AS MAZELAS DO TEATRO INFANTIL
por Carlos Augusto Nazareth

As mazelas do teatro infantil são muitas. No entanto não são “propriedade”
única do teatro para crianças. O teatro para adultos também não vem tendo uma fase das mais auspiciosas. As comédias leves, de um ou dois atores que fazem sucesso rápido e instantâneo e se vão, como peças de consumo dominam a cena.
Saudades de espetáculos como O último carro, Marat, Marat, O Balcão, de Plínio Marcos.
Saudades dos anos oitenta uma safra com espetáculos como Baal, um momento onde o teatro de diretor esteve em foco. Gerald Thomas e seus polêmicos espetáculos.
Bem vindos os esforços e buscas de uma nova dramaturgia contemporânea brasileira, mas que está apenas em processo.
Portanto o teatro infantil não está só.
Mas o teatro para crianças tem seus problemas específicos, lembrando que estes problemas são, muitas vezes, apenas o reflexo de como o país encara a criança, a educação e a cultura.
A forma de tratar a criança como uma parcela esquecida da sociedade, uma camada não produtiva, no mundo capitalista, como a terceira idade, é histórica e se vê espelhada desde a prostituição infantil, até os menores do tráfico; das crianças sem escolas aos meninos de rua. De um ensino público que já foi modelo de excelência, a um ensino totalmente à deriva, perdido – alunos e professores – sufocados por uma realidade social esmagante, por descaminhos - ou perdidos caminhos - das propostas pedagógicas que tentam - eternamente perdidos em eternamente buscar novos modelos pedagógicos.
Enquanto o professor não tiver em sua profissão o reconhecimento financeiro, em termos de salários, nenhuma proposta pedagógica será eficiente.
O investimento na educação se faz necessário não só em relação aos alunos como em relação à remuneração e à prórpria formação dos professores. Basta o tempo que se dizia que o professor era pago, parte em dinheiro, parte pelo seu “sacerdócio”. Neste selvagem mundo capitalista nada mais mentiroso que esta afirmação, que apenas pretende manter o “status quo”
Livros. Livros didáticos, para-didáticos, livros de ficção, jornais, revistas, não fazem parte do universo destes jovens. E quando falamos “destes jovens” nos referimos aqueles de classe social privilegiada, porque os outros, das classes menos favorecidas, as questões são muito mais básicas.
O livro é caro, não há um projeto de barateamento do livro onde o texto seja o astro principal e não as ilustrações que pretendem ingenuamente concorrer com o mundo visual em que vivemos. O livro tem que oferecer como diferencial exatamente o que não se encontra nos outros meios de comunicação – o ritmo individual respeitado e a valorização do texto, o prazer da viagem solitária, acompanhada apenas pelos personagens ficcionais, que levam a caminhos e descobertas impensáveis.
Bibliotecas poucas, acervos defasados, atendimentos insuficientes. E este segmento – o da literatura infantil – obteve, mesmo assim, grandes avanços em função de um número infinito de projetos que vêm sendo desenvolvidos durante os últimos trinta anos.
E finalmente o teatro infantil.
E ainda perguntam. Por que tanta preocupação com o teatro infantil?
E como, enquanto cidadãos, enquanto pais, enquanto professores, enquanto artistas não nos preocuparmos com a formação integral da criança, incluída aí todas as manifestações artísticas – a literatura, o teatro, a música, as artes plásticas que – mais que comprovadamente – é o que poderá possibilitar um desenvolvimento humano mais adequado, mais amplo, mais perspicaz, mais acurado, mais consciente, mais sensível?
O teatro infantil, num nível mais prático padece, no momento, de todos os males que um doente terminal possa padecer. Aparentemente terminal porque o teatro é interminável, uma das expressões mais densas do homem.
O teatro infantil sofre preconceito não de algumas parcelas da sociedade, mas de quase todas. O próprio ator costuma dizer “comecei no teatro infantil, agora não faço mais”. Quem faz? Qual quer arrivista que tenha a coragem de subir ao palco e apresentar qualquer coisa de qualquer modo de qualquer jeito.
A imprensa abre um espaço mínimo necessário para não ser chamada de preconceituosa, ou de não se preocupar com a formação da criança. Mas teatro que não tem artistas da TV não é notícia. E a notícia é teatro, não é celebridade. A imprensa não cumpre sua função de informar de forma ampla total e irrestrita. De dar referenciais de fácil acesso a seu público, para que ele fique sabendo sobre este universo e do perfil deste universo do teatro e da criança.
Mas não é só o teatro, o livro infantil raramente obtém uma resenha, uma indicação, uma notícia, um comentário. E assim o cinema, a música, as artes de um modo geral. O cinema, apenas os de grande apelo comercial têm espaço. O cinema de qualidade para crianças ainda é um mercado inexplorado, a música luta através de meios alternativos de produção e venda, pois, impossível competir de igual para igual com a música dita comercial.
Não que estas expressões, em qualquer nível não cumpram sua função de divertir. Porém mais além temos que ir. Brecht em seu Pequeno Organón fala sobre isto.

“ Mesmo que distingamos uma forma superior e uma forma inferior de diversão a Arte não se compadece de tal distinção: o que ela ambiciona é poder expandir-se livremente, tanto numa esfera inferior como numa esfera superior – desde que divirta o público com isso.
Mas o teatro [ou qualquer manifestação artística] pode nos proporcionar prazeres fracos (simples) ou prazeres intensos (complexos) Os últimos surgem nas grandes obras... se desenvolvem, atingem seu apogeu; são mais diversificadas e eficazes em poder de intervenção, mais contraditórias e de conseqüências mais decisivas. “ BB

E é em busca deste prazer mais intenso, complexo, com maior poder de intervenção, e de conseqüências mais decisivas que a Arte para a criança precisa buscar, pois é voltada pra um público em formação.
Diversos males atingem o teatro para crianças, desde estes sobre os quais falamos, históricos, políticos, sociais, artísticos, até os problemas, que são deles decorrentes - faltas de verbas públicas suficientes e constantes para que possa haver uma mudança de qualidade eficaz.
Hoje, os palcos dos teatros - por falta de possibilidade daqueles que têm já um trabalho consolidado, pois em algum momento da vida o factual fala mais alto que o ideal – estão tomados por profissionais que têm registro profissional, mas que nos perguntamos – como conseguiram estes registros? Cursos de um mês, com uma montagem final proliferam – e consequentemente os registros pululam e os que se chamam profissionais, não têm sequer, muitas vezes, noção do que seja teatro.
Por outro lado os poucos editais abertos para teatro normalmente concorrem junto com o teatro adulto. Como definir o que é melhor: um texto de Maria Clara Machado com uma equipe técnica de primeira, atores formados pelo Tablado, competentes, ou um texto de Nelson Rodrigues, com uma equipe técnica de primeira, com atores até por vezes formados pelo Tablado também?
É claro a desvantagem que o teatro infantil leva neste tipo de concorrência.
Houve, talvez em 2001/2002 um edital apenas para espetáculos infantis, que talvez viesse suprir a lacuna que a Coca-Cola deixou no mercado, quando patrocinava quinze espetáculos de qualidade por ano. Mas a alegria durou pouco - uma só vez.
Nenhuma ação cultural terá efeito imediato. Cultura não é absolutamente alopática, mas sim homeopática. Só com o decorrer de vários anos com patrocínios, programação cuidadosa dos senhores programadores das casas de espetáculo, crítica não paternalista, prêmios, mídia, projetos de formação de platéia, maior rigor na formação de profissionais do teatro, movimentação cultural com encontros, seminários, palestras estando a classe mobilizada para eles, veiculação de informações na midia poderá, dentro de um médio prazo, começar a resgatar a qualidade que o teatro infantil do Rio de Janeiro já teve.
E tudo isto é verdade para o teatro do lado de cá do túnel. Temos um teatro no Norte Shopping, dois teatro de qualidade na Tijuca – o Ziembinsky e o Sesc Tijuca, atualmente nenhum na região do Flamengo e Catete, Botafogo.
Em Copacabana começam as casas de espetáculos que atendem a classe média e média alta, assim mesmo com muitos deles programando espetáculos de qualidade artística duvidosa, que só afastam o público e isto vai até o Leblon, Barra da Tijuca e ponto final.
E o teatro além do túnel? Aí começa uma outra história.