Como realizar uma leitura dramática?


Um texto teatral antes de qualquer coisa conta uma história. Tem suas características próprias e pode ser lido como um outro texto qualquer, observando suas variáveis e especificidades.


Em primeiro lugar é fundamental conhecer a história, enquanto fábula. Situá-lo dentro de um contexto, visto através de diversos olhares. A que gênero pertence, discutir o texto enquanto textualidade, sua premissa, seu significado, sua ideologia. Sua qualidade literária.


Depois de o texto ter sido compreendido dentro deste viés de leitura, temos que observar as características peculiares do texto teatral.


Em primeiro lugar temos que ver que estrutura este texto observa. Se uma estrutura aristotélica, onde um conflito é desenvolvido com vetores que o favorecem e que o atrapalham, até chegar a um clímax, onde se resolve o conflito e então temos a solução; ou um texto circular, como D. Quixote de La Mancha, que é composto por cenas interdependentes, mas onde uma não é conseqüência da outra como na estrutura Aristotélica. Ou uma dramaturgia contemporânea, onde a fragmentação predomina, a falta de início meio e fim, mas sempre, acreditamos um fio narrativo conduz a história dentro de qualquer tipo de dramaturgia – aristotélica, circular, contemporânea escolhida.


Em seguida é necessário observarmos as cenas em que se dividem, sem usar o critério clássico de cena francesa. A cena francesa muda quando entra ou sai um personagem – diferentemente da cena do roteiro para cinema ou televisão onde a cena muda quando se muda de local, de espaço.


Sempre podemos optar a divisão de cenas, tomando CENA como um SINTAGMA, ou seja, um trecho da narrativa que se inicia se desenvolve e termina. Tenha várias ou nenhuma mudança de personagem ou local.


Cada um destes sintagmas, chamemos assim, tem uma função na história. Importante saber a função de cada sintagma no fluxo narrativo. Dentro do sintagma os personagens têm também uma função e um estado. Descobrir esta função de cada personagem dentro de cada sintagma e em que estado ele se encontra é de suma importância para a compreensão verticalizada do texto teatral.


Entender a seqüência narrativa, a função de cada sintagma, de cada personagem - clima e estado - vão fazer com que possamos realizar o que o teatro é a única Arte que permite isto. Resgatar aqui e agora fato ficcional ou real que tenha ocorrido em qualquer espaço ou tempo, possibilitando, assim, que se entenda dramaticamente (emoção + razão) a fábula, sua razão de ser, suas causas e conseqüências resgatadas no tempo.


Só depois deste entendimento, que pode ser feito através de debates, o que numa montagem profissional se chama trabalho de mesa, é que cada um pode se debruçar sobre seu personagem para verticalizar ainda mais seu entendimento, descobrir a relação entre eles, suas características básicas, suas mudanças e trejetporia, para conseguir dar vida a este SER REAL que conduzirá através de seus diálogos a fábula mostrada e não contada como na narrativa épica e deverem os também observar como ele se relaciona (contracena) com os outros personagens e como se desincumbe de suas funções enquanto condutor da narrativa através de seus diálogos.


A partir deste momento o grupo está pronto pra começar a leitura.


Jamais começamos uma leitura “interpretando”. O ator não interpreta. O ator é. O ator faz. Esta forma de expressar o personagem tem que vir da compreensão dele e do material que o ator tem - é seu próprio material, sua memória, sua observação, seus sentimentos, sua verdade, que ele empresta ao personagem que “vai tomando corpo”, nascendo, acontecendo até se tornar pleno e conseguir o mais importante do teatro – a contracena. Saber ouvir. Um dos momentos importantes do ator.


O ato de representar tem que acontecer todos os dias - todos os dias temos que resgatar a emoção verdadeira daquela cena, sob a pena de se cristalizar um mimetismo que não é a reprodução da paixão que move a cena, mas a imitação desprovida de qualquer emoção que repete mecanicamente o que já foi internalizado.


Ouvir faz parte do reagir que é a base da contracena, que mantém viva a história acontecendo ali e agora na frente do espectador, resgatando fábula e emoção, momento a momento, dia-a-dia e para isto o ouvir e reagir é fator fundamental – instaura a verdade cênica a partir da fé cênica que o ator possui.


A leitura dramatizada é uma encenação onde estamos privados apenas da ação física completa. Podemos ter um gesto, uma expressão facial, mas não a fisicalidade total, necessária para dar vida ao personagem e verdade à história. Quando em AÇÃO no palco. Portanto a fala, a voz, a entonação, a intenção, o subtexto têm que ser fortemente definidos para que tenhamos uma leitura viva e que permita ao ouvinte criar seu espetáculo em seu imaginário com toda a vivacidade como ele estivesse ali sendo encenado naquele momento.


A leitura dramatizada é uma forma de aproximação do teatro. Uma leitura dramatizada bem feita e bem conduzida pode conquistar um leitor e transforma-lo num espectador inveterado, mas mesmo sem se tornar um espectador ele passará por todas as emoções que um espectador passa ao ver o texto encenado.


Uma leitura dramatizada bem feita é capaz de ser tão prazerosa quanto um espetáculo, guardadas as suas respectivas origens, diferenças e similaridades - literatura dramática e teatro.


Carlos Augusto Nazareth