O INFANTIL E O POPULAR 

Como membro de júris de prêmios, concursos e festivais de Teatro Infantil, despertou minha atenção, nos últimos anos, a relação constante entre o infantil e o popular, do qual vinham muitas vezes a trama de contos, narrativas, ou a própria estrutura do espetáculo. O que me levou a perguntar: que relação pode existir entre ambos? O que há em comum entre os jogos e brincadeiras da criança e o folguedo popular, e até mesmo os jogos esportivos ou o jogo do ator na cena?
Uma primeira característica dos jogos populares e infantis é serem fabulação de relações vividas. No brinquedo, no folguedo, ou no jogo teatral, o brincante solta a potência de sua fabulação, passando a assumir papéis, inventar estratégias para as situações criadas, enfrentar obstáculos, resolver problemas, correndo todos os riscos e aventuras - ou até mantendo-se passivo, sendo ele próprio o joguete de seu jogo.
Essa fabulação se coloca a serviço de suas necessidades e desejos: a realização do desejo, não de forma alucinatória, mas lúdica ou ritual, é outra característica importante. O princípio da realidade, que pauta os comportamentos no cotidiano, cede lugar ao princípio do prazer, ao jogar, ao brincar, à alegria, à soltura, abrindo assim espaço à troca de papéis, ao irreal, ao imaginário, ao sonho. O que mostra que esse exercício do corpo, da inteligência e da fantasia não é tão gratuito quanto o julga a pseudo-seriedade “adulta” ou a irresponsabilidade dos que o praticam como algo fácil e superficial. Pelo contrário, nesses jogos é uma outra realidade, interna, profunda, que vem à tona, dando vez, voz e lugar central na cena àqueles que no dia-a-dia da realidade externa estão sempre relegados a segundo plano.

Esse “faz-de-conta” tem tal carga e força que atores e espectadores entram no jogo, se instalam no imaginário, são capazes até de ver uma vida outra e seu permanente recomeçar.
É esta a ambivalência do lúdico e de sua ligação com o real. Por serem realização de desejo e abertura para o imaginário são bem mais que um divertimento: permitem ao brincante situar-se, rever sua identidade, obter uma re-valorização e um re-conhecimento, um “mostrar quem sou” no caso das camadas populares, ou um responder ao “quem sou eu”que inquieta a criança, afirmando sua identidade pessoal e/ou grupal e nela expressando sua “vitória” num conflito, numa luta, numa aventura, numa ação.
Por isso esse jogo é, e deve ser vivido e visto como algo sério e importante: ele é capaz de, recreando, re-criar, animar, dar uma nova anima, uma alma nova a todos os que dele participam.
Maria Helena Kühner