O que se entende por conhecimento?
Maria Helena Kühner

Ao definir o homem como ser da linguagem, animal racional ou social, ou aquele que possui a capacidade de imaginar, de fantasiar, de criar projetos que alicerçam seu trabalho e transformam a natureza, fala-se sempre da capacidade do homem de conhecer. Conhecer, verbo de origem latina (cognoscere: cum + gnoscere = nascer com), que exprime o processo de nascer com o que se conhece, deixar-se transformar pela diferença. A etimologia da palavra nos ajuda apenas a recuperar, um pouco, o gesto espontâneo do próprio conhecimento. Se o conhecimento for sentido nessa dimensão, com essa gravidade, não se pode separar esse gesto da liberdade: a liberdade é uma caminhada, uma conquista que se manifesta nesses “nascimentos”.
O que o nosso mundo experimenta, a cada instante, é o esvaziamento desses gestos, substituídos por alardeados ideais de “objetividade”,”produtividade”, “mercadoria”. Essa substituição operou-se gradualmente em nossa história. E esse método dito “científico”, que se caracteriza por um modelo redutor da realidade, ao ser levado a outras áreas de conhecimento, chegou a determinar, sutilmente, as próprias relações humanas. Ao chegar a esse grau de “aperfeiçoamento”, o próprio perceber dessa infiltração quase não é possível. A linguagem, a razão, a imaginação são hoje vivenciadas como a linguística, ciência e psicanálise - três nomes que abrangem a mesma atitude. Atitude que, como assinalamos, recebe num sentido, mais abrangente o nome de lógica. O problema da lógica não reside na articulação de seu discurso ( isto é apenas conseqüência), mas em sua atitude: o objetivo de qualquer lógica, por mais escamoteado que seja, é o controle: controle do mistério, controle da linguagem, controle da produção, controle da sociedade.

Assim, hoje se considera o conhecimento como “um processo lógico de apreensão da realidade.” (Cfr. por exemplo, Piaget, tão citado e referenciado). Porém toda lógica tem uma finalidade: na retórica é a persuasão (vontade), na ciência é o progresso (controle). Persuasão e controle tornam-se, pois, as molas mestras de todo pseudo-conhecimento (pseudo porque desempenha todas as funções, só não realiza nascimentos!), caracterizado pela apropriação do “objeto” de conhecimento para a elaboração de produtos. Essa apropriação do saber através de sua utilização e instrumentalização é que caracteriza toda dominação. Necessariamente esse saber é fragmentado, cumprindo assim seu caráter reprodutor – condição para que dê a dominação.

Nessa obstrução da relação do homem com o mundo só não há lugar para a humanidade. O homem vem perdendo sua capacidade criadora, tornando-se apenas repetidor, reprodutor. A passividade é sua maior característica. Não se trata aqui de fazer um exorcismo do conhecimento como hoje se apresenta, i. e., de negá-lo. Trata –se de mostrar qual a atitude que gera esse tipo de conhecimento e quais as suas conseqüências para o ser humano.
Portanto, qualquer projeto de transformação só será realmente alternativo ou inovador se partir de uma mudança de atitude, pois sendo esta alterada inevitavelmente transformar-se-á o tipo de conhecimento, abrindo espaço para a liberdade de criação, ou seja, para a recuperação de seu sentido original e maior.