FESTIVAL DE BLUMENAU
por Marília Sampaio

O que me aguardava em Blumenau? A pergunta ecoava na minha cabeça enquanto arrumava a mala para participar, como debatedora, do 11º , Festival Nacional de Teatro Infantil, realizado na última semana de setembro na cidade catarinense. Naquele momento, senti uma espécie de excitação diante da possibilidade de ver espetáculos produzidos fora do Rio de Janeiro. Não que nossas peças não tenham qualidade. Pelo contrário. Sei que temos bons profissionais na cidade, que só dependem de incentivos, principalmente financeiros, para criar espetáculos maravilhosos. A maior prova disso, inclusive, foram as produções cariocas selecionadas para o Festival de Blumenau: O romance do pavão misterioso, Zigg, Zogg, a mosca e os jornais, O príncipe peralta, M’Boiguaçu – A lenda da cobra grande, O cavalo mágico e As aventuras de Tibicuera – peças muito caprichadas, que receberam elogios pela competência de seus realizadores. A minha excitação, na realidade, brotava da possibilidade de ver o novo, o diferente.
Pois bem, na primeira reunião com a coordenação e com os outros debatedores do Fenatib manifestei meu desejo: “gostaria de ver as produções de outros Estados do Brasil”. E, para minha felicidade, fui atendida. A primeira experiência aconteceu com Circus – A nova tournée, espetáculo da Cia. Circo de Bonecos, de São Paulo. Misturando fantoches, marionetes e bunraku – uma técnica em que um mesmo boneco é manipulado simultaneamente por duas pessoas – os atores da companhia, que vivem personagens de um circo mambembe, apresentam divertidos números. Tudo aparentemente muito simples, mas descobre-se depois, durante o debate, profundamente elaborado em anos de pesquisa na linguagem que é desenvolvida pelo grupo. Na minha frente, um menino sacudia na cadeira de tanto rir, enquanto uma senhora de, talvez, 70 anos, na fila de trás, dava gostosas gargalhadas. E eu, no meio dos dois, parei de prestar atenção na reação da platéia e me deixei levar pelo encanto do espetáculo.
Também tive a chance de ver em Blumenau os meninos do Grupo de Teatro Carruagem, que vieram de Aracati, no Ceará. Ainda muito tímidos, deixavam transparecer a preocupação de como seu trabalho, Carruagem da alegria, seria recebido no Sul do país.
O grupo não tem formação acadêmica em teatro. Os primeiros contatos com a arte dos palhaços ocorreram em oficinas de artistas que passaram uns poucos dias em sua cidade. A escola dos atores foi o teatro de rua, que fizeram ao longo de seis anos. Talvez esteja aí a explicação da empatia que os palhaços Podoi e Peteleco estabelecem com o público. Os dois atores da peça estão apenas dando os primeiros passos na técnica do clown, mas já demonstram que tem potencial para realizar ótimos trabalhos nesta área.
Assisti ainda a Ali Babá e os quarenta ladrões, com o grupo Trupe de Truões, integrado por ótimos atores, formados pela Faculdade de Teatro de Uberlândia, em Minas Gerais. Muito compenetrados e preocupados em aprimorar seu trabalho, os jovens do elenco escutaram com atenção cada comentário que foi tecido sobre o espetáculo.
O grupo Mão Molenga Teatro de Bonecos, de Madalena (PE), inspirou-se no processo de criação dos mamulengueiros de Pernambuco para montar Babau ou A vida desembestada do homem que tentou engabelar a morte, a história de um boneco que passa pelas mãos de diferentes mestres, de geração em geração, conseguindo assim driblar a morte.
Até aí nada de mais. Mas, inusitadamente, o espetáculo acabou gerando a maior polêmica do Fenatib. Explico: há na peça uma cena de mamulengos em que um padre é assediado por uma jovem e bela moça, correspondendo à corte. Nesse momento, uma família inteira se retirou do teatro, sendo seguida por outras. Um assunto tão delicado, que ocupou boa parte do debate após o espetáculo. Durante a conversa, a autora, o diretor e os atores de Babau contaram que nos espetáculos originais de mamulengos – ricos em situações cômicas e satíricas e que normalmente duram muitas horas – há cenas tão pesadas, que só podem ser apresentadas tarde da noite, depois que todas as crianças já foram retiradas da platéia. O que fora apresentado naquela tarde às crianças de Blumenau, era, segundo eles, algo suave. Como também me pareceu.
Caminhando pela cidade, fiquei pensando em como é rica a nossa cultura e em como são interessantes as singularidades dos habitantes de nossos longínquos Estados.
O Fenatib me deu ainda a oportunidade de conhecer montagens como A pedra do meio-dia ou Artur e Isadora, baseado em cordel de Bráulio Tavares, encenado pelo grupo baiano Núcleo Criaturas Cênicas, e Contas diárias, com o grupo Companhia do Ator Cômico, de Curitiba. Mas, entre todas as peças vistas, houve uma que me surpreendeu particularmente: O romance do vaqueiro Benedito, com o grupo de Teatro Mamulengo Presepada – Invenção Brasileira, de Taguatinga (DF). Grupo formado, na realidade, por Chico Simões, autor, diretor e ator do espetáculo, que se apresenta acompanhado pelo músico Francisco Wellington..
A leitura da sinopse da peça, que descreve as aventuras de um casal que foge da fazenda do Capitão João Redondo depois que a moça engravida, me levou ao pátio da Fundação Cultural de Blumenau sem grandes expectativas. Eis que Chico Simões entra em cena e me percebo, em um minuto, tomada pelo encantamento. Tento manter um certo distanciamento para observar o segredo do artista. Penso: como ele consegue manter a platéia em suas mãos? O que faz para nos surpreender a cada minuto? Como pode sentir-se tão à vontade no palco, totalmente a mercê da improvisação?
Aos poucos, vou observando que Chico Simões não tem um texto pronto porque não precisa. Durante o prólogo – praticamente a metade da peça – ele instiga as crianças a pensarem, propondo brincadeiras com os sons das palavras e suas rimas e levantando questões sobre os conceitos de tempo – o presente, o passado e o futuro. Trocando informações com seu jovem e atento público, fazendo piadas quando o assunto pede e falando sério quando necessário, o artista constrói seu espetáculo diante da platéia.
Quando começa o teatro de mamulengos propriamente dito, o público está completamente rendido, desmanchando-se de rir diante da riqueza e da graça dos personagens de nossa cultura popular. Há anos na estrada com seu espetáculo, no Brasil e no exterior, o mestre dá a suas platéias uma prazerosa aula de teatro.
Esses dias passados em Blumenau me trouxeram uma grande paz de espírito. Durante o Fenatib tive a certeza de que, por maiores que sejam os apelos das novas tecnologias, sempre haverá espaço para as peças infantis que priorizam a poesia e o desenvolvimento da imaginação infantil. E, sobretudo, para artistas que gozam de forma intensa aquele momento único de encontro com seu público.