O TEATRO E O ESPELHO
por Carlos Augusto Nazareth

É o teatro o espelho do homem e do mundo. Ali, movidos pela razão e pela emoção, percebemos o Homem em sua relação com ele mesmo, com os outros e com o mundo. E esta é uma das funções do teatro - repensar o homem e a vida, inserido num contexto histórico-político.
As produções voltadas para as crianças espelham como os criadores vêm a criança e o teatro como Obra de Arte, função primeira do teatro e como mero produto comercial. Por vezes, colocado a serviço do ganho fácil e de projetos caça-níqueis, alguns produtores buscam atingir segmentos definidos da população, criando produtos que atendam ao perfil destes “consumidores”, seja de que forma for, visando unicamente o lucro e tentando conquistar principalmente os pais, que são os que decidem que espetáculo a criança irá ver.

Esta questão é segmentada

1. Há produções que se dirigem diretamente para um público considerado de elite, na verdade classe média, que sempre passa férias na Disneylândia e têm uma irresistível atração pelo “american way of life” e pelas grandes produções e grandes musicais.
Portanto as produções que ocupam os teatros situados em locais nobres buscam atingir esse público com dois tipos de espetáculo. Cópias “trash” dos filmes de Walt Disney, onde o espetáculo é uma reprodução dos filmes – os diálogos são traduzidos, as músicas ganham versão em português, os figurinos reproduzidos e os tipos físicos dos atores repetem o tipo dos astros norte-americanos: lindas mocinhas louras se apaixonam por belos príncipes encantados e louros. Estes espetáculo geralmente se utilizam de certos “truques” que os produtores perceberam que “funcionam” - a referência a assuntos contemporâneos, programas de televisão, o uso de termos “da hora “ , a introdução da tecnologia nos contos de fada, onde a bruxa fala com a fada por celular e por vezes mesmo o recurso do ator fazendo papel feminino, numa composição “drag queen”, com bastante escracho, propositalmente risível.
Nestas produções vemos o espelho daquele segmento de público onde teatro não é arte, é passa-tempo, criança gosta é de bobagem, a diversão é o escracho inconseqüente e desmedido, por vezes. O teatro lota, as crianças geralmente gritam excitadas e incitadas por atores e pais. Saem todos com a ilusão de que foram ao teatro, que levaram seus filhos para um programa cultural, na verdade uma forma de “arranjar o que fazer com as crianças no final de semana”. E aí o teatro é também espelho da relação pais e filhos, a forma como se relacionam com a cultura, com o mundo.

2. Há produções em clubes e pequenos teatros, geralmente localizados na zona menos “nobre” da cidade e que se voltam para um público classe média baixa, menos favorecido financeiramente, que pouco acesso têm à produção cultural, mas que também querem proporcionar a seus filhos a importante ida ao teatro, pois ir ao teatro ainda é, no Brasil, símbolo de status social. Algumas pessoas ficam envergonhadas de dizer que não vão ou que não gostam de teatro, portanto ir ao teatro é, para este grupo de pessoas, repetimos, símbolo de ascenção social.
Estas produções, geralmente de péssima qualidade, seja na competência dos atores, seja da sua ficha técnica, se utilizam geralmente dos contos tradicionais, como uma forma de provocar algum tipo de identificação com o publico. Normalmente o pai leva o filho para ver as histórias que ele ouvia quando criança. É esse critério de identificação que orienta os pais na escolha dos espetáculos.
Estes grupos, quase amadores, geralmente não têm nenhum tipo de formação, desconhecem o universo infantil, ignoram a importância do conto tradicional, como resgate da história da humanidade e cheios de símbolos e signifcação em diversos níveis. Assim, os adaptam para o palco com total desconhecimento das “regras básicas de dramaturgia”. Desconhecem também a importância destes textos enquanto literatura. Além disto, geralmente, as adaptações são feitas a partir de recontos de terceiro, quarto grau – o reconto do reconto - e quando chegam ao palco chegam vazios de significado. Porém mais uma vez a missão de ir ao teatro está cumprida. O adulto racionalmente tenta se convencer de que levou seu filho ao teatro, mas, a sensação vazia da experiência teatral não vivida, faz com que seu retorno ao teatro fique ameaçado e esta criança dificilmente será um espectador quando adulto.
Além disto, estes espetáculos ficam acima do bem e do mal, pois os críticos, com o pouco espaço para os espetáculos interessantes, lá não vão; os jurados dos prêmio, também não, portanto o que os produtores anunciam passa a ser a pura verdade e é esta a visão que passam para os pais, professores – mediadores - que com poucas alternativas para se informar sobre a programação cultural para criança e por não terem experiência própria com o teatro, por comodismo e uma visão menor do que seja “diversão” para criança, nem questionam a qualidade do que está sendo oferecido.

3. Temos um outro grupo, o maior deles, que nunca tiveram acesso ao teatro. População concentrada na zona mais empobrecida da cidade.
Onde está o teatro nos bairros mais distantes, menos favorecidos econômica, cultural e socialmente?

4. Mas há, felizmente, por outro lado, os criadores que tomam o espetáculo teatral como Obra de Arte, que se preocupam com a excelência, que são preparados para exercer a profissão e a arte, que conhecem e se preocupam em conhecer as crianças. São minoria, infelizmente.
O tipo de produção teatral que abordamos nos itens 1, 2 e 3 traz muito mais malefícios que benefícios ao teatro e ao público, faz com que os pais acreditem que “teatro infantil é assim mesmo”, que teatro é chato, que não vale a pena sair de casa, da frente do computador ou da televisão para ir até o teatro.
Recentemente o crítico teatral do Jornal do Brasil recebeu telefonema de um diretor de espetáculos infantis que disse textualmente “ não entendo nada de espetáculo infantil, mas adoro. Não sei dirigir, pois tenho só 19 anos de idade, mas meu espetáculo está em cartaz e gostaria que o senhor fosse lá para me dar algumas dicas de como dirigir. “
E nos perguntamos, como um espaço cultural, seja qual for, cede espaço para um espetáculo dirigido por alguém que confessa não saber dirigir, que deveria estar buscando uma formação, porém já está com um produto pronto (sic) em cartaz.
Todos os segmentos da sociedade têm que estar envolvidos nesta questão, ou nas questões da Arte, enquanto fundamental na formação integral do ser humano.
E se entenda todos – o ensino fundamental, o ensino secundário, o ensino universitário, a nível de formação, pós-graduação, mestrado, doutorado, a imprensa. Discussão que inclua pais, professores, pedagogos, orientadores, diretores de escolas. Nas escolas de formação de atores, seja de nível técnico, de terceiro grau, pós-graduação, mestrado ou doutorado, ou nos cursos de formação de professores, ou nos de pedagogia. Nada. Em nenhum lugar se discute estas questões, que ficam restritas aos poucos profissionais preocupados com a questão qualidade. É uma tarefa hercúlea que necessita de uma vontade política, As ações precisam acontecer em todos os níveis. Não podemos esquecer a função política e social do teatro, na relação teatro e sociedade.
A circulação de informação, a socialização desta discussão sobre a influência deste teatro sobre a criança, não apenas como de-formadores de platéia, mas um espelho deformante para a criança, na sua construção enquanto cidadãos. O mundo que lhes é mostrado, com certeza provoca impactos que são, na verdade, por vezes, bem piores que aqueles que causam um programa de televisão da pior qualidade. O teatro é presencial.
É o espelho do mundo e o espelho da humanidade que ali devolve imagens deformadas para um público extremamente aberto e sensível a qualquer tipo de expressão.
A força da palavra e da imagem, a força da situação dramática “in praesentia”, tudo colabora para uma de-formação do indivíduo em formação.
O teatro tem que estar permanentemente consciente de sua função pública, política, de sua responsabilidade social sem abrir mão de sua magia e de sua responsabilidade de formar cidadãos, emocionar, fazer pensar, refletir, tudo isto através do “jogo”. Diversão que ocupa a alma e a razão. Drama é a união de razão e emoção – assim se realiza a obra teatral.
Abrir mão destes elementos fundamentais desta expressão artística, por parte dos realizadores é falta de seriedade enquanto profissionais, enquanto cidadãos, pois prestam um des-serviço à sociedade. Estar atento a estas questões é um dever dos pais e dos professores.
A única forma de se mudar este panorama é um investimento do setor público, do setor privado, maciçamente na educação e na cultura, na formação do indivíduo, que só se faz completa no convívio pleno com a Arte. E, além disso, fazer circular a informação, socializar a informação sobre as questões da educação, da cultura e da arte, principalmente em relação a criança.
Fazer pensar, refletir, é o caminho, abrir caminhos, buscar espaços, trazer a tona estas questões, questionar – este é o início do caminho.