O TEATRO INFANTIL E SUA HISTÓRIA
Sessenta e um anos de luta
por Carlos Augusto Nazareth

Este blog não tem a intenção de estabelecer uma linha cronológica ou temática de questões a serem levantadas sobre o teatro para crianças.
É um espaço aberto à reflexão sobre os inúmeros temas com os quais se relaciona o teatro infantil.
Mas como terminamos o ano de 2005 apontando os melhores do ano através do Jornal do Brasil e iniciamos a matéria dizendo “este foi um ano difícil para o teatro infantil” resolvemos levantar algumas questões que foram abordadas algumas vezes pela imprensa.
Na década de 40, clamando por espetáculos dedicados à criança estava Paschoal Carlos Magno, que em 1944 lançava um apelo através do Jornal Correio da Manhã, para que a classe teatral começasse a produzir espetáculos para crianças.
Nos anos 50 surge O Tablado, durante anos considerado o quartel-general do teatro infantil de qualidade, comandado pela “generalíssima” Maria Clara Machado.
No entanto o jornal O Estado de São Paulo falava que o teatro infantil “na década de 50 passou a ter uma produção regular, porém mais comercial do que propriamente artística. Cenários e figurinos eram feitos com o material das montagens para adultos. A música aparecia esporadicamente. Nos anos 60, com a reforma do currículo escolar primário, surge uma nova fase e um novo mercado para o teatro infantil. O teatro vai às salas de aula. Ocorre uma mudança no conteúdo dos textos determinado pelos educadores” Maria da Glória Lopes – autora da matéria – registra o fato mas não deixa claro sua posição em relação ao tema, discussão presente até nossos dias.
Nos anos 70 surgiram os grupos Ventoforte, de Ilo Krugli, Hombu, Navegando, Manhas e Manias, Feliz Meu Bem e tantos outros que conduziram o teatro infantil por caminhos de crescimento e descobertas.
E novamente Maria da Glória Lopes, no O Estado de São Paulo, nos fala sobre esta década – “marcada pela diversificação das correntes que vai desde a clássica até a realista. Os temas folclóricos e circenses são incorporados à dramaturgia infantil. O teatro de bonecos começa a recuperar sua importância. A música e a dança predominam na maioria das peças. Aumentam o número de espetáculos e de espectadores. Mesmo assim o teatro infantil é considerado de segunda categoria. O final dos anos 70 para os anos 80 marca uma passagem de um teatro didático para um teatro de caráter lúdico. Aqui também não é claro seu julgamento de valor sobre esta passagem.
Passada a década de 70, passado o fenômeno dos grupos em seu trabalho movido a paixão, pela pesquisa, pela busca, chegam os 80 com uma negra perspectiva.
Neste período o teatro infantil se via em sua grande parte entregue a produtores inescrupulosos que re-quentavam clássicos da literatura, “aliciavam” pseudo-atores nas esquinas dos bairros e enchiam os teatros com a família e amigos dos meninos levados à condição de atores. O espaço da mídia era mínimo e irregular. E sofreram, nesses anos, os que continuaram a lutar por um teatro de qualidade.
Com a chegada de uma multinacional no mercado do teatro para crianças houve um “boom” do teatro infantil, que se tornou, na época, indiscutivelmente, o melhor do país. Revelou atores, atrizes, diretores, autores, que estão até hoje no mercado, numa carreira sempre em ascensão, ou seja, eram valores verdadeiros.
Quando a empresa se retirou do mercado, foi catastrófico, porque a classe artística dedicada ao teatro para criança não tomou em suas mãos as rédeas da condução do processo artistico-político. De certa forma se acomodou ao paternalismo multinacional.
E novamente o teatro cai, por algum tempo, em tenebrosa escuridão. Aqueles produtores que haviam saído das pautas com seu teatro caça-níqueis começaram a voltar, a classe, dispersa, não tinha rumo. Sem patrocínios, quase cinco anos sem critica no Jornal do Brasil, enfim, o esvaziamento total do que havia sido tão pleno durante anos seguidos.
Os heróis começaram a se cansar de tanta heroicidade não reconhecida e começaram a buscar outros meios de sobrevivência mesmo.
Em 2001, o jornal O Globo, dá uma matéria de capa do Segundo Caderno com o titulo
TRISTE CENA INFANTIL
sem prêmios e sem patrocínios o teatro para crianças passa por momentos de crise.
E colhe depoimentos. Dudu Sandroni diz “No momento eu não saberia por onde começar para montar um espetáculo infantil. Bateu um grande cansaço de se matar um leão por dia.” Teresa Frota passou a ter dificuldades de montar seus textos e deixou o teatro infantil e passou a escrever para a televisão.
Como vemos a linha histórica mostra avanços e recuos, do teatro para crianças, ligados a ações pontuais, pessoais, interferência de empresas no mercado, enfim, a classe teatral e os realizadores do teatro infantil entregues à maré dos acontecimentos.
Embora seja unânime o reconhecimento que a qualidade do teatro infantil anda baixíssima - pelas mesmas questões sempre presentes, que se repetem e se alternam no decorrer do tempo, a perspectiva que mudanças são possíveis é o alento da classe artística, dos mediadores pais e professores.
Ações governamentais, se não eficientes como se esperava, ou se desejava, ou se necessitava, estão surgindo mais sistematicamente, como os prêmios de patrocínio, os prêmios de dramaturgia. O Centro de Referência do Teatro Infantil tem realizado encontros anuais visando a interface das múltiplas linguagens que estão hoje nos palcos.
A ação política, em seu sentido mais amplo, é que pode tornar este processo contínuo e representativo e que poderá, a médio prazo, apresentar resultados significativos. Esta ação se compões dos diversos segmentos dos governos nas áreas federais, estaduais e municipais, em conjunto com a classe teatral, as câmaras setoriais, as entidades de iniciativa privada, enfim, a ação conjunta destes órgãos é que pode provocar uma mudança de qualidade a médio prazo.
O CBTIJ é, no momento, o único órgão que reúne criadores que se dedicam ao teatro para crianças, com ações práticas e objetivas. Pode ser o órgão aglutinador e irradiador estas ações. Mas para que isto aconteça precisamos olhar o teatro infantil como uma expressão da arte, do humano, e, com generosidade trocarmos informações, experiências, para que possamos chegar a um denominador comum.
E é isto que este BLOG pretende ser – mais um elemento provocador de debate, de reflexão, que contribua para que a informação se agilize através deste universo da internet.
Por isso pedimos que aqueles que estejam interessados em discutir estas questões, nos enviem e.mail (clicando sobre carlos augusto nazareth, ao final do artigo) nos dando sugestões, propostas, perguntas.
Que visitem o site do Centro Brasileiro de Teatro para a Infância e Juventude (CBTIJ – link no blog), se informem das ações em andamento, falem de suas experiências, dificuldades.
Uma tribuna de debate prático-teórico, acadêmico, através de artigos e matérias, reflexões, propostas, sem deixar, em hipótese alguma, nos levarmos por paixões que nos façam recair na discussão pessoal ou na troca de recados sem finalidade.
E que 2006 possa apresentar um saldo positivo ao seu final.
Parte deste artigo foi publicado no Jornal Vertente em dezembro de 1996