CONTRIBUIÇÕES DA ESTÉTICA DA RECEPÇÃO PARA LEITURA DO TEXTO DRAMÁTICO NO ENSINO

Tania Cristina Kaminski Alves Assini


RESUMO: Este texto apresenta um estudo bibliográfico sobre a Estética da Recepção e o método recepcional, a fim de verificar a viabilidade desta abordagem para a leitura dramática do texto teatral em contexto de sala de aula no Ensino Fundamental. Considerando as Diretrizes Curriculares da Educação Básica de 2009, o estudo da Estética da Recepção apresenta-se como relevante, na medida em que contribui para a prática da leitura dramática do texto teatral, ampliando as perspectivas de leitura dos alunos.


PALAVRAS-CHAVE: Texto dramático, Estética da Recepção, sala de aula.


ABSTRACT: This text presents a bibliographic research on the Aesthetics of Reception and the Reception method, aiming at examining the feasibility of this approach for the dramatic reading of the theatrical text in the school context of Elementary Education. Considering the state curriculum guidelines for Basic Education in Paraná, from 2009, the study of the Aesthetics of Reception seems to be relevant since it contributes to the practice of dramatic reading of the theatrical text, broadening the students’ reading possibilities.


KEYWORDS: Dramatic text, Aesthetics of Reception, classroom. Este texto apresenta uma reflexão sobre a Estética da Recepção e sobre o método recepcional no processo de condução do trabalho com a leitura dramática do texto teatral com alunos do Ensino Fundamental. A Estética da Recepção apresenta-se como relevante, na medida em que pode trazer contribuições importantes para a prática da leitura dramática do texto teatral em contexto de sala de aula, ampliando as perspectivas de leitura dos alunos, entendimento que justifica a presente pesquisa. O presente trabalho pretende desenvolver um estudo bibliográfico sobre a Estética da Recepção e reflexões sobre a viabilidade desta abordagem para a leitura dramática do texto teatral em contexto de sala de aula, tomando-se como pressuposto teórico o método recepcional, traduzido no Brasil por Bordini e Aguiar (1993), a partir da abordagem de teóricos alemães da escola de Constança, como Hans Robert Jauss (1979), Roman Ingarden (1965), Wolfang Iser e Karlheinz Stierle (1979), entre outros. Os teóricos da Escola de Constança entendem o processo de efetivação da recepção como interação do leitor com o texto, o que remete a questão de como atua a arte sobre o leitor ou sobre outro público, como a platéia, no caso específico do texto dramático.

Considerando que as Diretrizes Curriculares da Educação Básica de 2009 - documento que apresenta estratégias que visam nortear o trabalho do professor e garantir a apropriação do conhecimento pelos estudantes da rede pública - tratam o texto dramático como aspecto complementar dos elementos formais do teatro, capaz de oportunizar aos alunos a análise, a investigação e a composição de personagens, de enredos e de espaços de cena, permitir a interação crítica dos conhecimentos trabalhados com outras realidades socioculturais e ainda formar platéia fazendo com que o aluno compreenda e valorize as obras teatrais como bens culturais. Nesse sentido, o estudo da Estética da Recepção é relevante, na medida em que amplia as perspectivas de leitura dos alunos e promove condições para formação de leitores.

Apesar de as teorias de Hans Robert Jauss (1979) não focalizarem diretamente a leitura do texto dramático, mas a literatura de forma geral, adotam-se as abordagens da Estética da Recepção para tratar do processo de leitura do texto dramático, considerando-se o gênero dramático em sua textualidade e as práticas de leitura, interpretação e relação texto leitor, tais como as práticas requeridas em outros gêneros literários. Assim, considera-se que as teorias sobre a recepção do texto que se orientam pelo aspecto recepcional valorizam a figura do leitor, por extensão do público/platéia. Valorizam, sobretudo, o ato da leitura, ou o momento de contato com o texto dramático, como sendo importantes para a caracterização do fenômeno literário ou artístico.

Apesar da relação entre leitura e literatura, o campo dos estudos literários só passou a tematizar a leitura de forma sistemática a partir da década de 1960. Isso porque houve um redimensionamento das noções de autor, de texto e de leitor. A partir de então, o autor não é mais considerado o dono do sentido do texto, pois não pode controlar o(s) sentido(s) que o leitor dá à sua escrita. O texto, por sua vez, deixou de ser mera organização linguística que transmite pensamentos, informações ou idéias de quem o produziu, isso em função da ênfase dada à relação da linguagem com a sociedade. Para os teóricos da Estética da Recepção, o leitor é considerado elemento fundamental no processo da leitura. A interpretação que este dará ao texto lido estará vinculada à sua experiência de vida e à sua experiência como leitor. Assim, para a Estética da Recepção, o leitor e suas experiências de leitura, sua experiência de mundo, enfim, toda sua relação com o texto escrito servirão como base para se repensar o fenômeno literário e a história da literatura, pois “a historicidade da literatura não repousa numa conexão de ‘fatos literários’ estabelecida post festum, mas no experimentar dinâmico da obra literária por parte de seus 3 leitores”. (JAUSS, 1994, p. 24). Neste sentido, o autor entende que a obra configura-se como um objeto variável, que tem no leitor o observador capaz de dar-lhe uma feição não apenas dinâmica, viva, mas também responsável por seu caráter de transformação, que pode mudar de acordo com o tempo, com o espaço e com as diferentes leituras que podem livrar a obra, dando-lhe uma feição sempre renovada. De forma que: “o significado da obra literária é apreensível não pela análise isolada da obra, nem pela relação da obra com a realidade, mas tão só pela análise do processo de recepção, em que a obra se expõe, [...] na multiplicidade de seus aspectos.” (STIERLE, 1979, p. 134). A teoria da recepção, assim se efetiva como uma teoria dos pontos de vista relevantes da recepção e de história. Na perspectiva da Estética da Recepção “a obra é um cruzamento de apreensões que se fizeram e se fazem dela nos vários contextos históricos em que ela ocorreu e no que agora é estudada” (BORDINI e AGUIAR, 1993, p.81). O sistema literário, fechado e definitivo como simples objeto escrito, no contato com o leitor abre-se para um mundo histórico extratexto em diálogo com uma memória de outros textos. Para os alemães da Escola de Constança, a recepção é concebida “como uma concretização pertinente à estrutura da obra, tanto no momento de sua produção como no da sua leitura, que pode ser estudada esteticamente, o que dá ensejo à denominação da teoria de estética da recepção” (BORDINI e AGUIAR, 1993, p. 82). No ato da leitura o leitor constrói as diversas perspectivas oferecidas pelo texto, realizando adequações, negando ou reelaborando o processo de compreensão e de interpretação. Para Roman Ingarden, a concretização ocorre no ato da produção e no ato da leitura, através do preenchimento e atualização, pelo escritor ou pelo leitor, “de pontos de indeterminação e de esquemas potenciais de impressões sensoriais” (INGARDEN, 1965, p. 47), contidos na obra. E o trabalho artístico do criador transforma-se em objeto estético do leitor. Teóricos como Wolfang Iser e Karlheinz Stierle (1979) se referem à concretização como o fato do preenchimento criativo, pelos leitores, das lacunas de sentidos trazidas pelo texto. O leitor dialoga com o texto. No ato da leitura, encontram-se os quadros de referências ou horizontes históricos do leitor e do texto, às vezes defasados ou diferentes, que precisam fundir-se para que haja a comunicação. Ao refletirmos sobre o texto dramático e sobre sua recepção é importante considerar os elementos da historicidade do texto e dos leitores/platéia. As proposições de Jauss podem ser adaptadas com relação à recepção do texto dramático em contextos de formação de leitores, considerando-se a importância do diálogo entre História e Arte:


[...] se deve buscar a contribuição específica da literatura para a vida social precisamente onde a literatura não se esgota na função de uma arte da representação. Focalizando-se aqueles momentos de sua história nos quais obras literárias provocaram a derrocada de tabus da moral dominante ou ofereceram ao leitor novas soluções para a casuística moral de sua práxis de vida – soluções estas que, posteriormente, puderam ser sancionadas pela sociedade graças ao voto da totalidade dos leitores –, estar-se-á abrindo ao historiador da literatura um campo de pesquisa ainda pouco explorado. O abismo entre literatura e história, entre conhecimento estético e o histórico faz-se superável quando a história da literatura não se limita simplesmente a, mais uma vez, descrever o processo da história geral conforme esse processo se delineia em suas obras, mas quando, no curso da ‘evolução literária’, ela revela aquela função verdadeiramente constitutiva da sociedade que coube à literatura, concorrendo com as outras artes e forças sociais, na emancipação do homem de seus laços naturais, religiosos e sociais. (JAUSS, 1994, p. 57).


A discussão proposta pelo autor com relação à história e ao tratamento do texto literário pode ser estudado com relação ao texto dramatúrgico, tomando-se este como objeto de cultura e a leitura como processo de conhecimento. Por isso, a abordagem da Estética da Recepção propicia uma teoria instigante para o trabalho com a leitura dramática em contexto de sala de aula, uma vez que, para além dos processos de análises de textos, pode-se articular a presença dos elementos externos (históricos) no texto, o que amplia os processos de interpretação, não o compreendendo apenas como representação de um momento histórico, mas como uma força política atuante no âmbito das relações sociais. O autor reconhece a necessidade de se compreender a arte distanciando-se da fixação absoluta aos paradigmas da filosofia clássica e instaura uma rediscussão dessa problemática, reclamando uma concepção que considere na arte, também a sua práxis. Jauss coloca que ao longo dos tempos, o estudo da arte acabou afunilando-se e homogeneizando-se, pelo que passou a se entendê-la como “história da obra e respectivos autores.” (JAUSS, 1979, p. 44). Prendia-se, enfim, ao historicismo, insistindo no estudo da tradição autores-obras e interpretações, desconsiderando-se o papel do leitor no ato da interpretação e o efeito estético do texto sobre o leitor.


A experiência estética não se inicia pela compreensão e interpretação do significado de uma obra; menos ainda, pela reconstrução da intenção de seu autor. A experiência primária de uma obra de arte realiza-se na sintonia com [...] seu efeito estético, i.e., na compreensão fruidora e na fruição compreensiva. (JAUSS, 1979, p. 46).


Para o autor, há uma diferenciação entre experiência estética2 e interpretação do significado de uma obra, não estando aquela condicionada à busca pelo desvendamento das intenções do autor ao conceber a obra artística, mas é o resultado de um harmônico entrecruzamento de paradigmas, aos quais designa “compreensão fruidora e fruição compreensiva”. Para Jauss o caráter artístico de um texto é dado pelo efeito que o mesmo causa em seus leitores. Cabe à história literária articular “tanto a recepção atual de um texto quanto sua recepção ao longo da história” e cabe a ela, também, articular “a relação da literatura com o processo de construção da experiência de vida do leitor.” (JAUSS, 1979, p. 42). A valoração do caráter estético de um texto é efetuada por quem o recebe, no alcance ou na superação dos seus horizontes de expectativas. O conceito de horizontes de expectativa refere-se à “distância entre o horizonte de expectativa preexistente e o aparecimento de uma nova obra. [...]. Quando a distância se encurta e a consciência refletora já não é forçada a reorientar-se em direção ao horizonte de uma experiência ainda desconhecida, a obra aproxima-se do domínio da arte culinária ou de uma simples diversão" (JAUSS, 1979. p. 72). O horizonte de expectativa, conceito cunhado por Jauss, trazido pela nova obra transforma o horizonte de expectativas do leitor/público/platéia. Esse novo horizonte passa a ser o novo sistema histórico-literário referencial para as novas leituras. Para Jauss, reconstruir o horizonte de expectativa a partir do qual uma obra foi criada e recebida é fundamental na busca do seu sentido. Essa reconstrução permite compreender que o sentido que o leitor dará ao texto está atrelado ao processo histórico que o mesmo (o leitor) traz na consciência. O fato de Jauss (1979) propor um novo caráter, tanto estético, quanto historiográfico do texto dramático, o leva, também, a formular um novo conceito do que é a literatura e por extensão outras modalidades de textos artísticos, a exemplo do texto dramático. E essa definição se dá tendo em vista critérios estabelecidos pelos leitores/público no seu “experienciar dinâmico da obra literária”. A Estética da Recepção tem seu valor no sentido de ampliar o espaço para o trabalho com a literatura e com outros textos dramáticos, repensados como “categoria histórica e social e, portanto, em contínua transformação”, cujo movimento de transformação só ocorre com o acesso do público alvo aos textos. 2 A idéia de “experiência estética” pode ser compreendida como o processo de recepção e participação do receptor/platéia com o mundo artístico. Segundo Desgranges (2003) o sentir estético possui um caráter experiencial, fugindo do puramente conceitual. Não é só o nosso intelecto o destinatário dos objetos, das formas, mas toda a nossa pessoa é afetada no processo da recepção. Por meio das experiências estéticas vamos desenvolvendo uma atitude estética. “Formar espectador consiste em provocar a descoberta do prazer do ato artístico mediante o prazer da análise” (DESGRANGES, 2003, p. 173). 6 Considerando-se que o texto dramático pode ser concebido também como texto para leitura, firma-se a literatura dramática como componente importante na formação dos alunos e ampliação dos horizontes de expectativas dos mesmos. Desta forma considera-se o método recepcional como uma proposta produtiva para a inserção da leitura e para o acesso ao texto dramático em sala de aula. Hans Robert Jauss (1979) chama os quadros de referências de horizontes de expectativas, os quais englobam todas as convenções estético-ideológicas que possibilitam o ato da criação e da leitura de um texto, ou seja, todas as referências sobre práticas de leitura, diferentes gêneros, variadas interpretações que se encontram na memória do leitor. Por mais inovadora que uma obra possa parecer, sua existência é fundada em aspectos históricos que a precedem, e isto é fundamental para sua compreensão. Assim, aspectos da experiência humana funcionam como pano de fundo para a produção e para a compreensão da obra artística. A relação entre a compreensão prática do mundo e a compreensão da linguagem artística é um fundamental para se compreender a relação entre texto e leitor. Para que haja o crescimento do aluno em termos da expansão de seu horizonte de expectativas, em primeiro lugar, ele deve se disponibilizar a aceitar o contato com novas leituras. Para isso, é importante que conheça determinados conceitos, como: receptividade, disponibilidade de aceitação do novo, do diferente, do inusitado; concretização, atualização das potencialidades do texto em termos de vivência imaginativa; ruptura, ação ocasionada pelo distanciamento crítico de seu próprio horizonte cultural, diante das propostas novas que a obra suscita; questionamento, revisão de usos, necessidades, interesses, idéias, comportamentos; assimilação, percepção e adoção de novos sentidos integrados ao universo vivencial do indivíduo. (BORDINI e AGUIAR,1993, p. 88). O processo receptivo de leitura implica a participação ativa e criativa do leitor, sem afetar a autonomia textual. Quanto maior a distância entre os horizontes de expectativas do texto e do leitor, mais o texto servirá para trazer o novo a esse leitor. Bordini e Aguiar (1993) abordam que a linguagem existe somente quando há a convivência social entre indivíduos e, nessa convivência há a necessidade de intercâmbio. Através das trocas culturais o homem conhece a si e ao outro. Através do registro verbal, pelo código escrito, o texto “conserva a expressão do conteúdo de consciência humana individual e social de modo cumulativo” (BORDINI e AGUIAR, 1993, p. 9). No processo de leitura, o leitor entra em contato com manifestações sócio-culturais no tempo e no espaço histórico. 7 Daí advém uma ampliação de conhecimento que lhe permite compreender seu papel como sujeito histórico. Observam as autoras, que o processo de socialização do indivíduo, se faz, para além da interação pessoal, sobretudo, por meio da leitura, quando o leitor se defronta com produções significantes provenientes de outros indivíduos, por meio da linguagem escrita. Cabral (2009) trata da importância de investigar a recepção no campo do teatro, no contexto da formação do professor. A autora supõe que é uma mudança na ênfase da avaliação para a recepção que abrirá espaço para considerar a natureza individual e coletiva da experiência artística e examinar aspectos do papel do professor/diretor no processo de produção e recepção. A habilidade do professor para construir uma atmosfera estética e levar à experiência como conhecimento é um aspecto central do processo de ensino e aprendizagem. Os participantes não são confrontados diretamente com o texto, mas indiretamente, via o papel seletivo, enfático e estruturador do professor - similar ao do diretor de cinema e suas variações constantes da posição e do foco da câmera. (CABRAL, 2009, p. 2). Considerando o desinteresse dos professores em relação a apresentar e motivar práticas da leitura de textos dramáticos, Cabral (2009) inicia uma busca de metodologia, através da investigação por questionários, de novas formas para instigar e aproximar educador, texto e alunos. Os questionários podem auxiliar o professor na compreensão do material e das metodologias mais adequadas para o trabalho com a leitura do texto dramático com os alunos. O planejamento de uma unidade de ensino pautada do método recepcional deverá prever, num primeiro plano, clareza sobre as noções que envolvem: leitor, texto, situação de recepção, história de leitura dos alunos e posteriormente seguir as etapas do Método Recepcional, conforme especificadas em Bordini e Aguiar (1993). São elas: a) Determinação do horizonte de expectativas; b) Atendimento do horizonte de expectativas; c) Ruptura do horizonte de expectativas; d) Questionamento do horizonte de expectativas; e) Ampliação do horizonte de expectativas. De acordo com Bordini e Aguiar (1993), o professor efetuará a determinação do horizonte de expectativas da classe, para em seguida, propor estratégias de ruptura e transformação do mesmo. É importante respeitar os valores prezados pelos alunos, como: crenças, modismos, estilos de vida, preferências, preconceitos, interesses da área de leitura, 8 que expressam seus horizontes de expectativas. Para determinar o horizonte de expectativa da turma, podem-se usar técnicas variadas, como observação dos comportamentos, reações a leituras realizadas, expressão dos próprios alunos em debates, respostas a entrevistas e reações durante os jogos teatrais e de improvisação, entre outros. As autoras orientam que após detectar a familiaridade dos alunos quanto à literatura, o professor conciliará o horizonte de expectativas da turma com o conteúdo a ser trabalhado. Isso ocorrerá em dois sentidos, quanto ao objeto (o que os alunos lerão) e quanto às estratégias de ensino, que devem ser conhecidas dos alunos. Quanto à escolha do material literário, segundo as autoras, podem ser ofertados aos alunos, temas procurados por eles, objetivando torná-los participantes de suas escolhas para que possam ir experimentando diferentes textos com níveis variados de complexidade. Por exemplo, se a classe aprecia espetáculos de humor pela TV, o livro pode conter ou histórias humorísticas ou recursos de construção que causem riso, e assim por diante. Quanto às atividades, orientam Bordini e Aguiar (1993) deve-se optar por técnicas que satisfaçam os alunos visando a motivação dos mesmos para as práticas de leitura, tais como trabalhos em grupo posteriormente apresentados ao grande grupo, jogos teatrais e de improvisação, criação cênica, debates, brinquedos de roda, jogos competitivos. A etapa seguinte é a de ruptura do horizonte de expectativas através da oferta de textos e atividades de leitura que “abalem as certezas e costumes dos alunos.” (BORDINI e AGUIAR, 1993, p. 89). Os textos ofertados aqui devem se assemelhar aos anteriores somente em um aspecto: o tema, o tratamento, a estrutura ou a linguagem. Mas os demais recursos compositivos devem ser bem variados e cada vez mais complexos ou elaborados. Para melhor exemplificar, se na etapa anterior privilegiou-se o humor de cartum jornalístico, recriados após pelos alunos, na sequência, o professor deverá se utilizar de um novo texto que contemple o humor, mas em crônicas e sobre outro tema, de modo a variar gêneros textuais que tratam do mesmo assunto. Quanto aos temas, pode-se ampliar ou reduzirlhes a abrangência ou mantê-los e mudar o tratamento. Um assunto do cotidiano pode ganhar alcance social sem perder seu humor. O mesmo tema pode ser visto numa perspectiva mais racionalizada e depois comicamente e assim por diante. É importante inserir nessa etapa, textos mais complexos, tanto na abrangência do conteúdo, quanto na forma de composição. As estratégias de trabalho devem ser diferentes das anteriores e o aluno deve ser chamado a participar da escolha das mesmas. A proposta deve representar sempre um desafio por novos caminhos. 9 A próxima etapa será o questionamento do horizonte de expectativas. A classe faz uma análise do material estudado e decide os textos, a partir de seus temas e construções que exigiram um nível mais alto de reflexão e um maior grau de satisfação perante a descoberta de seus possíveis sentidos. A classe deve debater também sobre o seu comportamento perante os textos lidos, detectando: quais foram os desafios enfrentados, como superaram os obstáculos textuais, quais aspectos ainda oferecem dificuldades, quais as preferências quanto à temática ou outros aspectos literários, se houve transposição para a vida real de situações narrativas ou líricas, quais conhecimentos escolares ou vivenciais pessoais facilitaram o entendimento dos textos. A técnica para esse debate pode ser uma das formas de discussão participativa (pequeno ou grande grupo) aliada a um dos modos de registro de constatação (fichário, diário pessoal ou coletivo). A última etapa diz respeito às reflexões sobre as relações entre leitura e vida, é a ampliação do horizonte de expectativas. Ao término do trabalho, é possível que os alunos tomem consciência das alterações e aquisições que obtiveram através da leitura da obra literária ou dos textos dramáticos. É possível também que favoreça aos alunos condições para observarem que suas exigências são maiores, assim como sua capacidade de decifrar/ interpretar o que não é conhecido. Conscientes de suas possibilidades, é provável que busquem novos textos com temas e composição mais complexos que atendam suas expectativas agora ampliadas. Não se pode esquecer que para o aluno atingir tal estado de atuação é preciso: a) preparo do professor para selecionar textos referentes à realidade do aluno e também capazes de romper com ela; b) esforço, por parte do aluno, para que consiga desenvolver a capacidade de reflexão sobre a literatura, numa percepção estética e ideológica e uma visão crítica sobre sua atuação e a do seu grupo, tornando-se agente de aprendizagem que busca constante crescimento cultural e social. Bordini e Aguiar (1993) explicam que a valorização de um único objeto cultural, no caso a palavra escrita, no espaço escolar, faz com que sejam agraciadas as pessoas que a dominam, em detrimento das outras. Tal procedimento culmina em processos de dominação e de exclusão. Se todas as formas de expressão cultural são importantes, mas apenas uma é valorizada, é porque a mesma está sendo utilizada para transmitir o que convém pela classe que a domina. Neste sentido, é importante que as classes menos favorecidas tenham acesso a diferentes gêneros textuais, aqui em específico, o texto dramático, para que possam ampliar a compreensão sobre leitura como conhecimento, colocando-se o texto de teatro como um 10 objeto de cultura que deve somar-se ao lado de outros textos no processo de formação do leitor. Nesta perspectiva, a leitura propriamente dita se faz por meio da participação do leitor na construção dos sentidos lingüísticos, históricos e culturais dos textos. Como as palavras não apresentam um único sentido, ler também é escolher os sentidos mais adequados para cada palavra, conforme o contexto em que a mesma foi usada. No ato de ler, os sentidos não se esgotam nos conceitos, a plenitude da leitura do texto dramático se dá na concretização estética das significações. Ao dispor da abordagem da Estética da Recepção e do método recepcional, o professor de teatro, após identificar quais os interesses de leitura no grupo de alunos com que vai trabalhar, poderá atender-lhes os interesses de leitura, propiciar-lhes práticas de leitura que representem a realidade de forma mais abrangente e profunda para que ampliem seu universo cultural, na perspectiva do encontro com novos textos e novas metodologias para a prática da leitura. Segundo Bordini e Aguiar (1993), o professor juntamente com os alunos escolherá o material de leitura e as formas mais adequadas para abordá-lo. Para as autoras é importante trabalhar primeiramente as obras contemporâneas e de autores mais conhecidos dos alunos, para em seguida, orientarem os mesmos no processo de estudo de obras de autores menos conhecidos pelos mesmos, podendo ser estas obras contemporâneas ou do passado. Assim, o trabalho com o texto dramático torna-se dinâmico e prazeroso no processo de ensino e aprendizagem. A tensão entre o pólo do conhecido e o do desconhecido torna o ato de ler mais agradável e efetivo. Nesta abordagem, a leitura pode provocar prazer, pois funciona como um jogo em torno da linguagem, das idéias e das formas. Aproxima-se das atividades lúdicas em geral, pois se estrutura em torno de regras, emociona e diverte, sem oferecer vantagens materiais. O texto de teatro simula os conflitos do mundo, permitindo que se verifiquem propostas alternativas para a existência. Ao iniciar-se a leitura, a historicidade do leitor e do texto dramatúrgico vem à tona. O diálogo entre eles dependerá do grau de identificação ou distanciamento entre suas convenções sociais e culturais e da consciência que delas possuem. Para efetuar a leitura de uma obra que se distancia de seu horizonte de expectativas, o leitor deve assumir uma postura de disponibilidade, permitindo à mesma que lhe veicule novas convenções. O processo de recepção se completa quando o leitor elege ou não uma obra como componente de seu horizonte de expectativas. Quanto maior o número de leituras efetuadas, maior a propensão para a modificação do horizonte de expectativas. 11 Nas atividades de leitura, é importante privilegiar textos mais complexos, pois neles reside o poder de transformação de esquemas ideológicos passíveis de crítica, segundo os autores aqui estudados.


REFERÊNCIAS

BORDINI, Maria da Glória e AGUIAR, Vera Teixeira de. Literatura: a formação do leitor: alternativas metodológicas. 2 ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1993.


CABRAL, Beatriz A. V. A Estética da Recepção no campo da formação do professor de teatro. In: Anais do XIX Seminário de Iniciação Científica. Disponível em: . Acesso em 26/04/2010


DESGRANGES, Flávio. A pedagogia do espectador. São Paulo: Hucitec, 2003.


PARANÁ, Diretrizes Curriculares da Educação Básica do Paraná. Disponível em: http://www.diaadiaeducacao.pr.gov.br/diaadia/diadia/arquivos/File/diretrizes_2009/out_2009/ arte.pdf. Acesso em 30/06/2010.


JAUSS, H. R. A estética da recepção: colocações gerais. In: COSTA LIMA, L. (org.). A literatura e o leitor, textos da estética da recepção. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 43- 61.


JAUSS, H. R. A História da Literatura como provocação à Teoria Literária. São Paulo: Ática, 1994.


INGARDEN, Roman. A obra de arte literária. 3.ed. Lisboa: Calouste Gulbenkian, 1965.


ISER, Wolfang. A interação do texto com o leitor. In: JAUSS, H. R. et al. (Org.). A literatura e o leitor: textos de Estética da Recepção. Trad. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 83-132.


STIERLE, Karlheinz. Que significa a recepção dos textos ficcionais?. In: JAUSS, H. R. et al. (Org.). A literatura e o leitor: textos de Estética da Recepção. Trad. Luiz Costa Lima. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979, p. 133-181.