BALANÇO TEATRO INFANTIL 2005
Publicado originalmente no Jornal do Brasil de 28.12.2006 por Carlos Augusto Nazareth

O ano de 2005 foi difícil para o teatro infantil. As causas são muitas.
A escassez de patrocínio, que propicia o ressurgimento de produções de fundo de quintal e que acabam tomando a pauta dos teatros.
Os mediadores, pais e professores, que quase não têm indicadores sobre a qualidade dos espetáculos em cartaz, pelo restrito espaço na mídia.
As discussões sobre a qualidade em teatro para crianças que ficam limitadas à classe artística, sem possibilidade de se democratizar esta troca e envolver pais e professores.
Há também um certo descaso e uma visão às vezes distorcida do que seja um teatro de qualidade para crianças, por parte dos próprios pais e professores, que também têm dificuldades de obter informações concretas a respeito desta atividade.
Este quadro vem se arrastando há alguns anos. Corremos, assim, o risco de perder grande parte de nosso público futuro. O processo de formação de platéia fica totalmente prejudicado.
Nesta era cybernética, o teatro é um dos focos de resistência para que sejam desenvolvidas as qualidades do humano, do sensível, do artístico. E já nem cabe mais, hoje, qualquer discussão a respeito do consenso de a arte ser fundamental para a formação integral do ser humano e sabemos que, desde os gregos, já se considerava a infância um período fantástico para o aprendizado. É comum se dizer que o que se aprende, quando criança, fica de modo indelével na memória. E aprendizado aí é tomado no sentido amplo de “experenciação” de qualquer tipo de manifestação “da mente ou do espírito”, do racional ou do sensível.
Ficar lamentando a falta de público, a má qualidade dos espetáculos e outras mazelas não resolvem o problema. A questão é – o que fazer para que esta atividade se desenvolva e se torne um hábito, contribuindo, enquanto Arte, para a formação da criança?
Os espaços de discussão precisam se multiplicar, seja na mídia, ou no meio acadêmico, nos cursos de formação, pós-graduação, mestrado, doutorado. E esta é uma questão não só do teatro, mas da literatura infantil também. Há um único mestrado em literatura infantil no Brasil, que acontece no estado de Santa Catarina. Nos nossos cursos de graduação e mestrado em teatro, o teatro infantil é praticamente ignorado.
Ações que dependem de vontade política precisam ser desenvolvidas continuamente para que a médio prazo se consiga algum resultado, já que sabemos que, em educação e cultura, os resultados só começam a surgir a longo prazo.
Ações práticas como mais espaço na mídia, não só para crítica ou para divulgação, mas para que seja possível discutir estas questões, através de artigos, entrevistas. Realização de debates, workshops que envolvam profissionais da área e mediadores – pais e professores.
Patrocínios voltados para este segmento da produção teatral, prêmios que diferenciem os profissionais e os trabalhos de mais qualidade auxiliando o público a começar a identificar qual o espetáculo mais indicado para levar a criança.
Algumas ações importantes aconteceram em 2005. Continua se expandindo o projeto SESC CBTIJ, que leva teatro aos locais mais distantes do centro nervoso do Rio, o Centro de Referência do Teatro Infantil promoveu seu III Encontro de Linguagens, apresentando inúmeros espetáculos e promovendo mesas de debates, a FUNARTE manteve o Prêmio Nacional de Dramaturgia. Nosso teatro para crianças, através da companhia de Ana Barroso e Mônica Biel, com seus já conhecidos clowns Lasanha e Ravióli, esteve no Canadá, representando com total sucesso o Brasil, num encontro internacional, tendo obtido excelentes críticas dos jornais europeus. Outros grupos têm viajado para Cabo Verde e outros países.
É importante lembrar que toda esta discussão gira em torno do teatro realizado na zona nobre da cidade. É fundamental, no processo de formação de platéia, a interiorização da atividade teatral, a inter-relação Arte-Escola, sem ranços didáticos ou pedagógicos, o possibilitar a ida ao teatro de pais e professores.
A faixa etária do público infantil que freqüenta o teatro, hoje, vai dos poucos meses de idade até quatro ou cinco anos. Onde está o público infantil de seis a nove anos? Há uma defasagem entre a procura de espetáculos teatrais infantis para um público de menor idade e uma oferta de espetáculos para um público infantil de faixa etária superior, que não está mais indo ao teatro.
Donde entendemos, também, que há a necessidade de se pesquisar, avaliar e diagnosticar o que acontece para que possamos ajustar o teatro infantil ao seu público, seja mais novo ou mais velho. Há muito a fazer pelo teatro para crianças e no teatro para crianças e, hoje, se temos alguns poucos bons espetáculos são daqueles que acreditam na arte, na criança e brigam com poucas armas contra as inúmeras adversidades, mas conseguem realizar um trabalho que dignifica o teatro infantil e que, por isso, precisam ser destacados.
A nomeação destes espetáculos pode vir a ser um balizador para pais e professores, responsáveis pela ida de seus filhos e alunos ao teatro.
E destes espetáculos que estiveram em cartaz em 2005, ressaltamos dez deles como os melhores da temporada.

DESTAQUES JB 2005

“Os diferentes”, do grupo Hombu;
“Infância”, de Karen Acioly;
“As aventuras de Robson Crusoe” , direção de João Batista;
“A aranha arranha a jarra, a jarra arranha o trava-língua” de
Demétrio Nicolau;
“Estação Drummond”, da Cia. De Teatro Medieval
“Mamãe como eu nasci”, de Antônio Carlos Bernardes;
“Uma história para Calibã”, direção de Beto Brown
“Um conto para Rosa”, direção de Nara Keiserman
“Quixote”, de Cláudio Sássil
"As novas molecagens do vovô", de Márcio Trigo
Queremos ainda destacar os trabalhos:
Atriz Josie Antello em “Estação Drummond”, onde faz o poeta menino;
Ator Eduardo Rieche, no difícil trabalho solo como Robson Crusoe.
Demetrio Nicolau e Karen Acioly com direções que se destacaram na temporada que ora termina.
Esperamos em 2006 ações efetivas, para que se reverta este quadro.

UM OLHAR SOBRE A INFÂNCIA

Para os gregos a infância é um período fantástico para o aprendizado. É comum se dizer que o que se aprende, quando criança, fica de modo indelével na memória.
A cultura grega tem a tendência de considerar a infância como uma fase privilegiada da vida humana.
Diferentemente da grega, a arte romana teve uma preocupação com a idade e com a criança pequena e em crescimento. Preocupação esta que só estaria presente na arte ocidental, durante a Renascença.
Vale lembrar que a primeira lei que proibia o infanticídio data de 374 DC..
Na Idade Média, o comportamento é marcado pela infantilidade entre todas as faixas etárias. Nota-se que não há um conceito exato de adulto e muito menos de criança.
Sendo assim, a infância se estende apenas até os sete anos. Nessa idade passa a ter acesso à língua escrita. O menino de sete anos é um homem em todos os aspectos, exceto na capacidade de fazer amor e guerra.
Nesta época não existia o mundo da infância, as crianças freqüentavam festas em que homens e mulheres alcoolizados se comportavam vulgarmente, sem pudor na frente dos menores.
Sintetizando, invisível era a palavra que definia a criança na Idade Média, sem dúvida uma diferenciação entre o mundo medieval e o mundo moderno.
Na modernidade, em culturas onde há diferença explícita entre o mundo adulto e o mundo infantil esses segredos são revelados às crianças na medida em que elas se encaminham para a fase adulta e quando se acredita que esses segredos sejam assimiláveis psicologicamente.
Um novo ambiente começou a tomar forma no século dezesseis como resultado do surgimento da imprensa e da alfabetização, surgindo uma nova definição do conceito de idade
Assim se chega a uma concepção de infância que reclama a necessidade de ser protegida dos segredos do mundo adulto, principalmente os sexuais e assim surge uma visão considerada moderna do sentimento de infância.
No entanto, para que a idéia de infância se concretizasse foi necessária uma mudança fundamental que ocorreu em meados do século XV, quando Gutenberg inventou a imprensa.
Assim, a nova idade adulta passou a excluir as crianças e estas, expulsas do mundo adulto, passaram a habitar um outro mundo, o mundo da infância.
Depois da invenção da imprensa os jovens para se tornarem adultos tinham que entrar no mundo letrado e para tal tarefa precisavam de educação. Diante disto a escola foi inventada pela civilização européia
O surgimento da escola provocou uma revolução profunda no próprio sentimento de família. Agora, esta não era mais responsável pela aprendizagem de suas crianças, pelo contrário, confiava à escola o papel de educar seus filhos.
Então, no século XVII as crianças foram se tornando sujeitos de respeito, especiais. Com natureza e necessidades diferenciadas, separados e protegidos do mundo adulto.
No século XVIII se difundiu dois conceitos de infância. Uma onde a criança era vista como uma “folha em branco” a ser preenchida a caminho da maturidade. Tudo se constituía num processo de desenvolvimento do aprendizado, nada importando o biológico. Por outro lado a visão romântica concebia a criança como importante em si mesma, um cidadão em potencial. De natureza sincera, curiosa, espontânea, não deveria ser castrada pela educação.
No final do século XIX, estabelece-se uma discussão que fundamenta até os dias de hoje os debates sobre a infância. Por um lado se defendia que a criança não era uma tabula rasa, devendo-se levar em conta as exigências feitas pela sua natureza, pois do contrário poderiam ocorrer disfunções de sua personalidade.
Ao mesmo tempo Freud afirmava que as primeiras interações da criança como o meio eram decisivas para determinar o tipo de adulto a ser formado.
O primeiro sustentava, assim como Rousseau, que a mente da criança não é uma tábula rasa, devendo levar em conta as exigências naturais desta, pois, caso contrário, ocorreriam disfunções na personalidade. Ao mesmo tempo, Freud confirma Locke, afirmando que as primeiras interações da criança com o meio são decisivas para determinar o tipo de adulto a ser formado, encontrando na razão um meio de controlar e sublimar as paixões da mente humana. Da mesma forma, mas num âmbito filosófico, Dewey afirmou que as necessidades psíquicas da criança devem ser entendidas a partir do que a criança é e não do que ela será. Apenas com a identificação dos instintos e necessidades reais da infância, a disciplina e a cultura da vida adulta virão na época devida.
Dewey afirmou que as necessidades psíquicas da criança devem ser entendidas a partir do que a criança é e não do que ela será. Apenas com a identificação dos instintos e necessidades reais da infância, a disciplina e a cultura da vida adulta virão na época devida.
A criança passou a ser entendida como possuidora de suas próprias regras de desenvolvimento, sua própria natureza, desenvolvidas no meio que em interação com o meio sócio-familiar e que estas características próprias, inerentes, inalienáveis não devem ser reprimidas com o risco de não se alcançar uma maturidade plena, adulta

O desaparecimento da infância

Através dos meios de comunicação, a informação chega a todos de maneira indiscriminada e simultânea; portanto, percebe-se que a mídia eletrônica não retém qualquer tipo de segredo. Explicita-se aqui o motivo pelo qual a infância torna-se ameaçada perante este contexto: os segredos são inexistentes. Como dito anteriormente, o segredo é um pré- requisito para que exista a infância. Na Idade Média não havia meio de contar com a informação exclusiva para os adultos; portanto não havia diferenciação no nível de conhecimento e, conseqüentemente, não havia infância. Contudo, na "Era de Gutenberg", surge este meio, enquanto na "Era da Televisão", ele se dissolve.
Isto posto, infere-se que tanto a autoridade do adulto quanto a curiosidade da criança perderam o espaço, pois é nos segredos que as "boas maneiras" e a vergonha estão instaladas. Estamos à frente das mesmas condições presentes no século XIV, quando nenhuma palavra era considerada imprópria para a percepção audível de um jovem.
Como visto, a infância é um evento social, pois está condicionada ao "olhar" da cultura e de um determinado momento histórico. Deve-se considerar, também, para essa conceituação, o fator econômico, uma vez que a infância perpetuou-se, de fato, apenas no momento em que uma idéia de classe média em ascensão pôde sustentá-la
A linha divisória entre a infância e a fase adulta criada pela prensa tipográfica foi apagada pela televisão. A cultura livresca criou um novo modo de pensar adulto firmado em um progresso gradual e cumulativo de conhecimento, em contrapartida, a cultura predominantemente visual e imagética permeada pela linguagem oral que a televisão traz em seu bojo, permite com que as crianças tenham acesso ao mundo que antes era considerado impróprio a elas. Assim, antes mesmo da criança aprender a ler e a escrever, a mídia televisiva já terá escancarado o universo do adulto, que antes se constituía em algo a ser desvendado aos poucos, acompanhando o crescimento da mesma.
Atualmente, o conceito adulto-infância está bastante confuso, sem fronteiras. Nota-se que brincadeiras de rua, jogos, brinquedos manuais, já não são mais alvo de interesse de nossas crianças ou então não estão disponíveis as mesmas. O vestuário infantil confunde-se com o do adulto: crianças vestem roupas sensuais, salto alto, usam maquiagem e acessórios exagerados; enquanto adultos querem prolongar a adolescência, vestindo-se de forma apropriada a este período
A partir dessas considerações, parece que a concepção de infância dos dias de hoje é semelhante à da Idade Média, quando a criança era concebida como um adulto em miniatura.
Nesse sentido, mais particularmente, a noção de individualidade é que faz com que a criança seja entendida, assim como visto nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil (1998), como um "sujeito de direitos", um ser uno, indivisível, curioso, dotado das melhores potencialidades da espécie e que deve ser respeitado, pois se encontra num momento de formação da personalidade e dos valores morais. A criança passou a ter uma identidade e constituiu-se em alvo de atenção e respeito.
É essencial destacar que o sentimento de infância geralmente é muito mais presente nas famílias dotadas de maior poder aquisitivo.
Afastando as crianças das brincadeiras e da vida escolar, o trabalho infantil é um velho conhecido que ainda se encontra na pós-modernidade. Está presente no cotidiano tanto dos menos quanto dos mais favorecidos economicamente, claro que de maneira diferenciada. Enquanto uma minoria, geralmente oriunda de famílias um pouco mais privilegiada economicamente, trabalha atuando na televisão, nas passarelas, e até mesmo junto aos pais em seus negócios; a maioria das crianças, advinda de camadas desprivilegiadas da sociedade, trabalha em atividades penosas fisicamente.
Estas duas formas de trabalho prejudicam a criança, que é privada de se desenvolver dentro dos limites de suas potencialidades
A infância está cercada de inúmeras ameaças. Neil Postman defende que a infância está desaparecendo.
E é diante desta infância ameaçada e de tão difícil definição que a Arte atua e tem papel preponderante, mas para isso é necessário que mais que nunca se conheça a criança hoje. Suas necessidades, anseios e carências. Seu real e seu imaginário.
Através da arte tocamos o sensível. Através do drama tocamos o sensível e o lógico. A possibilidade de construção e reconstrução se faz aqui e agora no contato com a Arte, e com a Arte dramática o repensar é mais amplo, porque drama é a interação do sensível com o lógico.
Bibliografia:
In, Revista Sul Americana de Filosofia e Educação (resumo)
ARIÈS, Philippe. História Social da Criança e da Família. Rio de Janeiro: LTC, 1981
BRAYNER, Flávio. Da Criança-cidadã ao Fim da Infância. In: Educação e Sociedade,
KOHAN, Walter Omar. Filosofia para Crianças. Rio de Janeiro: DP&A, 2000. Coleção (O que você precisa saber sobre).
POSTMAN, Neil. O Desaparecimento da Infância. Rio de Janeiro: Graphia, 1999
RUSSEFF, Ivan. A Infância no Brasil pelos Olhos de Monteiro Lobato. In: FREITAS, M. C. (org.). História Social da Infância no Brasil. 2 ed. São Paulo: Cortez, 1999.

O ESPAÇO DA CRÍTICA
Afinal, o que é o espaço da critica ? Para que serve? Qual a sua função? Perguntas muitas vezes feitas; perguntas geralmente sem respostas, pois dificilmente se reflete sobre elas, embora sempre se reivindique a presença da crítica nos órgãos de imprensa.

A palavra crítica, num senso comum passou a ser utilizada e entendida como um comentário negativo sobre determinado fato, ação ou outra expressão qualquer do humano.
Etimologicamente critica (do grego kritikós) significa: arte ou faculdade de julgar produções de caráter literário, artístico. Apreciação. Sempre pensamos na critica com esta conotação – apreciação – claro que traz, subsidiariamente, um julgamento de valor implícito, mas é exatamente este julgamento de valor objetivo, enquanto técnico, subjetivo, enquanto arte que gera a possibilidade de discussão do processo de criação do resultado artístico apresentado e que cria o espaço de reflexão.
É necessário que, antes de qualquer coisa, se pense sobre a função da crítica. Sobre a possibilidade que ela oferece de se discutir o fazer artístico, de proporcionar uma troca entre criador e receptor.

“Eu, como criador, vejo como minha obra foi recebida, repenso, revejo, concordo, discordo, mas vou ser obrigado a olhar para a minha obra, para o meu umbigo, com o olhar do outro."

E o crítico - que receptor é este? Uma pessoa, antes de tudo e também um especialista, com prática e vivência daquela expressão artística – pelo menos este deveria ser o crítico especializado - que emite sua opinião, num determinado dia, sobre uma determinada apresentação, de uma determinada manifestação artística, com todo o cuidado e respeito que merece todo e qualquer criador, ou todo e qualquer ser humano, justificando ou expondo o porquê desta ou aquela visão sobre a matéria em questão.
O subjetivo é matéria do julgamento de valor. Por mais que se analise tecnicamente uma obra de arte, o imponderável da arte, ali presente, suscita a imponderabilidade de quem assiste e tem que emitir uma opinião sobre aquilo que vê.
E que opinião seria essa? A tão decantada visão externa, isenta – se é que algo que vem do ser humano e que seja expressão do humano e do artístico, que seja “ expressão da alma” , possa ser isento.
Uma opinião, diríamos nós, de quem não vivenciou o processo, que não está toldado pela paixão do ato criador que, inevitavelmente, prejudica a capacidade de análise distanciada daquilo que cria.

“Eu crio, portanto ali eu estou. Portanto olhar minha obra com olhar isento é me ver com um olhar externo de mim mesmo, tarefa sobre-humana, quase impossível. Esta tarefa cabe ao outro. E aqui, no caso, o outro é o crítico”.

E esta opinião é isenta e justa? Evidentemente que não. Justa? Há uma análise do que está sendo mostrado, mas não um julgamento que condena ou absolve o produto artístico. Este é imune a este tipo de julgamento que absolve ou condena. A opinião do crítico ou de qualquer um não é um selo de qualidade do Inmetro – que muitas vezes também falha.
Todas as formas de expressão são válidas, dignas, quando feitas com sinceridade artística. No teatro existem muitos teatros. Os nossos espectadores são multi-universos.
Aí se encontra o subjetivo. Analisamos uma expressão artística através de nossa visão do que seja arte, da função da arte, de nosso papel no mundo, na sociedade, a partir de nossa formação como indivíduos, de nossa formação acadêmica. E aí está a riqueza da crítica – da mesma maneira que um mesmo texto dirigido por mil diretores darão origem a mil espetáculos, a crítica feita por diferentes pessoas, por diferentes critérios, levam a diferentes conclusões. E corre-se o risco de sermos injustos? Sempre.
Yan Michalsky não quis que suas críticas fossem publicadas em livro, o que só ocorreu, após a sua morte, pois, numa análise posterior, acreditava ter sido magnânimo com alguns espetáculos e muito rígido com outros.
A crítica de uma obra de arte não é um exame da composição mineral de uma substância. A substância é a Arte e sua expressão – efêmera e eterna – contraditória.
A crítica não é uma complementação da divulgação de seu trabalho , a crítica não tem função específica de atestar qualidade a um espetáculo, embora, claro, possa fazê-lo subsidiariamente.
A crítica não é feita para ser apenas parte de um “press-release” para a venda de espetáculos. Criadores já disseram – “precisamos de uma boa crítica para podermos vender nosso projeto.” – nada mais equivocado.
Na verdade os produtores e divulgadores solicitam desesperadamente a presença do crítico, na verdade, desejam um elogiador. E quando a opinião do crítico não é a desejada, surge uma posição extremamente defensiva.
Quando o crítico elogia, ele passa a ser um mestre no assunto, um amigo, um acarinhador, quase mito, para aqueles que foram elogiados. Quando ele aponta problemas, ele passa a ser uma pessoa presunçosa, dono da verdade, que ,não entende nada da expressão artística que analisa.
De Deus a diabo na terra do sol.
Temos tão poucas possibilidades, tão poucos espaços para podermos discutir o fazer artístico que a crítica se torna uma das poucas possibilidades de diálogo. Diálogo sim, porque, como já dissemos, a crítica não é um atestado. Crítica é uma análise. Um questionamento. Uma pergunta. Uma dúvida. Uma proposta.Não pode ser unilateral. Para surtir efeito tem que ser lida com certa generosidade pelos criadores. Tem que ser ponto de partida, jamais de chegada.
Bárbara Heliodora disse, em entrevista, acreditar que a crítica é paternalista. Em relação ao teatro para crianças diríamos mesmo que ela é maternalista.
O criador tem como parâmetro seu próprio imaginário e repertório e o momento da criação é indizível, como diz Jean-Louis Ferrier: “O indizível – aí é que começa a arte”
Centrados em nossos umbigos, quando somos instados a olhar de fora para nossa criatura não aceitamos que se diga qualquer coisa sobre ela, que não elogios.
Este é o caminho mais curto para a estagnação.
A diversidade de opiniões é de suma importância. São necessárias muitas opiniões, divergentes, opostas, convergentes, para que se estabeleça uma saudável discussão.
Diz um antigo e conceituado crítico literário que o mais importante da crítica é provocar a discussão da obra de arte. Importante quando o criador não aceita a crítica, quando os leitores, uns concordam outros discordam - aí se instala o debate, a reflexão. A crítica, então, cumpriu sua tarefa.
Este é o caminho para sair da estagnação.
Precisamos de mais críticos, precisamos de mais opiniões, precisamos de mais espaço na mídia, nas universidades, na graduação, nos cursos de pós graduação, mestrados, doutorados, para discutirmos o teatro para crianças, precisamos de mais sinalizadores sobre a qualidade no teatro infantil – infantil, sim, por que não? Outra conotação pejorativa que se estabeleceu para essa palavra que representa um estado, na verdade de plena pureza e que precisa ser demolida.
Precisamos levar os mediadores, pais e professores para o teatro, para então podermos começar a formar platéia.
Os especialistas em literatura infantil dizem não haver criança leitora se não há pai leitor e professor leitor. O mesmo podemos dizer do teatro. Dificilmente teremos criança espectadora se não tivermos pais espectadores, professores espectadores.
E o teatro existe apenas na linha abaixo do equador – na zona nobre da cidade. Toda a discussão do teatro para crianças parte de uma amostragem reduzida, dirigida a uma elite. E teatro é uma expressão popular. A interiorização do teatro é fundamental, criar a possibilidade de acesso ao teatro é fundamental.
Vivemos um momento histórico-político-social de possibilidades de mudanças. O teatro para crianças não se aliena do contexto sócio-político, nem do Teatro, nem da Arte, nem da Cultura, mas cada um só pode cuidar do seu pedaço.
. E teatro para quê? Para provocar, fazer pensar, emocionar, entreter, dar prazer estético. Expressão ancestral do humano.
E refletir para quê? Para repensar, buscar caminhos, aceitar descaminhos, discutir probabilidades, buscar possibilidades – viver.
A critica é feita para fazer pensar, para abrir um espaço de discussão, de reflexão.
E a crítica, embora técnica, não é feita apenas para a classe teatral, tem que ter uma linguagem acessível ao grande público, que possa tomá-la como um dos muitos referenciais que deve buscar para a escolha do espetáculo teatral que deverá proporcionar ao seu filho ou aluno – é responsabildade do mediador.
A qualidade do teatro infantil cai a cada ano, isto é uma opinião unânime. Que contribuição a crítica pode vir a dar a este caminhar quase inexorável para espetáculos que, ao invés de formar platéias, afastam gerações das cadeiras do teatro ?
A crítica é um pequeno segmento de um amplo universo e que tem a fonação de trazer sua contribuição, se deixarmos nossos egos na gaveta, olharmos com um olhar de fora, repensarmos, refletirmos, concordarmos, discordarmos, buscarmos e nunca chegarmos ao espetáculo perfeito. Porque este, nunca estreou.
Na verdade a critica faz parte do Processo Criativo.(1) Em primeira instância, por seu criador, depois por conhecidos e, em última instância, por esse desconhecido, anjo ou demônio, feito de verso e reverso de uma mesma medalha: o critico - que não é o algoz que tem um prazer imensurável de falar mal daquilo que vê. Muito pelo contrário, ver a arte a qual se dedica ser bem realizada é tudo o que um crítico deseja. Tanto quanto o criador.

(1) O Processo Criativo
O Processo criativo acontece em varias etapas – incubação, descoberta, realização e por último, após um período hibernal, pelo qual deve passar a criatura, se chega à verificação.
Verificação
Este passo é a validação das idéias. Seu julgamento crítico, sua prova de viabilidade. As idéias que resolvem, de fato, o problema? São práticas sob um ponto de vista de aplicação? São possíveis de serem implementadas?
É perfeitamente natural que esta etapa venha ao final do processo, pois, caso se apresentasse antes, promoveria uma interrupção no fluxo do pensamento. Atitudes como "não é possível", "não dá para ser feito", "é caro", "é por demais complexo" ou mesmo um simples "não vai dar certo" são fatais durante as fases anteriores, mas não agora.
Ao fazer a revisão e avaliação das idéias, pode-se descobrir que um pensamento aparentemente absurdo pode conter uma sugestão para uma abordagem completamente nova a um problema importante. Uma idéia que a princípio pareceu forçada pode abrir caminho para o desenvolvimento de um novo produto.
As idéias brutas podem ser "buriladas" e lapidadas. Algumas serão descartadas, é claro, mas provavelmente muitas serão consideradas geniais.
Neste momento do processo, vale a participação de outras pessoas. Pergunte o que elas acham da sua idéia, como elas são visualizadas, se acham que são viáveis. "Deixe sua imaginação voar solta. Depois, coloque-a em execução aqui no chão":
Bruno Carvalho

A CRÍTICA DA CRÍTICA
Será que existem valores característicos do belo? Hoje, como pensamos Arte e valores estéticos? Qualquer objeto ou atividade pode ser detentora de uma função estética ? Será a sensação de prazer que se faz quando estamos diante de uma obra de arte? Prazer este que move a necessidade de repetição deste estado, o prazer estético, como afirma Peter Brook.
A crítica trabalha com o parâmetro da qualidade, evidentemente, e como disse Peter Brook a beleza de uma peça está na qualidade e na perfeição que o público é nela capaz de identificar.
A crítica precisa consubstanciar seus conceitos, a crítica não está ali apenas para dizer se é bom ou ruim – conceitos excessivamente subjetivos, está ali para, antes de tudo falar da qualidade da execução e da adequação de cada elemento referente ao todo. O espetáculo gera um conjunto matemático ao qual pertence e/ou não pertencem estes ou aqueles elementos, seja em que nível for.
“O texto é engraçadinho” não tem absolutamente nenhum significado, agora, e o texto é analisado a partir de parâmetros externos ou mesmo da construção e articulação interna de seus componentes, se apontamos onde possa estar havendo um problema, então sim, estamos iniciando um processo de discussão que pode redundar em crescimento.
O teatro é composto de inúmeras linguagens que se unem para mostrar, que tem função estética, catártica, questionadora, transformadora, política, social, lúdica, poética, entretenedora – expressão artística do homem, para o próprio homem, questionando o homem
“A arte é a expressão da consciência humana em uma imagem metafórica única”
Susanne Languer
Esta expressão se realiza através do conceito de trama, urdidura. O espetáculo teatral é um tecido composto da urdidura e trama de inúmeras linguagens: o texto, o ator – corpo, voz, interpretação, cenário, figurino, luz, música.
“O texto universal compor-se-ia por `textos da vida` e `textos da arte`...” Lotman e Uspenskij, 1973
O macro texto – o universo – seria composto por milhões de micro-textos que, interligados, o estruturam harmonicamente, obtendo um resultado único. Esta afirmação pode ser transposta para o teatro, construídos de inúmeras linguagens – narrativas – que compõe um texto maior, que se insere em escalas ascendentes em outros textos para compor um macro-texto, harmonicamente.
A partir daí podemos buscar alguns norte para a crítica. A busca da qualidade que provoca o desejo de repetição, como diz Peter Brook, a análise da qualidade de cada uma das linguagens ou narrativas em cena, a inter-relação entre elas, a adequação à proposta cênica, o resultado estético, o discurso que leve a uma melhor compreensão do mundo, a uma possibilidade de interpretação da vida, do mundo, e de si mesmo.
Um conceito básico de um bom personagem é aquele que tem um salto qualitativo no decorrer da trama. Talvez se possa tomar emprestado este conceito ao analisarmos um espetáculo – terá o seu espectador a possibilidade de dar um salto de qualidade como indivíduo e em sua postura no mundo depois de passar pela experiência mágica do teatro ?
Isto é teatro. E a crítica tem que estar atenta para sinalizar.