EM TEMPO DE JOGOS
por Maria Helena Kühner

O Jogo
A recente Copa do Mundo, mais uma vez demonstrando o poder de mobilização dos jogos, leva a repensar sobre o sentido e significado que têm os jogos dentro da civilização atual, nas mais diferentes latitudes, classes sociais e idades.
Já se assinalou ser hoje o jogo uma necessidade ou defesa contra a rigidez de uma civilização mais repressora que estimuladora, como o comprovaram Freud e Marcuse. Contra uma educação que é ainda baseada em “nãos” e no “é proibido” ( Lembram-se do famoso ´”E proibido proibir!” pichado pelos estudantes nos muros da França em 68 ?) Contra uma sociedade em que tudo, até mesmo o lazer e... o próprio jogo, já estão sendo absorvidos, utilizados, “programados”.
Os jogos, de qualquer tipo – o do atleta no estádio, o do ator no palco, o do jogador no cassino, o do aluno no recreio.- têm algumas características importantes e comuns:
• Neles domina o acaso, a imprevisibilidade: não há resultado infalível, ou determinado previamente, mesmo quando o jogador inventa 1.001 maneiras de acertar na Loteria Esportiva...
• São sempre a realização de sonhos ou desejos, um meio de expressar esses desejos, um meio de desenvolver uma energia que não tem descarga na realidade, uma ocasião de viver situações em que os papéis são trocados ou as proibições suspensas, os impulsos investidos de maneira diferente: o torcedor que se enrola na bandeira do seu time (ou do Brasil) e sai gritando “hoje nós vamos vencer!” é um bom exemplo, tal como o é o “brincante” do bumba-meu-boi que se sente capaz até de ressuscitar um boi morto, afirmando não só a própria vontade, como sua auto-confiança e seu desejo de ser reconhecido e valorizado.
• São um estímulo à imaginação, relação com a irrelidade: tudo acontece como se, em aparência, na representação, mas nesta se realiza um possível. Daí sua força e seu valor para o crescimento humano. A imaginação é uma abertura: no jogo se expressa o que não é, mas que se desejaria que fosse e que pode vir a ser, isto é, que a re-descoberta ou o re-conhecimento que podem levar do possível ao real, da imaginação à criação, à invenção.
O jogo dramático
Já tem sido seguidamente assinalado que a brincadeira da criança ou do “brincante” de um folguedo popular podem ser algo profundamente sério. O mesmo pode ser dito do jogo dramático, que pais e professores mais conscientes usam como recurso dos mais válidos no desenvolvimento da criança. Pois o jogo dramático é representação, isto é, re-apresentação: é a própria vida sendo vivida, ou re-vivida, para assim chegar à (re)descoberta ou (re)conhecimento de si próprio, dos outros, do mundo. E da des-coberta à criatividade, isto é, à atividade de criar, de fazer surgir na realidade algo novo.
Donde a importância do jogo:
• pelo jogo se dá a ex-pressão ( pressão para o exterior), a exteriorização ou expansão de sensações, afetos, emoções, sentimentos;
• daí a descoberta do próprio potencial, da própria capacidade. Por isso tanto se fala em “desibinição” e abertura;
• dessa descoberta e abertura., a liberação de uma criatividade que pode transformar não só o relacionamento consigo mesmo, mas também com os outros e a realidade.
Jogos preparatórios
Na infinita variedade de jogos, podemos iniciar com:
Jogos de observação: fazer ver, despertar a curiosidade, a atenção, para si mesmo, para os outros, para o que está em torno. Aprender a ver já é um crescimento e dos mais importantes. Aprender – porque ninguém dá o que não tem... e é importante eliminar primeiro os próprios condicionamentos, a própria rigidez e inibição. Ensinar a ver, a observar e depois a imitar ou reproduzir, com o próprio corpo/ palavra, no jogo, o que foi visto: imitar, reproduzir os mais próximos, os próprios pais, os colegas, parentes, professores, animais, plantas, a própria casa, a escola, a rua, o bairro, o trabalho, o tempo ( frio, calor, chuva, as atitudes das pessoas em cada tempo). Ou ainda adivinhações: imitação de um tipo ou figura característica ou conhecida do grupo que joga: um locutor de futebol, um anunciante da TV, um camelo, um padre e seu sermão, um político discursando, um professor muito “neurótico”.. E fazer os outros adivinharem quem ou que tipo ele/ela está imitando...
Jogos de imaginação: necessariamente conjugados com os primeiros: a realidade seria estática, imóvel, rígida, se não pudéssemos imaginá-la de forma diferente e, dessa imaginação, inventar algo novo. Criar, modificando-a.
A imaginação parte do SE: se você fosse...uma cor, um robô, o vento, o mar, a Lua, uma fada...Ou se você estivesse ...na rua e visse uma folha de papel caindo do alto, ou andando de patins e surgisse um gato na sua frente...ou se ( vale qualquer “loucura”, que o que é “loucura” para alguns pode ser algo muito sadio) você estivesse andando e o poste de luz se inclinasse e lhe desse boa noite...ou se sua casa começasse a se espreguiçar e quisesse assumir nova forma, pedindo sua ajuda para isso...
A capacidade de inventar, a criatividade ( não agüento mais falarem tanto nela sem nem saber o que é de fato! ) começa com o próprio “jogador”. E toda receita ou fórmula feita já seria uma forma de rigidez.
Para esses jogos é importante:
• Integração - todo o grupo trabalhar. Se for muito grande, revezar, com uns trabalhando, outros observando e avaliando depois. Ninguém à margem, isolado. É índispensável, sem forçar, buscar a participação de todos.
• Concentração - re-ver uma realidade exige que ela seja de novo buscada, inclusive dentro de nós. Inventar uma nova, criar, é também projetar algo que ficou dentro de nós, marcando nossa personalidade, informando nossa fantasia. Daí ser importante concentrar, isto é, colocar no centro a própria experiência, o que já foi vivido e sentido. Pois teatro é vida em cena. ( Eu já disse isso, tô repetindo? É de propósito)
De nossa prática com esses jogos, aprendemos:
• Que o gesto estereotipado ( uma lavadeira: mãos esfregando roupa; sensação de frio: mãos esfregando os braços etc.etc.) pode ser também uma forma de rigidez, de bitolamento, de anti-criação. É bom buscar, na própria observação e experiência, ampliar os gestos, dar detalhes, enriquecer a expressão.
• Que liberdade é substantivo abstrato, na prática, o que existe, é libert-ação, ou seja, progressão, desenvolvimento, variação, crescimento, mudança, ação. A experiência é sempre rica. A observação carinhosa do(s) outro(s) também. Ou podem ser, se aprendermos a usá-las.
• Que não há certo ou errado na expressão, o “será que ele não devia ter feito isso ou aquilo”, ou “a atitude mais lógica ou adequada não seria tal...” etc. Nós não somos vagões de trem que só anda em trilhos ou seguindo outros. No complexo mundo de hoje, exigindo invenções e descobertas de novos rumos, não há fórmulas feitas, resultados pré-detemrinados. Daí a sedução do jogo. E no jogo dramático, se o gesto, o corpo, a fala conseguem expressar, pôr pra for a o que está dentro de nós, é esse o resultado. Os meios? Vale tudo, pois espontaneidade é exatamente atender à própria vontade, a esse mundo ( sempre tão próprio e diferente) que cada um tem dentro de si. Por isso a tão falada “criatividade” é importante: criar é trazer para a realidade algo novo, algo que não existia antes. E por isso também ela é tão necessária: é ela que nos define como gente, o único ser da criação que se quer e se proclama feito à imagem e semelhança de um Deus que é, por definição, Criador.