DRAMATURGIA - HOJE E SEMPRE
Maria Helena Kühner

Além de acompanhar de perto o movimento teatral do RJ, a participação, no último ano, como debatedora de Festivais Infantis, e como jurada de dois Concursos e uma Mostra de Teatro Infanto-Juvenil, me permitiu ter uma panorâmica de quase 500 espetáculos e textos produzidos por este Brasil.
Panorâmica que ampliou a que já me permitira o Catálogo da Dramaturgia Brasileira

www.dramaturgiabrasileira.org

com mais de 5.500 obras teatrais, de autores de todos os estados do Brasil e de diferentes décadas, das quais cerca de 25% é destinada a crianças e jovens.
É com base nesse material que levanto essas questões como uma provocação a nossa conversa.
De tudo que vi, uma questão aí se mostrou central: a falta, ou a busca de uma (nova) dramaturgia.

A falta de uma dramaturgia

o caso daqueles que, na ausência de respostas quanto a O QUE DIZER contentam-se com:
1. dirigir seus esforços no sentido de COMO dizer ( como se essa dissociação fosse possível!), concentrando-se no apuro e variação de recursos técnicos de todo tipo, de efeitos visuais, sonoros, uso de formas animadas, figurinos, adereços, etc.etc. Resultam daí espetáculos em que se vêem atores com toda uma gama de recursos lúdicos / teatrais, em termos de corpo, voz, movimento, gestual, mímica, capacidade de imitar, de caricaturar, de tornar presente um personagem com uma bem-humorada visão crítica, de introduzir uma situação curiosa e interessante, de jogar com o improviso, etc. etc., mas ...
cujo trabalho se perde ou se dilui porque não conseguem se equilibrar no fio ou fiapo condutor de um roteiro pobre, em que a estrutura cênica é primária, esquemática e repetitiva, em que a situação dramática não evolui, em que a fabulação ( se, ou quando existe) é débil e insuficiente, os conflitos inexistem, a ação dramática, pouco ou nada desenvolvida, é substituída pela ênfase em diálogos bobos, cheios de gags, piadas, brincadeiras supostamente engraçadas, ou por falas em que o lugar-comum é a tônica e os clichês se repetem, assim como se repete na cena o uso de recursos fáceis, macaquices, caretas e gracinhas para tentar prender o público – que muitas vezes responde com dispersão e desinteresse crescentes.
2. Ou contentam-se em criar um espetáculo em que se tenta, sem conseguir, compensar a pobreza de conteúdo e a falta de uma ação dramática com uma movimentação cênica (pulos, quedas, encontrões, esbarrões, agitação )que não é
em absoluto a mesma coisa! - e da qual ficam igualmente excluídos o jogo de relações, contradições, revelações, peripécias e todos os demais elementos que compõem a seqüência de acontecimentos cênicos produzidos em função da ação de personagens. Ação que, obviamente, também se dilui ou se esvazia se esses personagens são estereotipados, sem consistência, indefinidos, se a mudança de cenas tem uma pontuação deficiente, equívoca ou gratuita, sem nada que possa provocar a imaginação, enriquecer a percepção e a sensibilidade do espectador infantil ou juvenil, ou estimular seu senso crítico e sua reflexão.
3. A falta de uma dramaturgia também se evidencia no caso – que infelizmente ainda existe – de textos que insistem em manter uma postura doutrinária ou moralista, em que uma trama ou narrativa banal, sem um mínimo de inventividade e de originalidade, é mero pretexto para uma “mensagem” ou “moral da história”, em que a relação adulto / criança (ou jovem) é ainda uma relação autoritária, vertical, manipuladora, que as trata como “massa de manobra” oca e moldável, a ser normatizada e dirigida. O que é evidente no caso de espetáculos que provocam ou instigam a platéia infantil a uma gritaria de macacos de auditório de TV, ou de animação de festinhas de aniversário. Ou no caso do que há de pior no teatro infantil: os produtores caça-níqueis, com suas montagens de cunho marcada ou exclusivamente comercial, que vêem nas crianças apenas uma clientela mercadologicamente compensadora, na qual acham que vale a pena “investir” - até com uma produção às vezes dispendiosa ou visualmente rica.
4. Menos grave, mas mesmo assim ainda merecedora de atenção, é a falta de elaboração e/ ou de um domínio da expressão: assim como são equivocados um “tati-bitati” e/ou trejeitos, a fala infantilizada, os gritinhos supostamente infantis, é falha paralela também seu avesso, ou seja, o uso de termos, expressões, ou até idéias, pensamentos e visão que fazem parte da experiência adulta – o que se revelou freqüente no caso de adaptações de contos / narrativas já existentes, que estavam previamente direcionados pelos autores a um público adulto.
Porém, felizmente, a busca de uma (nova) dramaturgia também se fez sentir – até mesmo naqueles que se dizem ou se sentem comprometidos com uma indefinida “contemporaneidade”. As tentativas mais relevantes que vimos se mostram:
1. Em termos de renovação / inovação temática. Como dado mais auspicioso, no caso, um humanizador resgate de elementos esquecidos ou desqualificados por esta racionalista “civilização ocidental cristã”: o imaginário, a fantasia, a afetividade, o lirismo e um humor lúdico e crítico, muito próximo, por vezes, da visão crítico-cômica da cultura popular. Aliás, repetiu-se neste ano um fato que eu já havia registrado em outros festivais e concursos: a ligação com a cultura popular, na pesquisa / adaptação de narrativas de diferentes raízes (indígenas, ibéricas, afro) ; ou no apelo ao folclórico, tomado como ponto de partida e com resultados tanto mais felizes quanto mais lhe foram acrescentados elementos novos e criativos capazes de fazer emergir sua teatralidade; ou de uma escrita cênica pautada nos folguedos populares e incorporando, por vezes de forma inventiva e inovadora, seu humor, sua inversão de foco/ visão da realidade, sua síntese narrativa – mesmo que às vezes correndo o risco de assim reproduzir também os preconceitos de uma visão tradicional e conservadora.
2. No uso da narrativa e resgate da palavra em sua oralidade e valor expressivo. Não cabe aqui a discussão da intertextualidade, ou do duplo, ou do falar simultaneamente em 1ª e 3ª pessoa que marcam a literatura (e não só dramática) contemporânea. Mas a inserção de traços narrativos, ou o trabalho com a narrativa oral cênica foi uma das tendências mais marcantes. O melhor ou o pior resultado, no caso, ficou visivelmente ligado à capacidade de entender o que é uma linha de ação dramática e o que são os aspectos narrativos da ação, ou seja, de não abandonar os recursos efetivamente dramáticos e cênicos. Do que vimos, quando o projeto de encenação se sobrepôs ao texto, em vez de a ele se in-corpo-rar organicamente, a dissociação entre ambos acabou desvalorizando o texto – que assim perde seu potencial poético, mítico, mágico, mas não favorece sequer a encenação, ou seja, com prejuízo para ambos. O mesmo se dando no caso contrário, isto é, quando se enfatiza uma oralidade centralizadora, “literalizando” toda a estrutura e esquecendo que teatro é re-present-ação, isto em uma ação que se faz presença (no ator/ personagem) e presente (no tempo) e não simples “ilustração”, com a figura do ator, de cenas “contadas” ou descritas.
3. Na incorporação / fusão de diferentes linguagens, ora gerando um espetáculo multimídia (com projeções, vídeos, desenho animado); ou com inserção de técnicas de animação ( bonecos / atores), de técnicas circenses; ou com a dança, a música, a linguagem gestual /corporal como elementos ativos da expressão; ou fazendo do ator um performer, centrado em sua presença física e autobiograficamente estabelecendo uma relação pessoal e direta com os objetos cênicos e a situação em foco.
Mas, por tudo que vimos, uma conclusão se tornou possível e necessária: os melhores espetáculos foram aqueles em que
- um bom texto, com uma carpintaria geradora de boas possibilidades cênicas;
- com um adequado domínio da língua – não só em termos de sua correção ou da adequação à criança, mas de criatividade da expressão;
- com uma temática sugestiva, não só enquanto idéia ou assunto, mas na própria forma de seu desenvolvimento,
deram a encenadores e intérpretes um alicerce sólido para um desses trabalhos que são um presente para o espectador de todas as idades.
Enfim, os Festivais, Mostras e Concursos continuam sendo uma excelente panorâmica da produção para a criança e o jovem. Se o resultado final não apresentou um todo acabado e homogêneo, e sim irregular e díspar, nem por isso essa diversidade deixa de ser significativa, de revelar uma viva inquietação – sempre mais saudável que a apatia, o “vale-tudo”, ou o massificador comercialismo barato ainda presentes em nossos palcos.
Maria Helena Kuhner é a criadora e organizadora do Catálogo brasileiro de dramaturgia com link neste blog – acesse.