Nossos desafios, hoje (I)
Maria Helena Kühner

“A era do caos”, “a era da incerteza” ou do “vazio”, são algumas das denominações do tempo de transição em que vivemos. Denominações que só podemos entender melhor se atentarmos para as profundas transformações, geográficas, econômicas, políticas, sociais, culturais, ocorridas nas coordenadas do espaço e tempo que balizam nossa ação no mundo.

Há cerca de 500 anos, com as grandes descobertas e grandes navegações dos séculos XV em diante, o ESPAÇO humano começa a expandir-se progressivamente. Para dominar a Natureza, a que antes se submetera, esta deixa de ser vista como plenitude de vida ou espaço vital (como no animismo ou no antropomorfismo anteriores), e passa a ser espaço de dominação e conquista, a ser descoberto, explorado, ordenado: “O mundo está fora dos (antigos) eixos. Por que nasci para ter que pô-lo em ordem?”, lamenta Hamlet. A organização e controle do espaço político, com o estabelecimento de limites ou fronteiras entre nações, línguas e instituições, alia-se à a normatização das relações, em que o peso maior será dado aos produtos, tornados mercadorias e, como tal, definidores da própria noção de valor ( com desqualificação dos próprios produtores/ criadores, cujo trabalho se torna também mercadoria).

Que atitude intelectual a isso corresponde?

A de uma idêntica delimitação de um espaço mental, abstrato (abstrair=tirar de) , de um pensamento que se vê como sujeito contemplando à distância um mundo tornado objeto (ob-jeto=algo posto diante de) a ser decifrado, de uma racionalidade responsável pela ordenação da multiplicidade de fenômenos e valores, pelo estabelecimento de normas de conhecimento, pela verificação de dados obtidos com a pesquisa, a observação, a experimentação. Rompendo com hábitos mentais anteriores, surge a noção de sistema, e uma nova visão do uni-verso como versão única, conjunto constituído pelos mesmos elementos e obedecendo às mesmas leis, e como tal, campo de aplicação de ciências ditas “exatas”. Processa-se, assim, a uma geometrização do espaço, com o real recortado em espaços ou campos de conhecimento a que se aplicam as noções rígidas, exatas, precisas, das matemáticas e da geometria, visando “de-mitizar” esse mundo tornado objeto de intelecção através do método, da ordem, do cálculo, da medida.

Que modelo de relação homem-mundo assim se estabelece?

A esse homem que faz, da lógica, a própria medida do ser e do discurso racional sua expressão, só pode caber um modelo mecanicista de relação com o mundo: a busca da verdade adquire caráter operacional e técnico, visa conhecer e organizar para melhor dominar e controlar. O próprio cosmos é visto como uma imensa máquina – palavra que define essa nova visão das coisas, do mundo e até de si mesmo.

A que método corresponde tal relação?

Se os “objetos”, neles incluído o próprio ser humano, são “máquinas”, sua investigação se articula necessariamente como a de um sistema de engrenagens: desmontar (pela análise), remontar (pela síntese) cada espaço ou campo de conhecimento, definir suas partes constitutivas, captar a ação recíproca entre as partes - tudo por obra de um “espírito” horizontal interessado basicamente na definição de meios e métodos. O método é a própria lógica desses tempos: a metodologia, essa lógica aplicada ao saber. A educação do “espírito” pela ciência, tentando conquistar, dominar e controlar o mundo pelo pensamento (razão) é a marca fundamental da chamada modernidade.

E as conseqüências essa visão?

À medida que as transformações se sucederam, suas consequências foram se fazendo sentir, mostrando que, se essa forma de conhecimento/ visão/ relação foi bem sucedida na ordem das coisas, decididamente não foi um progresso para o ser humano. Em termos de visão do humano, não apenas pela anulação do animismo que caracterizava a sensibilidade metafísica anterior, mas do que isso significa: um mecanismo simula a vida, mas não é vivo; o homem, dominador da natureza pela razão, é, em si mesmo, um ser dividido: corpo e espírito, teoria e prática, contemplação e ação, etc. O centro de referência, deslocando-se do concreto para o abstrato, das intenções (e in-tensões) vividas para as “normas” recebidas, “fechando os olhos do corpo para ver com o olho do espírito, que é a demonstração”, substituiu a realidade do mundo vivido, real, dado à percepção, experimentado e experimentável de fato – que é o mundo de nossa vida cotidiana - por um mundo “inteligível”, de relações “objetivas” e “científicas”, dotado de unidade, continuidade e homogeneidade tão artificiais e “ilusórias” quanto o mundo do imaginário, da fantasia, da afetividade, do lirismo, que foram, sob tal acusação, desqualificados. E a operação por redução, que estava à base dessa abstração, mais que a suposta “demitização” foi também uma desumanização.

(continua)