LIVROS QUE SÃO OS MEUS
por Luiz Antônio Aguiar

Teatro e literatura caminham paralelos, as vezes se encontram, mesmo tendo cada um sua própria história e suas próprias “regras”.
Encontramos nos textos de Luiz Antônio Aguiar questões sobre o texto e sobre a criação que se aplica totalmente ao que vimos falando sobre o texto teatral.
Na verdade o palco está em busca da magia perdida, das grandes histórias, dos grandes personagens, enfim do que cativa e é razão de ser daquilo que alimenta o imaginário infantil. Em busca dos mundos que habitam esses livros, que habitam as crianças.
Luiz Antônio fala de grandes clássicos, grandes livros, grandes personagens, de magia., de encantamento, de universos encantados e encantadores, que falam ao imaginário da criança, cativa, e é exatamente desta pitada de “magia” que estamos sentindo falta nos palcos cariocas – a invenção, a grande história, o grande personagem. Grande na possibilidade de encantar e de conquistar. Vamos ouvir Luiz Antônio Aguiar.
carlos augusto nazareth

Livros que são os meus

Não tenho a menor idéia de como me caiu na mão, certo dia, meu primeiro Lobato. Também não tenho certeza de qual era, creio que foi Reinações de Narizinho. Taí, pena que a memória não seja que nem aquelas máquinas fotográficas, que imprimem a data na foto. Mas isso não vai fazer falta nenhuma aqui. Até porque não vou precisar começar do meu primeiro Lobato, mas do fundamental. Meu Lobato fundamental é para sempre A Chave do Tamanho.
Lá, querendo acabar com a II Guerra, Emília sobe ao céu num faz-de-conta-que-pirlimpimpim, chega à Casa das Chaves (que ela determinara que tinha de existir), onde estavam as chaves que desligavam e ligavam tudo no mundo, e, querendo desligar a chave da guerra, naquela montoeira de chaves sem etiquetas de identificação, desliga é a chave do tamanho. Ou seja, quem era gente grande, vira pequeno, do tamanho de um polegar, e desmamado do poder do tamanho; quem já era gente pequena, crianças, nunca tendo sido contaminado pelo poder do tamanho, e não precisando dele para sobreviver, toma conta do mundo.
As crianças tomando conta do mundo. Os mais fracos. Os mais desprotegidos. Os que tinham a visão mais bonita sobre o mundo, que incluía fantasias e esperanças... tomando conta do mundo! E ensinando aos bestas dos adultos como deveriam viver! E ainda por cima, todos nus!... que a roupa de ninguém havia encolhido junto com o corpo. Minha nossa, era tudo o que eu poderia querer, era o mundo para onde eu corria, toda vez... O mundo onde as crianças eram donas do mundo.
Algo que tem tudo a ver, é claro, com O menino Maluquinho, de Ziraldo, com aquele personagem tão emiliano, tão peterpaniano, tão legal fazendo sua poesia de texto, invencionices, peraltice e traço, tudo junto, que só poderia mesmo se criar um mundo de seu... no qual ele fosse dono do pedaço. (Porque nele, um dono do mundo, seria discrepante; ele, como Emília, como D.Quixote, seria o avesso e adversário de todos os donos do mundo.)
Reencontrei esse mesmo mundo, do qual valia a pena tomar conta, muitas vezes. Numa delas foi em As aventuras de Tom Sawyer, numa tradução de (!!!) Monteiro Lobato, fazendo par inseparável com As aventuras de Huck. Acariciando agora este livro, editado pela Brasiliense, em 1961, com suas páginas encardidas, me vem à cabeça que, desde que me entendo por gente, ele esteve na estante do meu pai, entre muitos, me esperando. Este livro, aliás, ambos estes livros sabiam que eu iria ao encontro deles um dia.
Tom Sawyer faz tudo que não se queria (os adultos) que ele fizesse (all he' aint funck'not supposed to do). É um peste. Um genial peste, o mais genial da literatura. Mata aula, xinga, cospe, mete-se em brigas, até em feitiçarias (para eliminar verrugas). Tom Sawyer e Huck (cada qual em seu livro) são os protagonistas plenos de seus mundos. Melhor do que sonhar em entrar para a turma do Tom Sawyer, só mesmo seria ser convidado para o Bando de Robin Hood. Pelo próprio. E as duas obras de Mark Twain são também um universo em que o leitor-criança (ou jovem) se sente dono do mundo. Pedir mais o quê? A caverna onde Tom e a linda Becky ficam presos, e na qual está preso também o terrível assassino, índio Joe, para mim será para sempre o antro mais assustador e colossal no qual já penetrei, e ao mesmo tempo a aventura romântica que eu mais quis viver (e escrever), de todas as que já aconteceram em minha vida. Assim também, a cena em que Huck (já aqui em seu livro) vê passarem os cadáveres dos adolescentes, seus amigos, arrastados pelo rio, depois de baleados em uma guerra de famílias, será o momento mais doloroso que já vivi ¾ aquele em que a gente, criança ainda, querendo muito do mundo, tem de, com suas forças e poder de compreensão, entender-se no meio de algo trágico demais, adulto demais, mas que nos pega feito onda-caixote estourando em cima da gente. E a gente estava de costas.
Aliás, para mim, é disso mesmo que fala Meu amigo pintor, de Lygia Bojunga Nunes. O amigo do garoto de oito anos, suicida-se. Ele era pintor. Os adultos não querem falar a respeito. O garoto precisa reentender-se num mundo onde uma coisa dessas pode acontecer. Onde uma coisa dessas é uma possibilidade. Nesse mundo, que é o mundo do garoto ¾ seu prédio, seu amigo ¾ , um amigo pode se matar. E ele tem de se entender com isso, que nem a gente quando é adulto entende (daí a falta de saber o que fazer e o que fazer; daí o não fazer nada e acoitar-se da família do menino). Ele tem de continuar vivendo, num mundo onde isso acontece.
O meu amigo pintor me deixou em estado de choque. Eu tive, também, que passar um tempo para digerir o que havia lido. Então, era assim? Jogo bruto? Pegar um problemão existencial, um problema lá de dentro d'alma, jogar uma criança no meio do fogo e ver como ela se vai virar? Mas era uma outra maneira de pôr o leitor-criança no centro da história, não era? De eliminar tutelas que estão ali para evitar confrontos, diluir perigos, paixões e experiências... não é? Ou para dar explicações fáceis... Como se adulto tivesse uma explicação fácil a dar, sempre? Como se fosse fácil explicar só porque seria para explicar para uma criança...!
(Assistir à dor de uma criança não é fácil. Que o diga quem leu as novelas da Condessa de Ségur, O Patinho Feio, ou Dickens.)
E não é à toa que me lembrei tanto de Lobato, Twain, Ziraldo e Lygia quando li, mais recentemente, dois livros: Deus me livre, de Rosa Amanda Strausz, e Na marca do Pênalti, de Leo Cunha.
Em Deus me livre, as crianças fazem um pouco mais do que tomar conta do mundo. Elas tomam conta da Criação. Júnior e Deusinha chegam ao ponto de sair avaliando, como se fosse um trabalho de casa de Deus, os feitos da Obra Divina. Quando Deusinha começa a criticar o pinto, ou seja, o artefato sexual masculino, invenção (imperfeita) de Deus-Pai, ainda mais considerando o projeto funcional do apêndice, ou seja, como iria ele entrar em operação, trata-se de um dos mais engraçados e irreverentes momentos da Literatura Infantil dos últimos tempos. Júnior e Deusinha são da linhagem honorável dos pestes, e a dignificam pestemente.
Em Na Marca do Pênalti, o não-politicamente é uma das marcas da autonomia dos personagens em relação ao mundo adulto e suas regras. E também a afirmação da necessidade, própria de qualquer ser, de amealhar sua própria experiência de vida, sem dar ouvidos aos apitos do juiz. Falam-se palavrões; a garotada, uns são bonzinhos, outros não, outros lá e cá, dependendo da situação. Não se leva muito a sério os adultos, todo poder aos adolescentes, e, com um drible deste livro futebolístico, Leo Cunha engana o leitor, numa peripécia anunciada: a todo momento ele avisa que futebol é uma caixinha de surpresas. E o livro esbanja trivelas e gingas de deliciar os olhos. Bela montagem! Enfim, com personagens que qualquer um gostaria de ter como amigo ou namorar (nada mais chato do que um modelo de bom-comportamento; esses ninguém quer nem ter como amigo, nem namorada), Leo arma um saboroso enredo, no qual todo mundo também gosta de entrar. Dá saudades, quando termina!
Leo e Rosa são desses escritores cujo texto conta a história. Há livros nos quais o texto briga com a história o tempo todo. Não sei formular isso conceitualmente, ainda, e não sei se um dia vou saber. Mas a primeira coisa que eu gosto num livro é quando sinto que o texto, de fato, é um contador da história.
Daí, tenho de passar necessariamente a Indez, de Bartolomeu Campos de Queirós. Não por afinidades maiores, mas por espírito da coisa. Sei que li Indez muito antes de ler Leo e Rosa Amanda, mas eu o coloco aqui porque foi, acho, por ler Indez, que um dia fui ler Leo e Rosa Amanda. Porque, para mim, Indez foi a primeira vez em que vi um texto, num livro de memórias de criança (Gozado; três-quintos de D. Casmurro é sobre um amor juvenil, e nunca ninguém enxerga esse seu lado juvenil; por que será?), carregar a pessoa mesmo a contragosto para dentro de si mesma. A chorar por dentro, de uma tristeza que a gente nem sabia que tinha. Um texto literariamente potentíssimo, num livro que é a visão de uma criança do mundo, sendo revista por um adulto seduzido pela visão que em criança tinha daquele mundo. O adulto, por meio do lirismo, tentando resgatar seu poder infantil de ver o mundo.
Indez é uma nostalgia universal que todo mundo guarda dentro de si como se fosse um ovo... no caso um ovo em ninho alheio, rejeitado, recolhido, órfão, deslocado, procurando seu lugar no mundo, que ganha vida, então, da memória, que ela é quem nos faz levitar, nesta leitura, do presente. Indez é mágico: um portal do tempo, um tapete voador, um UFO transdimensional, um Aleph. As palavras de Bartolomeu constróem um mundo diferente. Um mundo de tanto afeto pela dor de recordar que só pode ser infantil, no que reconquista o tempo, mercê da memória, não-perdido. Juro que vi tudo isso lá!
Onde que eu peguei essa mania de amar os livros que me transportavam para outros mundos? Foi de ter sido alfabetizado nas Mil e uma noites? Foi depois em Malba Tahan? Ou, bem, acho que foi de ler o seguinte: "Foram despertar na Ilha de Creta, onde logo descobriram o labirinto. Era um palácio imenso, com mil corredores dispostos de tal maneira que quem entrava nunca mais conseguia sair ¾ acabava devorado pelo monstro. O 'Minotauro' só comia carne humana."
Sim, claro, O Minotauro, de Lobato... que eu também reencontrei em Duula, a mulher canibal, de Rogério Andrade Barbosa, uma lenda africana, matriz dos contos de fada, em que um casal de crianças cai nas garras de uma monstra das savanas. Dessa mulher-de-todos-os-pesadelos (que é também todas as bruxas, todos os monstros de todas as histórias, quanto mais acentuada, em sua animalidade, em sua bestialidade, pelas ilustrações de Graça Lima), leio que não há que se poupar a criança, mas sim expô-la, em literatura, a uma brutalidade que pode não ser tão cruel nem incompreensível (para ela) como o suicídio de um amigo, mas mesmo assim é... o quê? ... É isto: "Quem já a viu de perto, e teve sorte de escapar com vida, diz que ela corre mais rápido do que um leopardo. Quando dispara no encalço de novas vítimas, seus enormes pés emitem um som semelhante ao de uma tempestade, ao mesmo tempo que sua cabeleira, desgrenhada e suja, jogada para trás, igual a crina de um cavalo de corrida, balança alucinadamente ao sabor do vento (...) O hábito de roer ossos humanos fez com que seus dentes crescessem feito presas de um lobo. Além disso, carrega uma longa e afiada adaga, com a qual degola e retalha o corpo dos que caem em suas mãos".
Em Duula, não se poupa a criança-leitora do horror, nem mesmo daquele que é praticado pelas próprias crianças-personagens (como em João e Maria e sem a desculpa de Brás Cubas e de Drácula, o de Bram Stocker, de que o demônio seja inumano). Aliás, à criança-leitora não se deve poupar, nem a dor, nem o horror, nem a paixão extremada.
É disso que são feitos os livros, não é? Desses sentimentos estranhos que brotam entre o leitor e as páginas. Este segredo de ele entrar na história como quem penetra no quarto em que lhe disseram, lhe avisaram, lhe ameaçaram: "Jamais abra esta porta, senão...! ". E ele abre, abriu sempre, e sabe que voltará a abrir... o livro: Abra-te, Sésamo. E ele pronuncia o encanto, quase já com medo, antevendo, querendo ser levado... Livros como estes são, para mim, referência (estética) do que eu quero escrever na vida.