As diversas linguagens no teatro infantil
por Carlos Augusto Nazareth

O teatro é uma trama de linguagens diversas que reunidas formam um só tecido – o espetáculo teatral.
A palavra, o gesto, a música, o cenário, o figurino pertencem a linguagens artísticas diferentes e fazem parte do universo teatral.
Mas o teatro infantil se utiliza com freqüência, de algumas linguagens outras.
Uma das linguagens bastante utilizadas pelo teatro para crianças é a linguagem do teatro de formas animadas e, por vezes, do teatro de sombra.
É claro que nestes dois casos, não é um teatro de animação nem um teatro de sombra. É a linguagem de animação e a de sombra, dentro do espetáculo infantil. Mas mesmo assim ambas requerem um conhecimento consistente para que possam atingir sua plenitude de expressão e compor com as outras linguagens um todo harmônico.
A linguagem de animação é um universo inesgotável. Expressão artística milenar, que surgiu junto com a palavra, com o contar histórias, provavelmente no Oriente.
Da mesma forma que o teatro de atores, sua origem remonta a tempos imemoriais, muitas vezes com um cunho religioso. No Oriente, muitos espetáculos são apresentados dentro dos templos para os Deuses, não importa haver público ou não. As histórias normalmente encenadas são as dos livros sagrados .
As técnicas de manipulação dos títeres também são diversas. Bonecos de luva, bonecos de vara, bonecos de técnicas mistas, compõem um universo extenso de usos e técnicas. O teatro de animação possui seus códigos próprios e um deles, fundamental, é sobre o títere. O títere, parado, deixa de ser títere e passa a ser boneco. Ou seja o movimento lhe dá vida. Em cena, um títere sem movimento “morre” .
Como estes há inúmeros outros códigos.
No entanto vemos o seu uso no teatro infantil feito de forma, muitas vezes, pouco séria.
Em primeiro lugar, por que usar bonecos neste espetáculo? Onde utilizar bonecos? E como utilizá-los ? Não podem ser “usados” simplesmente por encantarem o público infantil, e pior, não podem ser utilizados com uma confeccção inadequada, ou amadora e muito menos com uma manipulação incipiente. Utilizar a linguagem do teatro de formas animadas não “carregar” um boneco pelo espaço cênico.
Há uma direção musical, há um iluminador, um diretor de corpo para linguagens específicas. Especialistas destas linguagens compõem a equipe técnica do espetáculo. E por que não termos um especialista em teatro de formas animadas toda vez que utilizamos esta linguagem, que tem uma história e inúmeras técnicas que embasam a sua utlização.
Esta banalização no uso indiscriminado do teatro de formas animadas, de maneira inadequada, nas produções do teatro infantil, não contribuem nem para o espetáculo, nem para a linguagem de formas animadas, que, ao invés de compor harmônicamente, como uma das muitas linguagens do teatro, suscitando o encantamento de quem assiste, principalmente crianças, muitas vezes se perdem meio ao espetáculo, em virtude de sua má utilização. Este é um problema recorrente nos espetáculos infantis ao qual se dá muito pouca atenção.

Outra linguagem muito utilizada pelo teatro para crianças é a linguagem do clown.
Já disse Dib Carneiro em seu artigo “Teatrinho é a vovozinha” que utilizar-se da linguagem do clown não é colocar um nariz vermelho e sair por aí.
E mais, não é fazer caretas, voz de falsete, levar tombos, quedas numa visão infantilizada de uma linguagem que também tem sua história, seus preceitos próprios.
O clown também, como a linguagem do teatro de formas animadas não é “propriedade” da criança. Espetáculos adultos impactantes se utilizam desta linguagem que é crítica, coloca uma lente de aumento sobre as “misérias” do ser humano, expõem o ridículo de cada um. Não foi à toa que Federico Felini fez o documentário ficcional “I Clown” onde mergulha nesta linguagem, através de entrevistas e cenas de augustos e tonys de toda a Europa. Felini diz que “Tony e Clóvis são verso e reverso da mesma moeda – o ser humano”. O Clóvis representa a regra, o certo, o correto, a opressão, o mando e o Tony o bêbado, o “clochard”, aquele que faz xixi nas calças, que contraria as regras, que transgride. E é nesse embate dos dois personagens que o clown vai colocando toda sua capacidade crítica em cena, muitas vezes de forma cruel, como no espetáculo antológico, 1833, onde duas amigas de infância se encontram e uma acaba assassinando a outra e contam esta história se utilizando da linguagem do clown que amplia a visão crítica desta relação tão recheada dos vícios humanos.
Mas o teatro para crianças toma muitas vezes esta linguagem como um elemento apenas externo. Uma roupa extravagante, um nariz vermelho, muitos tombos, risos e “ “interação” (?) com a platéia.
Coreografia é uma outra linguagem sempre presente no espetáculo infantil. Há algum tempo havia um cuidado e sempre este trabalho era desempenhado por um profissional da dança. Com as dificuldades de produção que levam o produtor a diminuir sua ficha técnica a coreografia passou a fazer parta da “marcação” do espetáculo, ou pelo diretor, ou por algum ator que já tenha feito dança. O mesmo acontece com o uso de acrobacias de solo. Nada pior que uma acrobacia, estrelas e paradas de mão mal feitas em cena. A acrobacia tem que surgir, em primeiro lugar com uma razão forte, não só para “movimentar” a cena, e depois com técnica, pois o encantamento da acrobacia é parecer fácil para quem vê, mas para quem faz é necessário um longo aprendizado e preparação corporal.
E neste redemoinho, provocado muitas vezes pela dificuldade cada vez maior de se conseguir patrocínio para pagamento de profissionais diversos, competentes, o teatro para crianças vai perdendo a sua qualidade, a sua magia, o seu encantamento e se torna “qualquer coisa em cena”.
O mesmo muitas vezes acontece com o texto, mas isso merece um capítulo à parte.
É necessário de uma vez por todas que alguns daqueles que criam para esse público de crianças entenda que Teatro é Teatro e nunca é demais repetir aqui a frase de Stanilavsky “Teatro infantil é igual do teatro adulto, só que melhor” ou a de Pirandello “fazer teatro para crianças é igual a fazer teatro para adultos, só que mais difíficil.”
Vivemos numa sociedade onde a criança não tem educação, saúde, muitas vezes não tem casa nem comida. A criança e tudo a cerca normalmente só interessa àqueles que vêm a criança como um segmento de mercado e não como o futuro do país, o futuro do mundo.
A Arte, mais que sabidamente, elemento indispensável no processo de formação do indivíduo, está lado a lado com a educação neste processo de construção do cidadão e, como a educação, precisa ser de excelência, sob a pena de sérios danos futuros.
E quem trabalha “para a criança”, vive “da criança”, tem obrigação de trabalhar sério e arduamente pela criança.