ARTE E CONHECIMENTO
por Joselaine B. F. de Freitas

Lídia Kosovsky há cerca de dez anos disse em um Seminário sobre Teatro infantil que o grande problema do teatro infantil era o de não ser tratado como Obra de Arte.
E esta simples frase, dita em um momento de uma conversa informal sobre teatro, tem norteado, de alguma forma, a nossa busca. Por isso resolvemos selecionar alguns artigos sobre a Arte, o belo, a estética e outros conceitos que posssam auxiliar na reflexão sobre o teatro para crianças sob esta perspectiva.
carlos augusto nazareth

ARTE E CONHECIMENTO
A arte pode ser vista enquanto conhecimento a ser construído, enquanto linguagem a ser experimentada e expressão a ser exteriorizada e refletida. Refletindo sobre si e o mundo. Arte como área de conhecimento - com características únicas e imprescindíveis ao desenvolvimento do ser humano - um ser total, dotado de emoção e razão, de afetividade e cognição, de intuição e racionalidade e de uma subjetividade, que não podem ser ignoradas

“ Por meio da Arte é possível desenvolver a percepção e a imaginação, apreender a realidade do meio ambiente, desenvolver a capacidade crítica, permitindo ao indivíduo analisar a realidade percebida e desenvolver a criatividade de maneira a mudar a realidade que foi analisada.” Ana Mae Barbosa

Arte como contágio
Outra noção importante é a de que Arte é “contágio”.

“É nessa capacidade dos homens para se deixarem contagiar pelos sentimentos dos outros homens que se baseia a atividade da arte. “
Tolstoi

Porém, com certeza, será muito mais contagiante um rap ou um cantor em destaque na mídia do que Beethoven, Bach, Mozart. Portanto, o simples contágio é insuficiente para entender o que é arte.
É Vigotsky quem nos ajuda a ampliar esta concepção, citando o Evangelho, e comparando a arte ao milagre da transformação (da água em vinho), já que o sentido vital da arte implica transformações: a arte recolhe da vida o material, mas produz algo que está acima desse material.

“A arte está para a vida como o vinho para a uva”.
Vigotsky

Esta comparação propostas por Vigotsky nos faz entender que a verdadeira natureza da arte sempre implica algo que transforma, que supera o sentimento comum.
A arte transforma quem faz, quem vê e transforma a própria matéria usada. Sendo assim, vai além do contágio, é um fazer humano, é uma prática, e como prática, tem uma finalidade, um objetivo, uma intenção.
Numa sociedade em que há o predomínio do cientificismo, o reconhecimento da Arte e de suas especificidades de linguagens, acaba não existindo e ela passa a ser condenada a ser mero apêndice ou uma simples oposição à ciência.
Quando, na verdade, arte e ciência são faces do conhecimento, que se complementam e ajustam-se perante o desejo de compreender o mundo. A arte não é oposição, nem contradição à ciência, todavia nos faz entender certos aspectos que a ciência não consegue fazer.
A partir das descontruções do que é a arte nos aproximamos de uma concepção de arte mais completa, que considera o homem como um todo, que possui três dimensões: a afetiva, a cognitiva e a social.

Arte como conhecimento

O termo alemão para arte kunst, que partilha com o inglês know, com o latim cognosco e com o grego gignosco da raiz gno, indica a idéia geral de saber, saber teórico ou prático, portanto um conhecimento.
E mais, ars, palavra latina, matriz do português arte, está presente na raiz do verbo articular, que denota a ação de fazer junturas entre as partes e o todo.
O ver do artista é um ver afetado pelo pensar; um ver que analisa as formas e cores da natureza e as recompõe com uma nova inteligência do real. Assim, o ver-pensar é um combinar, um repensar, um transformar os dados da experiência sensível, pensamento bem claro na frase de Bosi:
Arte: percepção aguda das estruturas, que não dispensa o calor das sensações”.
Arte é um trabalho do pensamento, um pensamento emocional e específico que o ser humano produz, com relação ao seu lugar no mundo.
Assim, conhecer será também se maravilhar, divertir-se, brincar com o desconhecido, indagar a existência humana, interpretar diferentes papéis, arriscar hipóteses ousadas, trabalhar duro, esforçar-se e alegrar-se com descobertas.
Resumo do artigo:
ARTE É CONHECIMENTO, É CONSTRUÇÃO, É EXPRESSÃO
Autorizado pela autora, especialmente, para publicação no Blog Teatro Infantil Vertente Cultural
Autora: Joselaine Borgo Fernandes de Freitas
Graduada em Design pela UNESP. Mestranda em Arte Visuais pelo IA / UNESP.
Publicado, na íntegra, inicialmente na Revista Digital Art& - ISSN 1806-2962 - Ano III - Número 03 -