O CONCEITO DE ADEQUAÇÃO
por Carlos Augusto Nazareth

INTRODUÇÃO
Apesar de impregnados pelas representações mentais que costumamos ter acerca da infância, por vezes nos interrogamos sobre a universalidade deste conceito.
A legitimização social da infância constitui uma chave relevante para que possamos constatar uma situação contraditória.
Em nosso sistema econômico é o envolvimento do indivíduo com a produção de bens que acaba caracterizando o grau de atenção que a sociedade é capaz de lhe conferir.
Assim, nos países ocidentais, tanto as crianças quanto os idosos tendem a ser objeto do tratamento discriminatório destinado aos indivíduos não-produtivos.
Situada no âmago dessa ambigüidade, a relação entre o adulto, detentor de um poder assegurado por sua condição de idade e força produtiva e a criança, desprovida dessa prerrogativa, configura-se como uma relação entre desiguais.
Esse é um dos desequilíbrios que está no âmago de uma modalidade (ou gênero, como já preferem alguns) artística recente, cuja origem tem pouco mais do que cinqüenta anos - o teatro voltado a infância e juventude.
A CRIANÇA
O conceito de “criança” se modifica ao longo dos anos. Desde a sociedade primitiva, passando pela Idade Média, onde este conceito de “criança” inexistia e chegando ao dias de hoje, quando, através da Internet, estamos retornando a este estado medieval, pois o “interdito” que caracteriza esta fase do ser humano começa novamente a não vigorar nas relações adulto/criança.
Além desta visão diacrônica, temos outras variantes que alteram este conceito “criança” – um deles são as origens sócio-culturais deste indivíduo.
É claro para todos que uma criança de nove anos criada na lavoura no interior do Brasil não pode se assemelhar a uma criança de nove anos criada no centro do Rio de Janeiro.
E, no Brasil, com a diversidade de situações que este país plural apresenta as possibilidades que este conceito assume, são infinitas.
Portanto temos diferenças temporais, geracionais, geográficas, sociais, econômicas, de grupos sociais, pessoais que tornam este conceito do que seja criança quase individual.
Temos que estar atentos a estas variantes. Claro que conseguimos formar grupos relativamente homogêneos, mas mesmo se levando em conta apenas o Brasil, com esta extensão continental, a diversidade é imensa.
Dentro de um mesmo Município temos realidades totalmente diversas e na maioria das vezes dentro de uma escola há grupos de faixa etária próxima com vivências totalmente diferenciadas.
Desta forma estabelecer o que é destinado a criança e o que não é, recai, com certeza, num ato autoritário, onde geralmente é levado em consideração as convicções de quem determina, mas muito pouco a observação e o estudo do que as crianças realmente são capazes, entendem e desejam.
Quando o criador exerce sua atividade ele tem, com certeza, um público virtual imaginado, para o qual dirige sua criação. Claro que com a diversidade de possibilidades de níveis de leitura que um texto oferece a gama de público que ele pode atingir se amplia.

ADEQUAÇÃO

Como vimos, muitas são as possibilidades e as dificuldades de definirmos este público concreto, entretanto virtual e abstrato.
Um texto literário terá um determinado público e a relação entre este determinado público e este determinado texto se faz através da ADEQUAÇÃO.
Criadores resistem à idéia de que haja um público anterior à criação. Mas de qualquer forma no momento em que esta obra de arte se torna um produto cultural pronto acabado e autônomo, inevitável que aí se pense: a quem interessaria esta obra?
Para um livro, o projeto editorial já define uma faixa etária, a partir de conceitos editoriais já pré-estabelecidos, pela prática e experiência do profissional.
Um espetáculo teatral começa sua vida prática e concreta pela definição de qual o horário que deverá ser exibido, já que temos horários definidos como adultos e infantis, em períodos e dias diferenciados da semana.
Assim, desde a criação até a recepção, por seu público, da obra de arte, temos uma infinidade de variantes que, quando colocadas lado a lado, estabelecem uma relação de ADEQUAÇÃO OU INADEQUAÇÃO.
Portanto, definir padrões para determinar faixas etárias a que se destinam textos literários e espetáculos teatrais cairão sempre numa complexidade tal de variantes que será impossível – abstratamente – se definir que obra seja adequada a este ou aquele público.
O que se tenta estabelecer é a ADEQUAÇÃO obra/receptor – a partir de elementos concretos: da obra realizada e do receptor conhecido.
Em literatura, o adulto, que vai definir qual obra a criança irá ler, tem acesso direto ao livro, o que é um facilitador da sua escolha - se conhecer bem o leitor.
No teatro o adulto só tem acesso a referências sobre a obra, a não ser que vá assisti-la pessoalmente antes da criança – o que deveriam fazer professores e coordenadores de colégios, ao escolher os espetáculos que levarão as suas escolas. E os pais dificilmente têm acesso a este tipo de informação pois os espaços da mídia, destinados aos espetáculos infantis, continuam reduzidos.
O livro, nas escolas, são normalmente escolhidos por razões extra-literárias – adequação ao conteúdo programático, datas comemorativas, belas ilustrações, mas muito poucas vezes pela excelência do texto.
O espetáculo teatral na maioria das vezes a principal referência é a do espetáculo mais próximo da residência ou o que tem um título já conhecido dos pais, o que leva a sérios enganos, pois a maioria das adaptações de clássicos são extremamente deficientes.
ADEQUAÇÃO implica num conhecimento do público a quem vou oferecer meu produto artístico, seja literatura ou teatro, ou qualquer outra forma de expressão artística, sua realidade sócio-econômica, sua vivência.
ADEQUAÇÃO implica num conhecimento da qualidade da obra que vou oferecer a meu público, seja literatura ou teatro, ou qualquer outro forma de expressão artística.
Qualquer definição a priori, será arbitrária e estaremos nos utilizando do “poder” do adulto pra impor nossa vontade e desejo a partir de nossos conceitos sobre o que seja Arte, Belo, Qualidade, Criança e todos os outros conceitos que entram neste “cadinho” de onde tentamos retirar uma atuação efetiva mais próxima da realidade.
ADEQUAÇÃO, portanto, é um trabalho concreto de estudo e conhecimento da obra de arte e do público a quem desejamos oferecer este produto artístico.

Nazareth, Carlos Augusto. Textum, o tecido narrativo. Monografia do Curso de Pós-Graduação em Literatura Infantil da UFF.