O Teatro Infantil Envelheceu?
Carlos Augusto Nazareth


Autores, produtores, atores, críticos, pais, professores e crianças passam por um momento de perplexidade diante do que vai nos palcos para as crianças.
É como se o teatro infantil não tenha conseguido acompanhar a dinâmica do mundo, o mudar dos conceitos e – pricipalmente – a transformação da criança.

“Estudar a criança tem sido um desafio ( ... ) as razões são muitas e a principal parece ser justamente a dificuldade em reconhecer na criança um objeto legítimo de estudo.
( ... )
...precisamos nos desvencilhar das imagens pré-concebidas e abordar esse universo e essa realidade tentando entender o que á neles e não o que esperamos que nos ofereçam. Precisamos nos fazer capazes de entender a criança a partir de seu mundo a partir do seu próprio ponto de vista” . (COHN, 2005)

A estética perversa do teatro infantil

Ao longo destes anos se estabeleceu um conjunto de procedimentos aos quais resolvemos chamar de a estética perversa do teatro infantil. Uma estética que se instaurou em todas as linguagens que envolvem o espetáculo teatral para crinças.
Esta estética foi se estabelecendo insidiosamente e mediadores desavisados e/ou desinteressados passaram a entender esta estética da expressão teatral para crianças como: “teatrinho infantil é assim mesmo” e espichados em suas poltronas, quase adormecidos, mal vêm o que está em cena, enquanto a criança, se muito pequena, fica atenta apenas à mágica teatral – tenta, como num jogo, descobrir o jogo teatral. Isto revela um total desinteresse pelo espetáculo e então a criança cria o seu próprio “Onde está Wally?” para se divertir.
Se a criança é maior, sua inquietação revela o desinteresse pelo que está em cena.
O espantoso é que as platéias diminuem dia-a-dia e todos olham com naturalidade para este fenômeno.
Os pais não se dão conta que teatros vazios podem denotar espetáculos de má qualidade. Não aproveitam este indício para se perguntar e questionar sobre o valor do espetáculo ao qual está levando seu filho. E, consequentemente, nem se perguntam o que os espetáculos, construídos a partir deste conjunto estético, pode causar de malefício em relação à percepção da criança frente a Arte e o perigo de afastá-las do fenômeno artístico, que passa a ser algo chato, sem sentido – desnecessário. E isto é grave em se tratando da formção integral do ser humano onde a Arte é fundamental.
Esta estética vem se construindo há anos por um grupo de produtores, que se alternam na cena carioca e pela inércia do público em busca de algo novo e de qualidade.
A escolha do espetáculo a ser visto é feito pelos pais, sem dúvida. Portanto a responsabilidade é total, mas parece que um grande acordo tácito entre produtor, teatro, público e pais, todos pouco preocupados com a ponta deste processo: a criança.
Por falta de informação, falta de preocupação, falta de senso crítico e estético ?
Há por outro lado um grupo de produtores que busca uma produção de qualidade, com textos que tenham algo a dizer, com uma estética instigante, que trate o espetáculo como obra de arte e a criança como um receptor em formação.
No entanto, neste embate, as “armadilhas” acabam levando vantagem sobre os bons espetáculos.
Os motivos são vários. Em primeiro lugar grande parte destes espetáculos lidam com os clássicos. Os pais, sem referências para avaliar os espetáculos em cartaz, vêem, através de sua memória afetiva, a possibilidade de proporcionar a seu filho o mesmo prazer que teve ao assistir àquele clássico quando criança. E ali dentro do teatro apenas se transporta no tempo, abandona o seu senso crítico e na maioria das vezes nem estabelece um julgamento de valor porque partem da memória afetiva e o que eles ali vêm é a história que têm na memória, não a que está no palco. Esta inércia dos pais, a falta de senso crítico em relação ao teatro infantil hoje, fazem com que se continue levando as crianças a este tipo de espetáculo, que tem um público garantido: pais em busca do tempo perdido.
Mas isto não se dá evidentemente só com os clássicos. Esta estética perversa se estende a qualquer texto produzido por este segmento de produtores que acredita que define de forma estática o que seja teatro para criança, que acredita que já descobriu a fórmula e que só há uma coisa a fazer – repetir esta fórmula. E o pior - pensa que sabe o que seja Criança.
Esta estética perversa, a inércia do público, a visão apenas mercantilista de alguns, a ausência e negação da crítica especializada, a falta de espaço de discussão, de patrocínios, públicos e privados vão aos poucos transformando o teatro infantil num dragão de sete cabeças, tornado-o um fenômeno, por vezes, incompreensível .

A recepção do espetáculo teatral

OS PAIS
Os pais que estão acompanhando seus filhos aos espetáculos nos teatros - têm uma expectativa sobre a reação de seus filhos. Evidentemente o pai que leva o filho ao teatro quer ter feito uma boa escolha. Quer que a criança curta o espetáculo. Com isto há um comportamento estereotipado de grande parte dos pais.
Ouve-se à entrada: “o palhaço vai aparecer, nós vamos bater palmas, cantar junto com eles” E nem palhaço a peça tem. E ao primeiro acorde, quem, ansiosamente inicia a bater palmas, são os pais e durante todo o tempo do espetáculo incitam a criança, instigam, excitam. Os pais precisam de alguma resposta de seus filhos estão para se tranquilizarem de que “acertaram”. E ficam todo o tempo perguntando “está gostando, filho?” E interferindo todo o tempo, recontando a história, enfim, impedindo que a criança se entregue ao espetáculo.

A CRIANÇA
Sem dúvida nesse processo de seleção do que ver, a criança é sempre conduzida - apenas eventualmente consultada - ao espetáculo a ser assistido. O teatro não é um assunto a ser conversado. Os pais decidem que este é o melhor espetáculo. E o melhor espetáculo muitas vezes é escolhido pela sua proximidade de casa, por ter estacionamento. Poucos são os pais que tentam se informar sobre as boas possibilidades existentes, que, embora poucas, existem. E a criança é exposta a esta estética perversa que vai formando o seu gosto estético de forma distorcida e equivocada.
Gosto não se discute? Se discute, sim! Nada pior do que expor a criança a um numero limitado de possibilidades artísticas de má qualidade. Isso não só acontece com o teatro como na música, no cinema, na literatura. O pai consciente e crítico tem que estar atento à qualidade do que oferece à criança, assim como, na maioria das vezes, está preocupado com a alimentação. Há uma máxima que diz: “Você é o que você come” Isto também vale para o alimento da sensibilidade, do humano, da alma.

A ESCOLA
A Escola, na maioria das vezes não cumpre o seu papel. Não acreditamos que caiba à escola levar a criança ao teatro ou trazer o teatro à escola, mas com certeza cabe à escola incentivar e motivar a participação da criação no universo da Arte como parte indispensável na formação integral do ser humano.
Muitas vezes a escola quer se servir do teatro para atender as suas necessidades pedagógicas. O velho problema das datas comemorativa, hoje até já nem tão corrente, mas os PCN, temas transversais, enfim, olham para o teatro como uma complementação pedagógica, quando o teatro, apesar de ter várias facetas, tem que ser visto principalmente como Obra de Arte. E aí ele tem a sua função em si mesmo. Não tem que haver um “aproveitamento” após o espetáculo como tanto gostam as escolas. O espetáculo teatral de qualidade, a obra de arte, cumpre totalmente sua função em si mesmo. Assistir é o bastante. Conversar informalmente sobre o espetáculo, motivar antecipadamente, tudo bem, mas atividades escolares decorrentes minimiza a ação do teatro, didatiza a obra de arte, reduz as possibilidades de leituras, escolariza a expressão artística, afasta a criança deste universo.
Mas algumas escolas confessam se sentir inaptas a trabalhar com este universo. Então que seja buscada, por ela, por sua responsabilidade, uma assessoria.especializada. E neste mesmo cunho de sensação de inaptidão não oferecem à criança a literatura dramática, justificando que não há publicações de textos teatrais, o que não é verdade, embora este seja um problema grave que merece uma discussão à parte. Na verdade há uma sacralização do texto teatral. Os professores trabalham com os alunos as diversas linguagens, o jornal, o conto, a crônica, a publicidade e por que não a literatura dramática?

OS TEATROS
Os teatros, por sua vez, como “casa de espetáculos” são responsáveis sim por sua programação. Têm que escolher, selecionar o que há de melhor para oferecer a seu público. No entanto não é o que acontece. Teatros, dos melhores, acolhem em sua programação muitos destes espetáculos construídos dentro desta estética perversa. Os shoppings são mestres em exibir os espetáculos feitos sob a égide da estética Disney, piorada. O que importa ao teatro é receber o mínimo e não deixar “furo” em sua pauta, pois os próprios programadores pouco estão interessados em avaliar os espetáculos que ali vão se apresentar. Um projeto é um enigma difícil de ser decifrado mesmo para os profissionais mais experientes. O que norteia esta decisão normalmente é a qualidade gráfica do projeto. É a estética do projeto que é avaliado, não a estética do espetáculo
. Outro mal do teatro infantil são os clubes, que colocam qualquer espetáculo, sempre clássicos da pior qualidade como texto, como produção, como elenco e oferecem à criança que está ali a seu alcance e que o pai “manda para o teatrinho” para que ele possa ficar mais à vontade no clube. E estes espetáculos ficam acima do bem e do mal, pois como já se sabe a falta de qualidade que têm, a crítica especializada –quando havia - a eles não comparecia; os jurados de prêmios conceituados a eles não assistem. Como grande parte dos pais não estão preocupados em se informar sobre eles, as produções vão sobrevivendo à custa dos sócios, revezando as mesmas peças anos a fio, às vezes com o mesmo produtor ocupando dois horários, até mesmo em dois ou três espetáculos, em clubes diferentes.

OS PROGRAMAS DE APOIO AO TEATRO
Os patrocínios públicos ou privados não vêm no teatro infantil um bom investimento. Se privados, comercialmente não é de interesse da maioria das empresas; se público, politicamente não causa nenhuma repercussão a concessão de patrocínio aos espetáculos infantis. Portanto aqui começa a se tornar visível a ponta do “iceberg”. Sem patrocínio, hoje, muito, mas muito difícil se construir um bom espetáculo e entrar em cartaz, com profissionalismo e competência. Há quem diga – se não há patrocínio não há teatro.
Portanto os profissionais de teatro cada vez mais se vêm cerceados de produzir bons espetáculos e aí começa a se desmanchar um castelo de cartas. Sem patrocínio, não temos bons espetáculos, sem informação na mídia, impossível saber o que é bom e o que é ruim, a exposição da criança a estes espetáculos construídos dentro desta estética perversa de-forma a sua recepção da obra de arte. Daí os teatros cada vez mais vazios e daí cada vez piores os espetáculos. E isto abre espaço para que os “aproveitadores” se instalem nesses espaços e que fiquem satisfeitos com trinta espectadores nas salas de espetáculos.

A MIDIA
A Midia abandonou completamente o teatro infantil. Hoje não há crítica especializada em nenhum jornal. Ressalva para a Vejinha que não faz propriamente uma critica, mas coloca, há anos, uma resenha critica dos melhores espetáculos, sem interrupção.
Há jornais que dizem tranquilamente – teatro infantil não interessa ao grande público. Claro, quando numa semana um dos principais jornais do país coloca como manchete “Bruna Surfistinha acha que Cicarelli extrapolou” isto é suficiente para se entender a política que rege o quarto poder (ou segundo? ou primeiro?)
Os já mal conduzidos cadernos de cultura dos nossos jornais quando tratam de matéria Arte, não abrem espaço para a produção cultural voltada para a criança.
Há editores do caderno de cultura de grandes jornais que sabidamente detestam teatro infantil. E aí entraríamos na discussão do preconceito em relação ao infantil que é fato histórico, que não caberia aqui discutir, mas que cabe – e muito – ser pensado de forma mais verticalizada.

Os meandros da estética perversa deste dito teatro, dito infantil

O TEXTO
Comecemos pelo texto. Comecemos pelas adaptações.
Por que um dramaturgo escolhe um determinado texto para adaptar? Evidentemente porque há algo que o texto diz que ressoa naquele para que faça a adaptação. O texto diz coisas que o dramaturgo considera como se fossem suas. E coisas que ele considera importantes, que ele acredita que devam ser ditas para seu público-alvo. Esta consciência do porque adaptar, que se afasta de uma visão puramente mercadológica, é o primeiro passo para um bom trabalho. Aqui estamos falando das adaptações, mas isto vale para os textos inéditos, com certeza. Descobrir o que tem a dizer é a primeira tarefa do dramaturgo.
As adaptações dos clássicos deixam de lado a essência da história, que as fez atravessar anos, narrativas fundantes, mitos que se tornaram contos populares, transmitidos através da tradição oral. Esta essência TEM que estar na adaptação. E o que acontece é que os adaptadores normalmente pegam a tênue trama destes contos e só se importam com ela, modificando-a, “atualizando-a” de modo absurdo, onde celulares, shoppings, Hebes Camargos e Xuxas geralmente estão presentes. O sumo, o suco, a essência, o mítico é deixado de lado, talvez porque nem saibam da existência desta lado, talvez porque não estudem, não pesquisem aquilo que vão adaptar.
Os textos originais, que buscam criar tramas originais, novas, padecem de problemas semelhantes, pois muitas vezes os autores na realidade não têm o que dizer. E se expressar artisticamente pressupõe uma necessidade vital de dizer algo importante para alguém. Este talvez seja o maior mal de muitos textos originais que têm estado no palco nos últimos anos – não ter o que dizer. E isto não é privilégio do teatro para crianças. Esta falta do que dizer estabelece o primeiro e mais grave preceito desta estética perversa do teatro infantil – o vazio do que dizer.

O ELENCO

Outro grande “fantasma” desta estética é a interpretação dos elencos. Os atores, a maioria dos que ainda se aventuram num espetáculo infantil, despreparados, “cantam” as falas, exageram, canastram, ilustram, não se movimentam, dão o texto com péssima articulação, péssima projeção, porque qualquer um se acha apto a fazer teatro infantil.
O que é ser ator de teatro infantil? Subir no palco e fazer a criança rir ? E tem ator que diz. “ah... teatro infantil? Eu sou muito rápido pra “pegar” o personagem.” E pela enésima vez citando Stanilavsky “Teatro para crianças é igual ao adulto. Só que tem que ser melhor”. Ignoram totalmente qualquer necessidade de compreensão do personagem, de sua trajetória, enfim, é apenas decorar um texto (já vi ensaio de teatro infantil ser feito por dois atores que nunca haviam se visto “bater o texto’ por telefone e se encontrar no dia para fazer um espetáculo em uma escola. Tudo isto porque teatro infantil é menor, é muito fácil de fazer. Esta falta de profissionalismo e mais do que isso eu diria de ética, é um dos baluartes desta estética perversa do teatro infantil. E aproveitando o momento de citações, o diretor Peter Brook disse, certa vez, que “ a beleza de uma peça está na qualidade e perfeição que o público é nela capaz de identificar” (e de forma absolutamente natural e intuitiva, acrescentamos).
Pessoas que NUNCA foram atores, não se furtam a subir num palco de um espetáculo infantil e se dizerem atores e a dizer que fazem teatro e pior – convidar os amigos para vê-los em cena. Mas esta questão também se desdobra. Muitos bons atores se recusam a fazer teatro para crianças – o preconceito existe dentro da própria classe e aí caímos, muitas vezes, inexoravelmente, no amadorismo.

A PRODUÇÃO
Esta cadeia, esta sucessão de equívocos acaba inviabilizando o bom teatro. Enquanto isto os maus produtores reciclam figurinos, improvisam cenários, pagam cachês aviltantes a não-atores e acabam sobrevivendo e ocupando espaços por vezes nobres com títulos conhecidos de clássicos, pois nem os nomes televisivos do segundo escalão leva criança ao teatro infantil – o que não é um fato no teatro adulto.
A produção está relacionada diretamente com a falta de dinheiro, a falta de patrocínio, a falta de apoio, a falta de divulgação e a conseqüente falta de público.
E temos os outro elementos do teatro, a luz – magia do teatro infantil, principalmente – improvisada, sobre cenários e figurinos mal acabados, aproveitados de outras produções, trilha sonora da pior qualidade técnica, imporivsdadas, enfim, uma cadeia initerrupta de uma crise que vai da criação do texto ao final da temporada.

Mas o verdadeiro artista tem uma capacidade de resistência inacreditável, porque alimentado por paixão e arte consegue resistir e sempre há movimentos para resgatar a qualidade do teatro infantil, abandonar esta velha estética perversa do teatro infantil e sair em busca do que é a criança hoje para podermos saber o que poderá ser o teatro para criança hoje.
Desistir? Jamais! Juntar esforços, sim, embora com toda da dificuldade que isto tenha. Mas o panorama começa a mudar. Começa sim! O CBTIJ completa dez anos de luta, fora outros tantos de preparação desta luta, o CEPETIN, com dois anos de existência, traz em sua bagagem já um considerável número de ações em prol do teatro infantil. O Centro de Referência do Teatro Infantil realiza o Festival Intercâmbio de Linguagens e programa o Teatro do Jockey com produções confiáveis. Mas temos certeza de que enquanto uma grande empresa, que tenha seu olhar centrado na formação da criança, não “assumir” o Mecenato do Teatro Infantil, esta situação mudará - mas de forma mais lenta - e como já dizia o mestre Amir Haddad em uma comemoração no CCBB – “desde os tempos das descobertas os mecenas são imprescindíveis. - os reis católicos já patrocinavam a descoberta do Brasil” , segundo a história oficial.
Além disso todos os bons produtores, atores, diretores, autores, iluminadores, cenógrafos, figurinistas, realizadores que estão há anos nesta luta que continua – o Tablado, o Hombu, o Navegando, O Ventoforte, apenas para exemplificar com alguns dos mais tradicionais, e tantos outros grupos competentes, e artistas que, individualmente, também participam desta cruzada, que a classe teatral, hoje aqui presente, conhece tão bem e que o CEPETIN tem tentado sinalizar em sua Categoria Especial nestes dois anos. Reconhecer as bases, as origens e buscar os novos caminhos. Que 2008 seja uma ano de realizações a caminho desta meta, mas sabedores de que sem a iniciativa privada apoiando, sem uma política cultural preocupada com esta questão, nosso caminho será muito mais árduo. Que venham as políticas culturais tão necessárias, que venham os mecenas – o teatro infantil precisa ser redescoberto, que venham os reis católicos – ou não – contemporâneos, abraçar esta causa da re-descoberta do teatro para crianças. Um renascimento que já se anuncia, felizmente.