“ERA UMA VEZ...”O papel das histórias no desenvolvimento da criança
por Ivani de O. Magalhães

Resumo: No contato com crianças na faixa etária de 2 a 6 anos, em Instituições de Educação Infantil, não se pode deixar de notar a atração delas pelo universo das histórias infantis e o quanto seus personagens e enredos estão presentes em suas vidas. Sendo assim, investigamos as contribuições que estes “contos maravilhosos” oferecem ao desenvolvimento destas crianças. Em um breve histórico, estabelecemos um paralelo entre a concepção de criança e a literatura infantil, visto que as histórias refletem o olhar e o tratamento dado à infância. Foram discutidas suas contribuições, tanto no campo afetivo, quanto cognitivo,mostrando que as histórias podem ser muito mais que diversão no cotidiano escolar. A partir de entrevistas com professoras que atuam na Educação Infantil, procuramos conhecer a maneira como as histórias são utilizadas em sala de aula, com que freqüência, e o que pensam sobre este tipo de atividade. Com isso,constatamos que as histórias estão presentes na escola e no dia-a-dia destas crianças, lhes dando o prazer e a
alegria de poder transitar por este universo mágico.

1. INTRODUÇÃO
O presente trabalho tem como tema o papel das histórias infantis e, em especial, os contos de fadas, no desenvolvimento emocional e intelectual de crianças de 2 a 6 anos. O hábito de contar e ouvir histórias é uma das mais antigas tradições praticadas pela humanidade e surge da necessidade de transmitirmos algo a alguém. O ser humano necessita comunicar-se, dizer algo àqueles que o cercam, compartilhar sentimentos, emoções e experiências com o grupo a qual faz parte. Nos dias atuais nos encontramos em uma sociedade que possui um modo de vida bem diferente do de alguns anos atrás. Temos carros,aviões, televisão, Internet e as crianças são,desde muito cedo, bombardeadas pelos mais diferentes estímulos áudio-visuais. Porém, nota-se que as histórias transmitidas através da tradição da oralidade jamais perderam o seu encanto, bastando que se diga “era uma vez...” a uma criança para que seu interesse seja imediatamente despertado para o que virá aseguir, descortinando-se para ela um universo mágico, onde tudo é possível e os mais diferentes sonhos são realizados. Seja criança ou adulto, não há quem não goste de passar a noite em uma roda de amigos a contar “causos”, ou até mesmo ao telefone,ouvindo as experiências relatadas por outro. Os tempos mudaram, mas a necessidade de compartilhar experiências, ouvir de outro algo que fale ao nosso coração permanece. Com isso,constatamos que as histórias jamais perderam a sua importância. Até hoje, sempre que alguém senta para contar uma história, pratica a deliciosa arte de abrir as portas da imaginação. No contato com crianças na faixa etária de 2 a 6 anos, em Instituições de Educação Infantil,não se pode deixar de notar a atração delas pelo universo das histórias infantis e o quanto seus personagens e enredos estão presentes em suas vidas. Acreditamos que se considerarmos que as histórias são inerentes à criança e à infância, essa compreensão poderá nos ajudar a entender a própria criança em seus processos de descoberta rumo ao desenvolvimento, abrindo-se um grande leque de possibilidades dentro do contexto educacional. Sendo assim, ao longo deste trabalho configuraram-se os seguintes questionamentos: o que faz com que uma criança, que se vê rodeada pela tecnologia de nossa era, se interesse pelo mundo do faz de conta? Quais contribuições estes contos maravilhosos podem trazer para as crianças de 2 a 6 anos? Como educadores da educação infantil concebem o uso de histórias infantis? Existe uma reflexão em torno desta questão? E esta, se reflete em uma prática de contar histórias, inserida de forma constante em sua tarefa de educar?
Para tentar responder estas questões foram realizadas pesquisas bibliográficas, tais como a leitura de livros e artigos pertinentes, bem como a realização de entrevistas com professoras de alunos de 2 a 6 anos de duas escolas: uma pública e uma particular.
Acreditamos que a partir dos resultados obtidos poderá ser construído um indicador de como aproveitar este mundo de magia e encantamento, do qual fazem parte as histórias infantis, no enriquecimento do ensino oferecido às crianças que estão em uma etapa crucial de seu desenvolvimento: a Educação Infantil.

2. AS HISTÓRIAS NA HISTÓRIA:DIFERENTES VISÕES
No decorrer da história, a criança foi vista de diferentes formas e os conceitos formados a seu respeito foram modificando-se a cada época. Assim também ocorreu com a educação e o acervo cultural destinado a ela. Segundo Coelho (2003, p.41), nas antigas Grécia e Roma, a educação da criança era exclusividade de sua família. O aprendizado era feito através da observação do comportamento dos adultos e a diferença entre adulto e criança não existia. Nesta época não existiam escolas formais. Durante todo esse período histórico, até a Idade Medieval, a infância recebia o mesmo patrimônio de mitos, lendas e romances épicos que os adultos, pois as crianças eram consideradas adultos em miniatura.
“Na Idade Média, com o poder da igreja,passou-se a propiciar à criança o ensino da religião, da moral, habilidades da leitura,escrita e aritmética. Surgem os primeiros livros de caráter pedagógico com função moralizadora”. (Áries, 1981, p.68)Coelho  (2003, p.54-55) nos coloca ainda que, com o Renascimento, os textos escolares passaram a sofrer menos influência da vida dos santos e da bíblia e, para as crianças, ganharam espaço os contos e fábulas com elementos da mitologia, fatos lendários e da tradição popular.Também os contos europeus, que eram coletas de contos populares, tiveram seu “nascimento”,composto por personagens como rainhas, príncipes, princesas, fadas, magos e bruxas,juntamente com a importância que começa a ser dada à escola formal. Por volta do século XVII,Charles Perrault deu início à literatura infantil fazendo surgir os contos de fadas, imortalizando histórias que são de grande repercussão ainda nos dias de hoje, como “Cinderela” e “Chapeuzinho Vermelho”. De acordo com Zilberman (2003, p.65),com o Iluminismo, surge a valorização da razão em detrimento à imaginação, onde se entendia que a criança não deveria perder tempo com as histórias de fadas. Mas, no século XIX, com a ênfase e a preocupação dada ao estudo do desenvolvimento infantil, as questões das histórias infantis e da educação novamente são revistas e, a partir deste século, sobre profundas influências da Revolução Industrial, e a literatura infantil se preocupa em abordar contos críticos, com idéias sociais. “Instaurou-se um antagonismo entre a necessidade de conhecer a realidade e a criação fantástica. No plano educacional, criou-se uma corrente que condenava a fantasia na literatura infantil, valorizando a verdade e o realismo como únicas formas de aprendizagem e de conhecimento da realidade”. (Radino, 2003, p.106) Mas, segundo Coelho (2005, p.11) a fantasia, a imaginação, o mistério dos contos de fadas e o folclore, dando liberdade à criança para criar e imaginar, reaparece nas histórias infantis com o Romantismo. A partir daí, principalmente no século XX, as histórias infantis ganham ênfase, sendo consideradas em sua importância no desenvolvimento infantil.

3. AS CONTRIBUIÇÕES DAS HISTÓRIAS SOB O PONTO DE VISTA EMOCIONAL
A criança, ao ingressar na escola, encontra-se em um importante momento de transição. Ao mesmo tempo em que se vê diante de uma série de oportunidades, depara-se com forte angústia relativa à separação dos pais e às novas pressões da sociedade. Terá de se submeter a regras e ao difícil processo de aprendizagem. Nesse momento, muitas questões inerentes ao processo de crescimento ainda não foram superadas e, ao contrário, são vividas intensamente. Dificuldades em superar o narcisismo, os conflitos edípicos, as rivalidades fraternas, o egocentrismo, as perdas,entre outras questões, se não puderem ser externalizadas, provocarão intensa angústia e dificultarão o desenvolvimento. Fortes reações emocionais virão à tona, podendo ser detectadas e trabalhadas pelos educadores: “A aquisição de conhecimento não será possível se a criança não tiver a oportunidade de expressar suas angústias e integrá-las ao seu mundo interno.” (Radino, 2003, p.118)Para Radino (2003, p.26), “os contos de fadas podem auxiliar a criança nesse momento,justamente porque são representações de acontecimentos psíquicos, diferentes da realidade factual. Nos contos, são projetadas fantasias inconscientes e universais, que tratam da realização de desejos e se relacionam a angústias nerentes ao processo de desenvolvimento”. Cashdan (2000, p.291), por sua vez,considera que os contos de fadas representam uma janela especial que se abre para a vida emocional das crianças, e que o impacto que estes têm sobre nós, adultos, vem da influência
que tiveram sobre nós quando éramos crianças. Para ele, os contos de fadas são mais do que aventuras repletas de suspense que excitam a imaginação; são mais que mero entretenimento: “Por trás das cenas de perseguição e dos resgates no último minuto, há dramas sérios que refletem eventos que acontecem no mundo interior da criança. Embora o atrativo inicial de um conto de fadas possa estar em sua capacidade de encantar e entreter, seu valor duradouro reside no poder de ajudar as crianças a lidar com os conflitos internos que elas enfrentam no processo de crescimento.” (Cashdan, 2000, p.25) Este autor nos aponta ainda que “o modo pelo qual os contos de fadas resolvem estes conflitos é oferecendo à criança um palco onde elas podem representar seus conflitos interiores.
As crianças, quando ouvem um conto de fadas,projetam inconscientemente parte delas mesmas em vários personagens da história, usando-os como repositórios psicológicos para elementos contraditórios do eu.” Cashdan (2000, p.31) A partir da compreensão de projeção, tem-se tomado conhecimento dos processos inconscientes do psiquismo humano. Segundo o Vocabulário de Psicanálise, a projeção consiste em atribuir os próprios impulsos, sentimentos e afetos a outras pessoas ou ao mundo exterior e nos permite ignorar esses fenômenos em nós mesmos, quando eles são desagradáveis (Laplanche e Pontalis, 1992, p.374-5). Em Totem e Tabu, Freud (1913, p.77) nos coloca que a projeção não é especialmente criada com fins de defesa egóica, mas surge também quando não existem conflitos, afirmando que a projeção de percepções internas para o exterior é um mecanismo primitivo que desempenha papel principal na configuração do mundo. Segundo Bettelheim (1980, p.14): “Os contos de fadas transmitem importantes mensagens à mente consciente, à préconsciente,e à inconsciente, em qualquer nível que esteja funcionando no momento. Lidando com problemas humanos universais, particularmente os que preocupam o pensamento da criança, estas histórias falam ao ego em germinação e encorajam seu desenvolvimento, enquanto ao mesmo tempo aliviam pressões pré-conscientes e inconscientes. A medida em que estas histórias se desenrolam, dão validade e corpo às pressões do id, mostrando caminhos para satisfazê-las, que estão de acordo com as requisições do ego e do superego.” Para Radino (2003, p.118), a psicanálise trouxe importantes contribuições para a atual concepção de infância. Segundo a autora, nas primeiras relações é que a criança, pelas identificações, poderá constituir-se enquanto sujeito. Por meio de mecanismos como a idealização, a introjeção, a projeção e a transferência, a criança irá formando um padrão de relação, tornando-se um sujeito que busca a realização de seus desejos e a satisfação de suas pulsões.

Também segundo Radino, a psicanálise demonstra que os contos de fadas são importantes para as crianças, justamente porque são metáforas de processos que elas vivem inconscientemente.Ajudam a transformar nossos desejos e angústias, tornando-os compreensíveis.
Em uma linguagem acessível, os contos de fadas mostram à criança questões humanas, que ela vivencia mas não tem condições de verbalizar. Eles dão formas aos seus desejos e emprestam-se como um cenário de seus sonhos, aguçando sua imaginação e favorecendo seu processo de simbolização, tão necessário á sua inserção em um mundo civilizado e cultural (Radino, 2003,p.117).

4. O VALOR DOS CONTOS DE FADAS NA FORMAÇÃO DA PERSONALIDADE
Para Bettelheim (1980, p.14), os contos de fadas transmitem mensagens simbólicas e significados manifestos e latentes, atingindo todos os níveis da personalidade humana. Segundo o autor, o prazer que experimentamos quando nos permitimos ser suscetíveis a um conto de fadas, e o encantamento que sentimos,não vêm do significado psicológico de um conto (embora isto contribua para tal), mas das suas qualidades literárias. O conto de fadas não poderia ter seu impacto psicológico sobre a criança se não fosse primeiro, e antes de tudo,uma obra de arte:“Enquanto diverte a criança, o conto de fadas a esclarece sobre si mesma, e favorece o desenvolvimento de sua personalidade.”

(Bettelheim, 1980, p.20)
Em Radino (2003, p.118 - 119), o conto de fadas não é o único, mas pode ser um importante instrumento de trabalho, auxiliando a criança a lidar com a ansiedade que está vivendo e a superar obstáculos, favorecendo o desenvolvimento de sua ersonalidade. Neste sentido, Held (1980, p.237) nos coloca que “o impacto que um conto de fadas pode provocar na criança é mais intenso e durável se sua apresentação for realizada em um clima livre. Como uma obra de arte, sua compreensão é emocional, ajudando a criança a entender-se por si própria. Dessa forma, o conto é por si mesmo edagógico, na medida em que responde às principais questões da criança: vida,morte, exualidade, medo, etc. A ênfase na escola está na atividade que o conto pode proporcionar.”

5. OS CONTOS DE FADAS, A ORGANIZAÇÃO DO PENSAMENTO INFANTIL E O ESTÍMULO PARA A IMAGINAÇÃO
Existe uma série de preconceitos relativos ao uso dos contos de fadas. Ainda hoje há a idéia, por parte de muitos adultos, de que os contos de fadas significam fuga da realidade e não um ponto de partida para o conhecimento do real. Para Radino (2003, p.26), muitas dessas reações refletem preconceitos relacionados à própria concepção de infância. Inseridos em um mundo adulto, capitalista e racional, muitas vezes desconsideramos as reais necessidades da criança, em função de uma imagem que idealizamos. Porém, ao contrário de desorganizar, a fantasia pode ser um importante elemento de organização simbólica. Para a autora, ao censurar os contos de fadas, muitos pais e professores não estarão protegendo a criança de vivenciar as situações que estes apresentam, como o medo, a sexualidade, a inveja, o ódio, entre outros, visto que estes sentimentos já estão presentes na criança, de forma fantasiada, desde muito cedo. A idéia de que tanto contato com a fantasia desorganiza, ao contrário do que se imagina,pode servir como fonte de elementos simbólicos para a própria organização mental (Radino, 2003,p.142). Assim, os contos de fadas, com seus enredos repletos de elementos mágicos, oferecem inúmeros estímulos para a imaginação infantil e,de acordo com Radino (2003, p. 135), estas histórias não iludem, mas expõem as crianças a todas as dificuldades undamentais do homem. Para ela, os contos aguçam a imaginação por serem formas simples e fechadas. Contudo, obedecem a uma lógica muito rigorosa, e isto possibilitou a análise formal de suas estruturas narrativas por alguns teóricos. Segundo Coelho (1987, p.13), contos de fadas são narrativas desenvolvidas dentro de uma magia feérica (reis, rainhas, príncipes, princesas,fadas, ogros, gigantes, metamorfoses, objetos mágicos, etc.), com ou sem a presença de fadas e que apresentam, como eixo central, uma problemática existencial. Tratam de um herói ou heroína que deve superar obstáculos ou provas,até atingir a realização essencial, desembocando muitas vezes em uma união homem-mulher. Já para Radino: “Todo conto inicia em um outro tempo e em um outro lugar, e a criança sabe disso. Ao iniciar um “era uma vez”, a criança sabe que partirá em uma viagem fantástica e que dela retornará com um “e viveram felizes para sempre” ou expressões semelhantes. Esses rituais mostram que vamos tratar de fantasia e isso faz com que embarquem nessa viagem e se identifiquem com os personagens.” (Radino,2003, p.135) Para Gillig (1999, p.117), por outro lado,os contos de fadas ajudam a criança a nomear os desejos. Se ela não tiver condições de simbolizar,seu desejo provavelmente será externalizado por um sintoma. Se as crianças apresentam dificuldades, não é porque lhes falta imaginação,mas não lhes foi dada a oportunidade de dar forma a essa imaginação. E os contos de fadas, segundo Bettelheim (1980, p.16), oferecem novas dimensões à imaginação da criança que ela não poderia descobrir verdadeiramente por si só. E o mais importante: a forma e a estrutura dos sugerem imagens à criança com as quais ela pode estruturar seus devaneios e com eles dar melhor direção à sua vida.

6. A CONTRIBUIÇÃO PARA A FORMAÇÃO ÉTICA DA CRIANÇA
Rappaport (1981, p.6) considera que a criança em idade pré-escolar ainda é incapaz de uma ética relacional, sendo apenas capaz de entender o permitido e o proibido dentro de uma dicotomia absoluta. Certo e errado devem estar bem definidos, e a expectativa presente é a da recompensa do bem e a punição do mal. Esta dicotomia possui um caráter organizador, pois caracteriza uma primeira organização da interação com o mundo externo, definindo suas conseqüências como boas ou más. A definição desses valores é importante fonte de segurança para a criança, pois a certeza de que há o bem e o mal definidos, que o mal terá uma punição certa, é o que dará segurança para, com sua fragilidade,transitar entre os perigos do mundo.
De acordo com Bettelheim (1980, p.13), a literatura infantil e, principalmente, os contos de fadas, podem ser decisivos para a formação da criança em relação a si mesma e ao mundo à sua volta. O maniqueísmo que divide as personagens em boas e más, belas ou feias, poderosas ou fracas, etc. facilita à criança a compreensão de certos valores básicos da conduta humana ou convívio social. Tal dicotomia, se transmitida através de uma linguagem simbólica, e durante a infância, contribuirá para a formação de uma consciência ética. Para ele, a criança necessita de uma educação moral que, de modo sutil e implícito, a
conduza às vantagens do bom comportamento,não através de conceitos éticos abstratos, mas naquilo que lhe parece tangivelmente correto e,portanto, significativo e isto pode ser encontrado nos contos de fadas (Bettelheim, 1980, p.13). Ainda para o autor:“Segundo a Psicanálise, a criança é levada a se identificar com o herói bom e belo, não devido à sua bondade ou beleza, mas por sentir nele a própria personificação de seus problemas infantis: seu inconsciente desejo de bondade e beleza e, principalmente, sua necessidade de segurança e proteção. Podendo assim, superar o medo que a inibe e enfrentar os perigos e ameaças que sente à sua volta, alcançando gradativamente o equilíbrio.” (Bettelheim,1980, p.18) Bettelheim nos coloca também que, ao contrário do que acontece em muitas histórias infantis modernas, nos contos de fadas o mal é tão onipresente quanto a virtude. É esta dualidade que coloca o problema moral e solicita a luta para resolvê-lo (1980, p.15). Segundo ele,o mal não é isento de atrações e, com freqüência,se encontra temporariamente vitorioso nos contos. Desta forma, não é o fato de o malfeitor ser punido no final da história que estes se tornam uma experiência em educação moral. Neles, como na vida, a punição ou o temor dela é apenas um fator limitado de intimidação ao crime. A convicção de que o crime não compensa é um meio de intimidação muito mais efetivo, e esta é a razão pelo qual nos contos de fadas a pessoa má sempre perde. Não é o fato de a virtude vencer no final que promove a moralidade, mas de o herói ser mais atraente para a criança, que se identifica com ele em todas as suas lutas. Devido a esta identificação a criança imagina que sofre com o herói suas provas e tribulações, triunfando com ele quando a virtude sai vitoriosa. A criança faz tais identificações por conta própria, e as lutas interiores e exteriores do herói imprimem moralidade sobre ela (Bettelheim, 1980, p.15-6). Para Vieira (2005, p.9), cada uma dessas histórias é um estímulo encorajador na luta da vida, em que se valorizam os princípios éticos na relação com o outro: o Mal é denunciado, e o personagem mau é castigado; o Bem é valorizado, e o personagem bom é premiado. A proposta e a realização básica são sempre de plena vitória final do Bom e do Bem. Conforme Bettelheim:
“A criança recebe através das histórias, uma base para compreender que há grandes diferenças entre as pessoas e que, por conseguinte, uma pessoa tem que fazer opções sobre quem quer ser. Esta decisão básica sobre a qual todo o desenvolvimento ulterior da personalidade se construirá, é facilitada pelas polarizações dos contos de fadas. Se identificará com o bom herói não por causa de sua bondade, mas porque a condição do herói lhe traz profundo apelo positivo.” (Bettelheim,1980, p.18) Portanto, as histórias são úteis na transmissão de valores porque dão razão de ser aos comportamentos humanos. Tratam de questões abstratas, difíceis de serem compreendidas pelas crianças quando isoladas de um contexto. A criança é incapaz de raciocinar no abstrato. Assim, virtudes, maus hábitos,defeitos ou esforços louváveis que interferem no comportamento social do indivíduo, gerando conseqüências à sua vida, não podem ser entendidos com esta clareza pelas crianças. Falta um referencial capaz de associar uma questão de comportamento a um fato.

7. PENSAMENTO E LINGUAGEM
Segundo Traça (1998, p. 174), as dúvidas infantis encontram mais consolo com os Contos de fadas do que com explicações, muitas vezes científicas, dadas pelos dultos. Explanações científicas são incompreensíveis para o pensamento infantil porque as crianças ainda não têm condições intelectuais de abstrair. Além
disso, qualquer novo conhecimento só fará sentido se for conquistado pela própria criança. As informações que lhes são impostas como verdadeiras só ajudam a criar um muro de incompreensões. Bettelheim (1980, p. 60), cita:“Como Piaget mostrou, o pensamento da criança permanece animista até a idade da puberdade. Seus pais e professores lhe dizem que as coisas não podem sentir e agir, e por mais que ela finja acreditar nisso para agradar a estes adultos, ou para não ser ridicularizada,bem no fundo, a criança sabe melhor. Sujeita aos ensinamentos racionais dos outros, a criança apenas enterra seu “conhecimento verdadeiro”, mas no fundo de sua alma ele permanece intocado pela racionalidade; no entanto, pode ser formado e informado pelo que os contos de fadas têm a dizer.” Já Cademartori (1986, p.73) considera que, brincando a criança faz uso inconsciente e espontâneo da possibilidade de separar significado e objeto. Para a autora, esse início de abstração que se dá quando é criada a situação imaginária no brinquedo e tem continuidade na experiência com histórias infantis, que são situações ficcionais que dão prosseguimento a essa experiência não fortuita na vida da criança que é a simulação, primeira tentativa de emancipar-se das imposições do meio. Através das histórias, a dimensão simbólica da linguagem é experimentada, assim como sua Conjunção com o imaginário e com o real.
Por outro lado, segundo Rappaport (1981,p.56), com o desenvolvimento da linguagem, esta deixa de ser vista pela criança exclusivamente como meio de comunicação para assumir um papel preponderante na representação, organização e interação com o meio ambiente. Cabe à linguagem ordenar a experiência e estabilizar o mundo caótico que a criança enfrenta e, com isso, irá aos poucos propiciar as operações intelectuais que ocorrem em nível abstrato. Dessa forma, a criança pode pouco a pouco se libertar do mundo concreto,limitado à experiência imediata. O domínio da linguagem é, pois, condição essencial para que o ser humano seja capaz de relembrar, planejar,raciocinar e direcionar sua vida. Radino, por sua vez, nos coloca que:“Com a ajuda da fantasia, a criança constrói uma linguagem pré-verbal, fazendo uma ponte entre seus mundos interno e externo. Essas primeiras experiências estão em íntima conexão com o processo de simbolização e,posteriormente, de sublimação, tão importantes para nossa inserção em um mundo cultural e social.” (Radino, 2003, p.26)

8. AS HISTÓRIAS, O PROCESSO DE ALFABETIZAÇÃO E O INCENTIVO À LEITURA
Para Radino (2003, p.119), ao ouvir histórias, as crianças concentram-se, aprendem a respeitar-se e, acima de tudo, passam momentos de grande prazer. A criança poderá ler melhor quando tiver o hábito de imaginar o que lê. Além da função emotiva, os contos de fadas também têm uma função pedagógica, pois auxiliam na construção do ser imaginário, que ensina a forma e a razão, sendo também o primeiro contato da criança com o universo literário.
Segundo Bettelheim (1988, p. 242-243),em geral, os adultos não percebem que a alfabetização, que vêem como um empreendimento racional e uma típica realização do ego, só pode acontecer se a criança,inicialmente, e por algum tempo depois, vivenciar a leitura como satisfação da fantasia – como a brincadeira – e como uma mágica poderosa. A criança que gosta muito de ouvir histórias que estimulam e satisfazem sua fantasia desejará também ler sozinha esses contos maravilhosos quando ninguém estiver disponível para fazê-lo. Mas, se não experimentou o prazer de terem lido para ela, não ficará facilmente interessada em aprender a ler. Não tendo essa experiência, duvidará que aprender a ler seja uma coisa que queira fazer, e o trabalho duro que aprendizado envolve parecerá não valer a pena. Para o autor, a aquisição de habilidades,inclusive a de ler, fica destituída de valor quando o que aprendeu a ler não acrescenta nada de importante à nossa vida (Bettelheim, 1980, p.12). Já para Radino:
“O ato de ouvir histórias auxilia a criança no seu processo de alfabetização, pois quanto mais histórias ouvir, mais ela aguçará sua capacidade de imaginar a situação apresentada e desenvolver seu mundo simbólico. Histórias que contêm material rico para estimular a fantasia propiciam satisfações imaginárias que demonstram o valor e o mérito da leitura.”(Radino, 2003, p. 175) A autora nos coloca ainda que, ao introduzir as crianças em um mundo rico de simbolizações, as histórias infantis podem auxiliar no seu processo de alfabetização pois, ao ouvir uma história, a criança aprende a imaginar o que evoca a palavra presente e presentificada e,aos poucos, aprende a memorizar o seu enredo. Desta forma, os contos de fadas podem ser um importante instrumento pedagógico visto que, ao transmitem uma linguagem simbólica, necessária para a inserção da criança em um mundo letrado,ativam a memória, ampliam o vocabulário, entre outros benefícios (Radino, 2003, p. 119). Segundo Kaercher (2001, p.82): “É destas práticas, de ouvir e contar histórias,que surge nossa relação com a Leitura e a literatura. Portanto, quanto mais acentuarmos no dia-a-dia da Escola Infantil estes momentos,mais estaremos contribuindo para formar crianças que gostem de ler e vejam no livro, na leitura e na literatura uma fonte de prazer e Divertimento.”

9. A FORMAÇÃO DE UMA ATITUDE POSITIVA DIANTE DA VIDA Radino (2003, p.134-135), nos coloca que muitos adultos consideram os finais felizes como irreais e, de alguma forma, prejudiciais à criança. Como alimentar uma criança com a fantasia de que se tornará princesa se a realidade mostra uma vida dura que ela terá que enfrentar? Elas nunca serão princesas, nem terão um casamento maravilhoso e nem serão felizes para sempre. A autora, porém, considera que nenhuma criança acredita que será um príncipe ou uma princesa,mas que poderá governar sua própria vida. O final feliz mostra justamente que a criança tem condições de superar seus conflitos e atingir a maturidade. Além disso, se não dermos a possibilidade de a criança acreditar em seu futuro de forma otimista, ela deixará de acreditar em si mesma e não conseguirá seguir adiante e vencer suas dificuldades. Desta forma, a imaginação infantil é nutrida e assegurada por estes finais felizes, pois apesar de encontrar obstáculos, a criança aprende que poderá superá-los e amadurecer.
Nesse sentido, Bettelheim (1980, p.14),nos coloca que esse final feliz não se refere a uma realidade exterior, mas, sim, à segurança de que a criança conseguirá superar seus conflitos e se tornar independente.
“O pedido de conte outra vez, é uma forma da criança apropriar-se de suas emoções e elaborálas. A partir daí, poderá recontar a sua história,dramatizá-la e brincar com sua realidade interna. Como um brinquedo, utiliza o simbolismo dos contos de fadas para dar expressão às suas angústias. Fazendo uso dos personagens, tanto bons como maus, ela pode identificar-se com cada um deles, em diferentes momentos, assim que sua necessidade seja despertada. Os contos mostram que o amadurecimento é ao mesmo tempo difícil e possível, podendo fazer a criança encontrar um final feliz, como o herói de sua história preferida.” (Radino, 2003, p. 143)

10. A HORA DO CONTO COMO FACILITADORA NA RELAÇÃO ENTRE EDUCADOR E EDUCANDO
No contexto educacional, os contos de fadas e, de um modo geral, as histórias nfantis,podem ser um rico instrumento de trabalho, não como uma cartilha, mas preservando sua função original: de instruir e distrair.
Conforme Radino (2003,p.216):“Os contos de fadas podem auxiliar na educação, justamente porque eles ajudam aluno e professor a um autoconhecimento e, de forma
agradável e poética, revelam o inconsciente.”
Para a autora citada, compartilhar um conto e acolher a fantasia infantil significa
acolher a criança em sua integridade. Dessa forma, ela sentirá que não está só e que suas emoções não são assustadoras, mas pertencem à natureza humana e podem ser controladas. A verdadeira educação deve respeitar e aproveitar a natureza infantil. Se sua fantasia e sua emoção puderem ser integradas em seu processo de desenvolvimento e conhecimento, a criança sentir-se-á respeitada e terá condições de
ingressar em um mundo social e cultural (Radino, 2003, p.219).
Segundo a autora, apesar de ouvirmos poucas histórias atualmente, guardamos na
memória, mesmo que muito distante, um conto preferido ou alguma história inventada. Essa história não é só importante pelo seu conteúdo,mas por tudo o que representa. Faz-nos recordar uma infância, um carinho de mãe, pai, avó,
professora, etc. (Radino, 2003, p.219-20).
Bettelheim (1980, p.61) por sua vez, nos coloca que, ao se contar uma história, deve haver uma cumplicidade com a criança. Ambos, adulto e criança, podem compartilhar dessa experiência.
Quando um adulto começa a contar histórias à criança, aos poucos ela começa a escolher a preferida. Se houver um entrosamento, o prazer da criança faz com o adulto partilhe dessa experiência.
Para Radino (2003, p. 184):“A ressonância na criança do prazer sentido por uma professora que conta uma história simplesmente porque gosta de fazê-lo, é completamente diferente do de uma professora que conta para cumprir uma atividade, uma obrigação.”
Por fim, Coelho (1986, p. 32) considera que contar histórias é um ato de amor, é um
momento de intimidade entre o adulto e a criança e, por isso, pode contribuir com o
relacionamento.

11. ENTREVISTAS COM AS EDUCADORAS
O modelo de entrevista realizado neste trabalho foi proposto por Bleger (1980, p.54), que a considera como um importante instrumento na técnica de investigação ientífica. O autor propõe dois modelos de entrevista: fechada e aberta. A entrevista fechada funciona como um questionário em que as questões são previamente determinadas e não há maleabilidade em alterálas. Para este trabalho optamos pela entrevista aberta, visto que neste modelo há maior liberdade para realizar perguntas e intervenções.Segundo o autor, essa maior flexibilidade permite ao entrevistado configurar o campo da entrevista, em função das características de sua personalidade, facilitando a interação entre entrevistador e entrevistado, possibilitando uma investigação mais ampla (Bleger, 1980, p. 56). Foram entrevistadas quatro professoras de uma escola municipal da periferia de São Paulo e quatro professoras de uma escola tradicional da rede particular do mesmo município, num total de oito entrevistadas, com idade entre 24 e 41 anos. Todas as entrevistadas possuíam formação com nível Superior, tendo algumas cursado o Magistério em nível médio e todas com curso completo em áreas como Letras, Artes Plásticas,Psicologia e em sua maioria a Pedagogia, com o tempo de exercício variando entre 6 e 22 anos de magistério. Ao serem indagadas sobre a utilização de histórias infantis em sua rotina de trabalho, todas as entrevistadas afirmaram ser esta uma atividade freqüente e, em alguns casos, diária. A escolha das histórias, na maioria das vezes, se dá em função de temas relacionados ao trabalho pedagógico realizado em sala de aula, como complemento para atividades ou projetos. Em alguns casos a escolha é feita também pelos alunos. M., uma das professoras da escola particular, colocou o seguinte: “Procuro escolher as histórias a partir das necessidades do grupo, ou na maioria das vezes, apresento o “livro surpresa”, no qual este é embrulhado e apresentado com um suspense: a hora da história já vai começar e eu quero ver que história vai ser...” Para apresentar as histórias aos alunos as entrevistadas utilizam os mais variados recursos;contudo, a leitura a partir de livros é a forma mais utilizada. Em geral, utilizam fantoches,figuras ilustrativas, objetos e fantasias. Em alguns casos pode-se perceber uma preocupação com a dramatização e a entonação de voz. Quanto às dificuldades encontradas para contar histórias, várias professoras citaram a falta de atenção dos alunos e a existência de ruídos externos. S., professora da escola municipal, diz: “No início do ano, quando os alunos não possuem o hábito de ouvir histórias, eles se mantêm dispersos, falta atenção e, mas, aos poucos, eles vão aprendendo a ouvir e isto é muito importante.” Segundo as entrevistadas, ao ouvirem histórias, as crianças se envolvem e interagem, demonstrando interesse e atenção. Ficam mais calmas e concentradas, muitas vezes associando os enredos a situações do dia a dia e, quando gostam, comentam sobre os personagens por vários dias e, em alguns casos, brincam de representar as histórias durante as brincadeiras livres. É unânime entre as entrevistadas a percepção da importância das histórias no desenvolvimento de seus alunos e, ao ser pedido que relacionassem algumas dessas contribuições,citaram: o desenvolvimento da linguagem,expressão corporal, o ouvir, a oralidade, a espontaneidade, facilidade futura na produção de textos, na organização do pensamento, ampliação de vocabulário, na afetividade, nas relações com os colegas, na imaginação e concentração. Quatro professoras afirmaram ter recebido algum tipo de preparo para o trabalho com histórias infantis durante a formação. Contudo,algumas disseram receber algum tipo de incentivo nas escolas em que trabalham, através de palestras e cursos oferecidos pelas instituições. Dentre as entrevistadas, três disseram não ter tido contato com histórias infantis na infância,enquanto as demais relembraram momentos em que mães, tias, avós e até mesmo professores lhe contaram histórias. Um aspecto interessante a ser observado é que as professoras que tiveram as histórias presentes em sua infância demonstram maior entusiasmo ao relatarem o trabalho que realizam com as histórias sendo que o mesmo aconteceu com as que recebem estímulos para este tipo de atividade através de cursos ou palestras de capacitação. Ao compararmos as respostas das professoras das duas escolas, notamos, como um aspecto comum, o fato de todas afirmarem que as histórias estão muito presentes em seu trabalho,porém, com relação à maneira como estas são apresentadas às crianças, percebemos entre as professoras da escola particular uma maior variedade na forma como contam as histórias e nos recursos utilizados, enquanto as professoras da escola municipal, em sua maioria, as contam apenas com o auxílio dos livros. Acreditamos que este seja um reflexo dos cursos de capacitação, oferecidos pela instituição de ensino particular aos professores, e que são voltados para este universo temático. Com relação às informações obtidas com as entrevistas, convém ressaltar que as opiniões podem ter sido expressas com base em um modelo idealizado de educadora que cada uma possui de si, podendo muitas vezes não corresponder ao real.

12. CONCLUSÕES
A maneira de ver a criança e o tratamento dado a ela passou por inúmeras mudanças ao longo da história da humanidade. De adulto em miniatura a criança passou a ser o objeto de estudo de inúmeras teorias do desenvolvimento,denotando uma preocupação com esta importante etapa da vida humana. Junto a essas mudanças surgiu a literatura infantil, refletindo também,com o passar dos anos, a concepção de criança,pois, se antes não havia um tratamento diferenciado para as crianças, não havia também a necessidade de um acervo cultural próprio para elas. À medida que a criança recebe diferentes olhares, os contos e as histórias vão se modificando de modo a acompanhar estas mudanças. Em meio a este processo, houve um momento em que a fantasia foi desconsiderada e as histórias destinadas às crianças passaram a ter enredos baseados na realidade e a atender as necessidades de uma sociedade moralista. Nos dias atuais há uma volta do “maravilhoso”. A cada dia são produzidas novas histórias, livros de literatura infantil e materiais para crianças e, nesta enxurrada capitalista, há de se questionar o valor de cada um deles. As histórias infantis estão presentes no dia a dia das escolas de educação infantil e, segundo as opiniões correntes, oferecem inúmeras contribuições às crianças em desenvolvimento. No campo emocional, podem ajudar as crianças a elaborar e vencer dificuldades psicológicas bastante complexas, pois oferecem a possibilidade de se construir uma ponte entre o mundo inconsciente e a realidade externa, visto que há em cada história uma linguagem simbólica que se comunica diretamente com o inconsciente e, mesmo que a criança não expresse sua compreensão acerca da mensagem contida na história, isto não significa que esta não foi assimilada. Segundo Coelho (1986, p.12): “A história é importante alimento da imaginação. Permite a auto-identificação,favorecendo a aceitação de situações desagradáveis, ajuda a resolver conflitos,acenando com a esperança. Agrada a todos, de modo geral, sem distinção de idade, de classe social, de circunstância de vida.” As histórias são fontes de prazer para a criança. Ajudam a formar a personalidade e auxiliam na organização do pensamento infantil,oferecendo estímulos para a imaginação da criança. Ao passo que oferecem um palco onde a criança pode projetar os mais diversos personagens internos, os contos são um meio para a criança experimentar de maneira simbólica as maneiras de agir em relação ao outro e também de compreender as reações desencadeadas por seus atos. Desta forma,conhecem o bem e o mal e encontram um referencial que lhes ajudará na escolha da pessoa que virá a se tornar ou na maneira como irá agir,podendo perceber as vantagens da virtude,formar uma consciência ética e construir sua identidade. O estímulo à leitura pode se dar a partir do contato com histórias, desde a mais tenra idade,quando a criança encontra nelas uma maneira de viajar em aventuras fantásticas e viver em outro mundo, encontrando o prazer e associando-o aos livros. Há desta maneira um incentivo real para a aprendizagem da leitura e da escrita, pois se a criança pôde experimentar o prazer por terem lhe contado histórias quando pequena, cedo descobrirá o valor da leitura. O momento de ouvir histórias pode ser extremante prazeroso para ambos, adulto e criança, pois, ao partirem juntos nessa vigem fantástica, se tornam mais próximos e esta passa a ser uma atividade que contribuirá no fortalecimento de vínculo, favorecendo o relacionamento inter-pessoal. Além disso, a criança se fortalece e se sente reconfortada com os finais felizes, criando uma atitude positiva diante da vida. E, em relação aos educadores, estes, ao se oferecerem como modelo para o processo de identificação, têm a tarefa de cuidar da criança em sua integridade física,emocional e social,visto que a escola não se restringe à transmissão de conhecimento. Felizmente, as histórias estão presentes na Educação Infantil, contribuindo com o desenvolvimento das crianças e lhes dando a alegria e o prazer de transitar por este universo mágico. Resta-nos agora espalhar a notícia, para que esta magia permaneça dentro da escola.

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