CONTOS DE FADAS ?
por Carlos Augusto Nazareth

O reconto é o próprio resgate da história do Homem. No entanto as pessoas que fazem estes recontos com competência e seriedade não são com certeza a maioria e estamos falando principalmente do teatro para crianças.
Adaptar já é, em si, uma arte. Ser absolutamente fiel ao texto e ao mesmo tempo absolutamente infiel, já que se trata de uma transposição de linguagens, caminha pelo fio da navalha.
Quando recontamos contos de fadas, não se pode perder de vista a essência deles, embora estejamos sempre atualizando a linguagem e a forma do contar – o que não significa colocar nenhuma madrasta falando com a fada-madrinha por celular.
Em seu texto de abertura do livro O Conto de fadas, Nelly Novaes Coelho faz uma reflexão que vale a pena ser aqui reproduzida.

“Não há dúvida de que estamos vivendo em um limiar histórico entre uma ordem de valores herdada da tradição progressista [...] e uma desordem em cujo bojo uma nova “ordem” está em gestação [...] É nesse limiar ou nessa fronteira que se situa o papel formador desses livros antigos. Portanto, longe de serem vistos como algo superado ou mero entretenimento infantil, precisam urgentemente ser redescobertos como fonte de conhecimento e de vida. E, nesse sentido, descobertos como auxiliares fecundos na formação da mente dos novos “mutantes” que já estão chegando e precisam ser preparados para atuar no amanhã que está sendo semeado hoje...[...]
E como fazê-lo? Como orientar hoje os novos construtores do mundo de amanhã? Um dos recursos é redescobrir a literatura arcaica, as palavras-de-origem (como os contos de fadas) e por meio dela refazer o caminha do ontem e estimular, ao mesmo tempo, o poder mágico que existe no próprio ser humano: o Conhecimento.
Esta é a função do conto de fadas hoje. Fonte de conhecimento do humano, portanto esse tesouro de conhecimento, mítico, simbólico, pleno de arquétipos, que fala do Homem e de sua Natureza, ao ser transposto para os dias de hoje tem que ser para o resgate do conhecimento neles contidos, além das sempre estimulantes histórias que trazem em seu interior estes conhecimentos.”

No entanto as adaptações teatrais dos contos de fadas, em sua grande maioria, têm prestado um des-serviço a esta visão tão lúcida de Nelly Novaes Coelho.
Os motivos são muitos.
Os pais não têm referência da qualidade do que está sendo levado nos teatros e também não estão muito preocupados com qualidade, mas sim com facilidade, distância, estacionamento, segurança.
Os produtores transformam os contos de fadas em verdadeiras peças de marketing valendo-se de uma série de “fórmulas” que já perceberam levar público ao teatro e fazer este público sair momentaneamente satisfeito do teatro – porém tão satisfeito como se tivesse ido ao Parque de Diversões, a uma festa de aniversário, ou simplesmente passear na praia.
No entanto, em princípio, deveria estar sendo oferecido a este público uma obra de arte. Mas muito pelo contrário; se produz um material de venda fácil. E para isto as fórmulas foram descobertas.
Em primeiro lugar os títulos das histórias, que já são velhas conhecidas dos pais, avós, bisavós que já fazem parte de uma cultura familiar.
No entanto, o titulo que usam, seja Cinderela, Branca de Neve, ou qualquer outro, só serve como isca para atrair o público. Evidente que crianças, pais, avós já ouviram estas histórias e o desejo de repetição desperta neles o desejo de ir rever sua velha e conhecida história.
No entanto, ao chegar ao teatro, assistem a colagens verdadeiramente assustadoras. Querendo reforçar a atração que os títulos dos contos de fadas exercem sobre o público, surgem aberrações como “Branca de Neve no País do Nunca”.
Sabemos que cada conto tem sua origem, cada conto tem seus significados maiores. Como juntar histórias tão diferentes? E porque juntá-las?
Os espetáculos montados, em sua garnde maioria, trazem ao palco cópia da estética que Walt Disney criou para os contos populares, açucarando-os e retirando deles todo e qualquer significado mais profundo, transformam as histórias em melodramas; as lágrimas, as músicas, que apelam para o emocional, a imagem sedutora que já começava, na década de 50, a se impor sobre as outras linguagens.
Utilizam os símbolos e signos que ficaram registrados na memória como a fada, o príncipe, a varinha de condão, mas sem o significado de Conhecimento que contêm e que trazem de suas origens míticas. São apenas apelos para a memória dos signos mais fortes registrados pelo público.
A fórmula do “sucesso” é uma junção de música açucarada, interpretações melodramáticas, humor escrachado, referências a fatos contemporâneos. Estes fatos fazem a crítica dos costumes contemporâneos, mas não cabem num conto popular, a não ser para angariar o riso fácil, principalmente dos pais, pois esta é uma preocupação. Sempre agradar aos pais, para que voltem a adquirir o produto. E os pais acabam achando que “teatrinho infantil” é aquilo mesmo.
Contos de fadas, sim, por que não?
Mas re-contos que destroem literalmente o conto de fadas, cria outra história e do original mantém apenas o título, alguns personagens centrais e um tênue fio condutor da narrativa é hora de acabar. Hora de se dizer basta, de se dizer não. E quem pode fazer isso são os mediadores, tendo um cuidado redobrado quando o espetáculo anunciado for uma história tradicional.
Pais e professores têm que ficar atentos a estas armadilhas, que, ingenuamente, caem.
Contos de Fadas, sim, quando o objetivo for o resgate deste conhecimento, o querer retomar tal ou qual questão, quando visto pela ótica da estrutura do conto popular de Propp, ou da leitura psicológica de Bruno Betlhem, mas jamais um produto enganoso que tem apenas o objetivo imediato de atrair público ao teatro, oferecendo a ele gato por lebre, para ficarmos no âmbito do popular.
No fundo, num tempo de maturação, a criança, embora tenha rido, batido palmas, gritado, pela excitação provocada pelo elenco e também pelos pais (sic), sai dali sem estar realmente com a alma plena de prazer que um produto artístico pode provocar, pleno da qualidade que seria o fator, segundo Stanilavsky, que faria a pessoa ter vontade de repetir a experiência de ir ao teatro.
Estes tristes contos de fadas não formam platéia, excitam e não divertem, enganam e causam um des-serviço ao teatro e à criança.
E somente mediadores atentos e bem informados podem interromper esta verdadeira “praga” que assola o teatro infantil, que não permite que novos textos sejam encenados, que novo público seja conquistado, que novos valores surjam e permitindo assim que se assente este tipo de produção-armadilha como uma fonte certa de ganhar dinheiro, enganando pais, professores e crianças e contaminando recontos impecáveis, que ficam mal-vistos, como mais uma produção caça-níqueis.
Os profissionais que lutam por um teatro de qualidade e que continuam lutando, precisam de espaço para informar pais e professores sobre teatro para crianças, sob o ponto de vista da Obra de Arte.

Bibliografia
COELHO, Nelly Novaes.O Conto de Fadas – símbolos mitos e arquétipos. São Paulo. Ed. DCL.2003.