O fascínio que as histórias de terror e mistério exercem sobre nós

Benita Prieto

“A emoção mais forte e mais antiga do homem é o medo, e a espécie mais forte e mais antiga de medo é o medo do desconhecido.”
H. P. Lovecraft

Estamos num novo século e a tecnologia se desenvolve cada vez mais. No entanto, somos ainda os seres que, maravilhados, ouvimos histórias de feitos, façanhas, assombrações...Também aumentaram os veículos de comunicação, com o surgimento do rádio, cinema, televisão, computador. Cada um buscando, à sua maneira, relacionar-se com a narrativa.
E, num caldeirão repleto de gêneros, temos o desejo pelo medo. Querem a prova?
Pois perguntem a uma criança ou adolescente que tipo de história quer ouvir e terão como resposta um sonoro: TERROR!
O medo é um sentimento básico que faz parte do desenvolvimento emocional. Ele nos acompanha ao longo da vida e vai adquirindo novas dimensões e características.
Tudo já começa no nascimento, ou quem sabe antes, quando o bebê, que se encontrava numa situação de total aconchego e proteção, de repente, passa a conviver com um mundo desconhecido, caótico e confuso. Logo ele vai atribuir a esse mundo externo tudo que lhe faz mal, como a fome, o frio, a ansiedade. O mundo vai ficar dividido no que o satisfaz e lhe dá prazer e no que lhe provoca tensão, frustração e mal-estar.
A criança passa por vários estágios. No princípio, na sua fantasia, ela atribui poderes mágicos a seus pensamentos e desejos, não diferenciando o que imagina do que ocorre na realidade. O que ela representa em imagens tem relação com a intensidade de suas tendências amorosas ou destrutivas e com sua capacidade de tolerância à frustração. A qualidade dessa dinâmica será a medida dos temores e dos medos que sente e, no futuro, resolverão num plano imaginário, preservando nossa integridade física.
Acontece que, muitas vezes, pais, avós, familiares, amigos transformam o quase prazer que esses contos provocam em algo aterrador, através da atmosfera de pavor construída, e propositalmente criando um medo real, como se algo pudesse acontecer. E muitos de nós já fomos vítimas desse terror na infância, quando ouvíamos que uma infinidade de monstros podiam nos levar. Por isso deve-se tomar cuidado, não especificamente com o conteúdo, mas com a forma de utilização da história. Claro que estamos pensando em crianças que não estão traumatizadas ou têm algum transtorno psíquico ou psicológico. O professor francês Marc Soriano defende que “as crianças utilizam certo tipo de imagens que despertam nelas ressonâncias afetivas para se ‘vacinar’ contra eventuais traumatismos”.
Mas de onde vem esse fascínio pelas histórias de medo?
O psicólogo Bruno Bettelheim nos explicou o assunto a propósito dos contos de fadas, dizendo que são um meio de projeção dos instintos e problemas da criança. Através deles são exteriorizados determinados conflitos da psique infantil, dando forma e corpo a esses “fantasmas”.
Já Freud interpreta o sinistro como aquilo que foi convertido em espantoso, mas que em algum tempo foi familiar e conhecido.
Da união das duas idéias podemos supor que o sinistro, contido nos contos de medo, consiste em que tais “fantasmas” pessoais nunca nos abandonam de todo e nos revisitam periodicamente, materializando-se na ocasião em que algum estímulo os evoque. Por detrás do sinistro está, de forma encoberta um desejo
de algo proibido ou oculto.
Por isso, nos primeiros anos de vida, esses contos que tanto fascinam são importantes, como uma forma inconsciente de exorcizar medos reais através de medos fictícios.
E posteriormente servem para aprofundar o processo de amadurecimento pessoal, já que neles estão em jogo emoções básicas.
Outra questão que nos parece muito interessante é de onde vem essa noção de sinistro tão em moda atualmente?
Em primeiro lugar, fala-se de uma indução artística e literária ao medo que é provocada pelo grotesco, já que ele é o exagero, ou seja, o deformado, aquele que não tem forma.
Portanto há uma indução ligada à morfologia ou iconologia literária facilmente identificável nos fantasmas ou defuntos, por seu aspecto.
Essa idéia-núcleo de deformidade está na base de diversos arquétipos que se repetem incessantemente nas expressões artísticas.
Mas o prefixo negativo de (de)formidade pode ser lido também como aquilo que está contra a forma habitual. As personificações deformes seriam aquelas que se contrapõem à realidade percebida ou que inclusive se aproximam dos mistérios da morte, do vazio, do inapreensível.
Também há uma concepção degradada do grotesco, assimilada do aspecto disparatado, absurdo, extravagante ou grosseiro que vemos em muitos personagens.
Historicamente o grotesco já era conhecido na Antigüidade como podemos ver nas representações mitológicas dos centauros, sátiros, medusas... A literatura e a arte medieval também estão povoadas de expressões grotescas, por causa do tom religioso dessas artes e a conexão com o mundo sobrenatural e escatológico.
Portanto o deforme é o que está além da morte num duplo sentido: como carente de forma (espíritos, duendes...) e como exagero ou deformação (as visões do inferno, a imagem do diabo com chifres e asas de morcego).
Em todo caso, mais que a deformidade, o conceito moderno sobre monstro está aproximado ao desconhecido e à surpresa. O monstruoso é o contravalor da beleza, o espelho ou o foco que ajusta a sua imagem ou, dito de outra maneira, a outra face da mesma moeda.
É próprio do sinistro a sua presença latente, como na Cuca das cantigas de ninar, ou a necessidade de ocultamento, daí a importância dos heróis mascarados. Todos são pessoas com uma “pele de animal”, ou animais com uma “pele de pessoa”, trazendo de novo o mito.
Como exemplo de uma figura folclórica e sinistra, temos o “Homem do Saco”.
Sua fascinação depende do seu mistério, seu ocultamento, e mesmo seus objetivos não revelados. O que acontece é que essa irracionalidade é assimilada rapidamente, no campo moral, ligado à maldade e à monstruosidade.
Mas a morfologia das aparições sinistras coincide também com o luminoso. Assim a presença de Deus é a intuição do desconhecido, de uma força sobre-humana que produz pânico, estupor e fascínio, que causa ao sujeito experiências de diversos graus de prazer ou desprazer. Deus, em seus aspectos de fascinante, excessivo, superabundante, aproxima-se do conceito de grotesco no seu duplo sentido como carente de forma ou contra a forma, contrapondo-se à normal.
A experiência do sagrado se transforma à medida que a religião racionaliza a idéia do sagrado, em uma experiência do sinistro, do não-conhecido, do inominável, que adota as rubricas literárias do fantástico, estranho, aterrador.
Desse modo, o sinistro nos aparece como grotesco e o grotesco se reafirma como essa percepção irracional dos aspectos desconhecidos de nossa personalidade, como o retorno ao proibido, provocado por estímulos que têm alguma relação (metafórica ou metonímica) com essa pulsão latente.
A análise do medo, tendo como paradigma a psicologia e a psicanálise, é muito extensa, mas não poderia deixar de ser abordada, mesmo que, minimamente, nesse artigo.
Agora podemos perceber que o desejo pelas histórias de medo não é da atualidade.
Esses personagens são os que estão no nosso imaginário e há muito tempo amedrontam e convivem com o homem, embora tenham trocado um pouco de feição.
Nossos monstros de hoje estão baseados em arquétipos antigos, mas mudaram de forma e até de endereço. Temos, por exemplo, os alienígenas e até os psicopatas, bem verdadeiros, que passeiam pelas cidades ferindo ou matando.
Podemos conviver com todos os tipos de monstros, como os dos desenhos japoneses, os Aliens, os Dráculas, os morto-vivos e os seres primitivos, nossos velhos conhecidos, que ainda existem nas pequenas comunidades. E todos podem amedrontar, pois de alguma maneira revivem os mitos.
E será que essas narrativas também não trazem embutidas as velhas funções de Propp? Através delas, não estaremos buscando como desenlace a recompensa, a descoberta do objeto mágico ou a reparação de um mal?
Mas hoje nossos meninos não são os mesmos. Têm um mundo de modernidades que os faz ver e sentir de outra forma. Aprendem com mais rapidez, quando têm acesso à informação e à escola.
Podem ver o universo através das telas dos computadores e dos televisores.
Por isso muitas coisas se banalizam e sentimentos que deveriam ser preservados para toda a vida são esquecidos ou nem são sentidos.
Todas essas coisas se associam e para que possamos pensar um pouco sobre o reflexo delas nas crianças, trazemos uma declaração muito interessante do escritor Jesús Callejo que está no seu livro Los dueños de los sueños.
Ele sugere que, nos tempos atuais, a Cuca foi substituída pela opressão e comercialização que é feita com o carinho, quando alguém diz para uma criança: Se não fizer tal coisa, eu não vou mais gostar de você. Assim a criança vai incorporar à sua grande lista de temores o de não ser querida por aqueles de quem ela gosta tanto e necessita.
Esse será mais um dos conflitos psicológicos que ela terá que vencer ao longo da vida.

BIBLIOGRAFIA
CALLEJO, Jésus. Los dueños de los sueños: ogros, cocos
y otros seres oscuros. Barcelona: Martínez Roca, 1998.
CAMPBELL, Joseph. O poder do mito. São Paulo:
Palas Athena, 1990.
CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do folclore
brasileiro. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro/
Ministério da Educação e Cultura, 1954. Literatura oral
no Brasil. 3.ed. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo:
Editora da Universidade de São Paulo, 1984.
COELHO, Nelly Novaes. O conto de fadas. 2.ed. Rio
de Janeiro: Ática, 1991.
HELD, Jacqueline. O imaginário no poder: as crianças
e a literatura fantástica. São Paulo: Summus, 1980.
(Novas buscas em educação, v.7)
LOVECRAFT, Howard Phillips. O horror sobrenatural
na literatura. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1987.

Benita Prieto Engenheira, atriz, produtora, contadora de histórias
do Grupo Morandubetá, especialista em Literatura Infantil e
Juvenil, e em “Leitura: teoria e práticas”. Autora do livro infantil:
As “armas” penadas.

FONTE INTERNET 12/03/2007 22:00 H
http://www.leiabrasil.org.br/pdf/revista_Medo.pdf