BACHELARD E A INFÂNCIA
por Sandra Regina Simonis

Na obra A poética do devaneio (1961), Bachelard apresenta uma filosofia ontológica da infância onde destaca o seu caráter durável. Por alguns de seus traços, a infância dura a vida inteira. É ela que vem animar amplos setores da vida adulta. Para o pensador francês, é preciso viver, por vezes é muito bom viver, com a criança que fomos, pois nos fornece uma consciência de raiz: toda a árvore do ser se reconforta. Os poetas nos ajudarão a reencontrar em nós essa infância viva, essa infância permanente, durável.
O próprio autor adverte, na introdução da obra, que não desenvolve uma psicologia da criança mas aborda a infância apenas como um tema do devaneio: “a memória sonha, o devaneio lembra” (BACHELARD, 1988b, p.20). Tema reencontrado em todas as idades da vida, pois Bachelard considera a infância como um momento na história do sujeito onde se formam e se armazenam as imagens primeiras, as imagens fundantes produzidas pelo encontro íntimo e vívido, sempre lúdico, com o fogo, a água, o ar e a terra.
Assim, a abordagem bachelardiana da infância realiza-se através de uma análise poética, pois o filósofo acredita que “existe um sentido em falar de análise poética do homem. Os psicólogos não sabem tudo. Os poetas trazem outras luzes a respeito do homem” (BACHELARD, 1988b, p.120), resgatando este momento vital como revelação da beleza que existe em nós, no mais íntimo de nossa memória.
Ao apontar a infância como um momento específico de vida “em que as correspondências de um sentido a outro se experimentam, se vivem, se gravam na consciência e sobretudo no inconsciente”(JEAN,1989,p.51), a obra bachelardiana contribui para a compreensão de que são nos encontros indeléveis através da ação criadora da mão no enfrentamento e reconhecimento de todas as consistências e resistências das matérias, que “as intimidades do sujeito e do objeto se trocam entre si” (BACHELARD, 1991,p.26), para extrair e sintetizar a lição das coisas, enriquecendo e ampliando experiências de aprendizagens.
Sua obra permite extrair que a ação lúdica, no âmbito das amplas possibilidades sensoriais de manipulação das diferentes materialidades, é ato de conhecimento, de um conhecimento baseado no fazer. Uma idéia bachelardiana recorrente é que este conhecimento material, assim como dos fenômenos da ciência, não pode ocorrer desde o exterior apenas, desde o mero ato de contemplar. Há que estar mergulhado com o corpo, penetrar na experiência mesma. Não é muito difícil entender as palavras do filósofo, pois sabemos que toda criança tem imenso prazer em “sujar-se”, jogar com a água ou fazer buracos, escavações na areia ou na terra úmida.
Portanto, para Bachelard, a ação de conhecer na infância é baseada no fazer. As qualidades sensíveis que a criança extrai da matéria não se devem apenas à percepção, mas muito a uma atitude lúdica de curiosidade e observação, uma vontade de investigar as provocações do mundo. A manipulação transformadora das matérias permite inúmeras possibilidades de sensações e criações. Esta ação investigativa é acompanhada de uma multiplicidade de imagens que se instalam no inconsciente e que depois o adulto, sobretudo através da mediação poética, recuperará amplificadas.
Em suas considerações sobre a mão sonhadora que usufrui as primeiras pressões construtivas, tentando antes surpreender os sonhos desta atividade manual do que o sucesso de uma mão hábil na repetição do modelo oferecido aos olhos, Bachelard interroga: “Crianças, éramos pintor, modelador, botânico, escultor, arquiteto, caçador, explorador. E o que aconteceu com tudo isso?” (BACHELARD, 1991, p.76). Éramos ao mesmo tempo artistas e cientistas experimentando o mundo e conhecendo nossa capacidade inventiva e força construtiva. A materialidade, pelos diferentes esforços que provoca no corpo infantil, torna-se fonte de instrução e informação do real insubstituível na constituição do pensamento imagético.
Bachelard nos aponta ao longo de sua obra dedicada ao estudo da imaginação material que esta aprendizagem é o esforço da infância. A criança reúne todas as possibilidades criadoras e inventivas quando constantemente desafiada pela matéria a agir e reagir. Este momento intenso de investigações materialistas, através dos jogos infantis de ficção e construção, ainda que em grande parte inconscientes, é o tempo da construção da imaginação, do armazenamento das imagens primeiras. Momento de conquistas pela sucessão e repetição do esforço e do sucesso imediato.
O filósofo nos adverte que trata-se de uma conquista e por ser “conquista é lenta. É a derrota que é breve. O desejo lentamente formado se desfaz num instante” (BACHELARD,1991,p.27). Conquista que é menos descoberta de algo oculto na materialidade do que invenção mesma da matéria, a partir das primeiras manipulações, às indagações (incertezas, o não sabido ainda) inconscientes infantis. O domínio desses gestos investigativos coincide com o momento criador em que a criança sente necessidade de dar uma finalidade – portanto uma forma – ao objeto cuja necessidade inventa.
Considero fundamental partir destas reflexões bachelardianas, pois ao interagirmos com a criança, com suas produções expressivas e poéticas, nos deparamos com este sentimento de “maravilhar-se” de novo, com esse momento prazeroso de criação e invenção. Neste instante dinâmico e mágico nos conectamos com a criança, entramos em sintonia e dialogamos com gestos, olhares, sons, palavras, ou com toda riqueza do silêncio pleno de compreensão da grandeza que significa o momento da primeira vez. “Horas há, na infância, em que toda criança é o ser admirável, o ser que realiza a admiração de ser” (BACHELARD,1988b,p.111), e nos admiramos de reencontrar em nós essa criança.
Interagir com o outro supõe acionar a complexidade da relação humana. Não é só a criança solitária naquele instante de descoberta e espanto. É o adulto tocado também em sua sensibilidade e capacidade de maravilhar-se naquele momento de aprendizado. Os profissionais da educação que desejam ser totalmente objetivos com suas palavras apenas correm o risco de perder uma relação essencial e viva com as crianças. Bachelard, o professor, é firme e claro: “crianças, nos são mostradas tantas coisas que perdemos o senso de ver. Ver e mostrar estão fenomenologicamente em violenta antítese” (BACHELARD, 1988b, p.122).
Cabe sublinhar que, na concepção bachelardiana, recuperar “o estado de infância” na idade adulta não significa em nenhum momento infantilizar-se. Muito menos, na ilusão de agradar e conseguir a confiança da criança, fazer-se passar por ela, imitando-a e falando freqüentemente no diminutivo. Trata-se de uma simplificação empobrecedora que bloqueia na criança suas possibilidades de raciocínio complexo. Bachelard nos desafia em sua obra “a assumirmos nossa infância a partir de nossa maturidade” (JEAN,1989, p.30). Nos desafia a compreendermos que respeitar o ponto de vista da criança significa aceitar questionamentos e reconhecer equívocos, a aprender que corrigir não significa humilhar, mas ratificar.
Buscamos cada vez mais considerar a criança como sujeito ativo e capaz e pouco consideramos seu pensamento imagético, metafórico. Desconsideramos seu poder de imaginar que vai muito além das palavras ao alcançar outros sentidos e significados não verbalizáveis de sua experiência. Respeitar a especificidade do seu momento de vida significa preservar seu ser poético, sua maneira poética de enfrentar o mundo e a si mesmo, sua forma singular de encontrar o outro, maravilhando-se ou horrorizando-se, e criar significados que ultrapassam o sentido único, na aventura de conhecer a si própria no ato de imaginar, interpretar e inventar a realidade.
A forma poética é o como da criança expressar e pensar o seu todo, seu jeito simultaneamente particular e universal de ser e estar no mundo, seu jeito singular e coletivo de falar do mundo como uma maneira de falar de si. Exatamente por estar desarmada de conceitos racionais, a criança estabelece uma relação direta com os objetos e o mundo que a cercam. Seu olhar torna-se um olhar primal, seduzido, encantado pela novidade. Nestes momentos, o poético configura-se como a forma infantil de perceber e expressar seu entorno. Por isto, para Bachelard, o poeta é aquele que preservou em si a maneira direta da criança. Em cada poeta há uma criança preservada no verbo. Na criança o poético é o mundo que se faz jogo, brinquedo, experiência.