador, o trágico não se confunde com a tragédia, mas é ela que nos permite caracterizá-lo:
Para que o trágico se manifeste, é necessário que um dispositivo metafísico duplique o dispositivo humano, e que uma depuração se produza, atraindo a transfiguração característica da tragédia [17].
Segundo Pandolfo, a tragédia grega surge precisamente quando o herói mítico deixa de ser modelo para constituir-se em problema, pois "ela confronta, graças ao racionalismo nascente, os valores tradicionais veiculados pelas narrativas míticas com as novas práticas sociais e religiosas da época (século V. a.C.)" [18]. Tal tensão aparece na própria estrutura da tragédia: ao coro, “personagem coletivo, anônimo”, se opõe o herói do passado, “personagem individualizado, de condição nobre”:
O próprio personagem trágico se constrói na tensão dialética estabelecida entre a intencionalidade do ato, decorrente do exercício da liberdade humana (ETHOS), e a injunção do destino, fixado pelos deuses, e que se perde em uma anterioridade sempre presente (DAIMON). Por isso é agente e paciente, culpado e inocente, lúcido e incapaz de compreender, dominador e dominado. Para Vernant, a essência do trágico decorre da coexistência destas duas forças, da simultaneidade destas duas pulsões [19].
O gênero trágico é, em resumo, caracterizado pelo uso da máscara, signo da metamorfose, pelo coro, representante da coletividade dos cidadãos, e pela ação do herói [20]. Além disso, deve haver um acontecimento aterrorizante, “representado pelas interdições do mundo cultural grego: o parricídio, o incesto, o regicídio” [21].
Gerd Bornheim vê o teatro ocidental fundamentado em duas estéticas distintas, sendo que a primeira é a formulada por Aristóteles, e a segunda é a que caracteriza o teatro medieval, os elizabetanos e o Século de Ouro espanhol basicamente [22]. Para ele, as duas estéticas coincidem no princípio da imitação e na finalidade do teatro (a catarse), mas divergem no modo como entendem a estruturação do texto:
Os medievais entendem o texto de modo mais solto, composto de cenas mais ou menos independentes e cuja ordem pode até ser modificada. Um exemplo disso, existente ainda hoje, é a via sacra: cada estação é uma pequena peça que quase vale por si. Já Aristóteles entendia o teatro com um rigor bem maior; para ele uma peça tinha que ser um todo completo e fechado em si mesmo. Aristóteles postula a unidade de ação, e essa unidade se desdobra em atos que ocupam um lugar exato e que correspondem ao princípio, ao meio e ao fim da ação [23].
A partir de Aristóteles, os textos teatrais são considerados como filiados aos gêneros básicos da tragédia e da comédia. Contudo, no prefácio de Cromwell, manifesto estético do romantismo, Victor Hugo preceitua a adoção de um texto que passa naturalmente da comédia à tragédia, do sublime ao grotesco:
"Preferiu-se denominar drama esse novo gênero compósito, e daí por diante o teatro desrespeitou sem pejo as classificações tradicionais" [24].
Magaldi aponta que há quem negue a possibilidade da tragédia no mundo moderno, uma vez que a partir do cristianismo se desenvolveu a idéia do livre-arbítrio, incompatível com os postulados da religião grega [25]. A luta do herói trágico contra forças poderosas, originalmente ligadas ao arbítrio divino, teria sido substituída hoje em dia:
Os dramaturgos atraídos pelo gênero trágico procuraram deslocar a fatalidade para o conflito com o meio sufocante ou a própria falha interior [26].
Dentro dessa acepção ampla é que, segundo o crítico, poderiam ser consideradas tragédias, por exemplo, Electra enlutada, de Eugene O’Neill, e A morte de um caixeiro-viajante, de Arthur Miller. Quanto às rodriguianas SA, Álbum de família (AF), Anjo negro (NA) e Dorotéia (D), Magaldi comenta que sua substância mítica as inclui necessariamente no gênero trágico, sendo que, nelas, a fatalização estaria no relacionamento familiar [27]. De qualquer forma, ele assinala que, liberto da fatalidade, o drama, compreendendo as peças consideradas sérias, seria mais condizente com os conflitos do cristão, que podem ser resolvidos pelo arrependimento e pela penitência [28]. Por outro lado, afirma que o teatro de hoje procura “refletir, até nos gêneros, a dissociação do homem contemporâneo [29]. Já Domenach situa da seguinte forma o nascimento e a evolução do gênero trágico:
A tragédia começou logo que os deuses da Grécia emigraram para o Olimpo, e o ciclo trágico se reabriu com a morte do Deus dos cristãos. De novo os homens se revoltaram, tentaram se apropriar dos poderes divinos. Então, eles se chocaram contra o destino, conheceram seus limites. Procuraram escapar à obsessão da culpabilidade, que era neles como a presença negativa de Deus. O momento de agir chegou. Matar Deus é erigir o homem, mas é também ressuscitar um Deus de rosto desconhecido[30].

Carlos Moreno é Doutor em Semiologia (Letras) pela UFRJ e Professor do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Social da UERJ
Bibliografia
• BORNHEIM, Gerd. Teatro: a cena dividida. Porto Alegre: L&PM, 1983. 126 p.
• BRANDÃO, Junito de Souza. Teatro grego: tragédia e comédia. Petrópolis: Vozes, 1985. 120 p.
• COSTA, Lígia Militz da Costa, REMÉDIOS, Maria Luiza Ritzel. A tragédia; estrutura e história. São Paulo: Ática, 1988.80 p.
• MAGALDI, Sábato. Iniciação ao teatro. São Paulo: Ática, 1991. 126 p.
• UNAMUNO, Miguel de. Do sentimento trágico da vida. Porto: Editora Educação Nacional, 1953. 392 p.

# postado por Carlos Augusto Nazareth @ 8:24 PM

Comentários:
INDICADO AO PRÊMIO CONTIGO DE MELHOR ESPETÁCULO MUSICAL NACIONAL.
ÚLTIMOS DIAS NO TEATRO ARTHUR AZEVEDO!

O Núcleo Experimental da Cooperativa Paulista de Teatro apresenta o espetáculo musical SENHORA DOS AFOGADOS, de Nelson Rodrigues. Em sua quinta temporada, o espetáculo dirigido por Zé Henrique de Paula e realizado pela produtora Firma de Teatro ficará em cartaz até o dia 25 de setembro/2008 no Teatro Arthur Azevedo, no bairro da Mooca em São Paulo. Contamos com a sua presença!

TEATRO ARTHUR AZEVEDO
(Av. Paes de Barros, nº 955 - Mooca)
Informações: 11 2605 8007
Entrada: R$ 15,00 (inteira) / R$ 7,50 (meia)
De 06/08/08 à 25/09/08
Somente as quartas e quintas às 21h00.

'...revelar o impulso que move cada um dos personagens e as conseqüências desse comportamento - se faz presente com bastante êxito na montagem e contribui para a empatia do público e para a compreensão dessa peça que não está entre as mais fáceis do autor. O resultado é uma linha de interpretação que não é nem 'natural', nem caricata, construída no difícil equilíbrio entre contenção e densidade. Seca, sem tons melodramáticos, com marcações precisas e não cotidianas, a encenação lança seu foco no patamar trágico, o mais relevante nas ditas peças míticas de Nelson Rodrigues.'

Beth Néspoli - Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO.

'Também responsável pelo surpreendente Mojo, o diretor Zé Henrique de Paula reafirma seu talento ao transformar a tragédia escrita em 1947 em um musical. A história está intacta e traz a
densidade característica do universo do dramaturgo.' '... o bom elenco garante a tensão dramática.'

Dirceu Alves Jr. - REVISTA VEJA SÃO PAULO.

SENHORA DOS AFOGADOS de Nelson Rodrigues
Com

Einat Falbel - D. EDUARDA
João Bourbonnais - MISAEL
Lourdes Gigliotti - AVÓ
Marcela Piccin - MOEMA
Marcelo Góes - NOIVO
Thiago Carreira - PAULO
Alexandre Meirelles - SABIÁ
Elber Marques - VENDEDOR DE PENTES

VIZINHOS
Diana Troper
Fábio Redkowicz
Paulo Bueno
Thiago Ledier

MULHERES DO CAIS
Bárbara Bonnie
Bibi Piragibe
Carol Fioratti
Cláudia Miranda
Ci Teixeira
Karin Ogazon
Kelly Klein
Maíra Gomes
Patrícia Vieira

DIREÇÃO - Zé Henrique de Paula
DIREÇÃO MUSICAL - Fernanda Maia

(Piano - Fernanda Maia / Violoncelo - Kalyne Valente)
ASSIST DE DIREÇÃO - Fabrício Pietro
PREPARAÇÃO DE ATORES - Inês Aranha
ILUMINAÇÃO – Fran Barros
OPERAÇÃO DE LUZ – Karina Camillo
FOTOS – Guto Marques e Roberto Mourão
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO – Cláudia Miranda
FIGURINOS - Zé Henrique de Paula
REALIZAÇÃO – Firma de Teatro

veja vídeo da peça em:
http://www.youtube.com/watch?v=capEf439dio

saiba mais visitando:
http://bocadecenacomunicacao.com.br/senhora/index.html

http://joaobourbonnais.blig.ig.com.br/