APONTANDO PARA A LUA (*) Maria Helena Kühner

Quando alguém aponta para a Lua, imbecil é o que só vê o dedo.
A imaginação no poder.
É proibido proibir.
Sejamos sensatos: peçamos o impossível.
Difícil é aquilo que demora um pouco; impossível o que demora um pouco mais.

As frases, surpreendentes, intrigantes, iam sendo grafitadas nos muros da França – página ainda em branco, mídia alternativa descoberta pelos estudantes, linguagem nova. 1968 : Ruptura (inaugural ou tardia?) Ruptura. E os prefixos se acumulando sobre os termos, marcando – meta- sua ultrapassagem, fabricando no neo a ilusão de estar preparando ou divisando o novo, sonhando apreender nos fragmentos a totalidade ao englobar com letreiro de fachada em colorido neon um pós-modernismo envelhecido que já não faz sequer jus ao termo. E, com ele, a menos visível perplexidade dos que contemplam as rubras cores deste fim de século, em que alguns vêem um crepúsculo e outros os primeiros tons de desejada aurora.

Fim ou começo? perguntou igualmente a serena e abalizada voz de Perry Anderson, o conhecido historiador inglês, em concorrida palestra no RJ sobre o alardeado "Fim das Utopias". A pergunta ainda paira no ar quando ele inicia seu diálogo com ... Spengler. Spengler ? sussurra, inquieta, nossa memória, desarquivando, apressada, o nome e as ideias que foram objeto de tantas críticas em seu próprio século e de um ostracismo que lhe engoliu décadas na primeira metade do século XX. Que diálogo poderia ter com ele um socialista de nossos dias? Mas as ideias começam a se mostrar, com um brilho inesperado que ofusca o desbotado ou maquilado discurso atual da polis: das décadas de 60 a 80 assistimos (eu diria, talvez, vivemos) o surgimento de “questões angustiantes”, muitas das quais gestadoras da “incerteza” (Galbraith) ou dos “extremos” (Hobsbaum) que dizem marcar nosso século, ou da apatia e desalento que boiaram à superfície dos anos 90.

Diante deles é oportuno lembrar a diferença postulada por Spengler entre Cultura e Civilização – até para confrontá-la com os pretensiosos discursos dos que tentam universalizar em "fim da História" o fim da própria história, ou mistificar o conceito de civilização ideologizando-o no supostamente perfect world do mundo capitalista de hoje. Pois para saber de que forma se realizará o destino de nossa civilização ocidental, é preciso de novo perguntar: o que é uma cultura? Remetendo o termo a seu sentido original, ligado ao cultivo e ao campo, às formas nascentes e vitais de todo grupo social; e, neste sentido, já marcando uma presença e um fato: de que é na cultura que se encontram os recursos residuais de todo grupo ou civilização, é pela cultura que se pode conhecê-los ou expressá-los. A civilização é a consequência lógica, remate e término de uma cultura, seu destino inevitável: organiza na e pela polis (cidade) aquelas formas vivas, submetendo-as às leis que regularão o convívio social, tal como o jardineiro que, com a estaca diretriz, tutora e orienta o crescimento de uma planta, podando as partes que se tornam "inorgânicas", isto é, inadequadas à organização visada. Ressonâncias levantam ecos em nossa memória: é essa conceituação que permite entender porque Spengler dizia que "o romano sucede ao grego, a cultura grega desemboca na civilização romana... (mas) os gregos tinham alma, os romanos, intelecto apenas". Ou porque podemos compreender os gregos sem falar em sua economia, ao passo que os romanos só são compreendidos através dela.

A voz segura e tranquila de Perry Anderson já nos convida novamente a segui-lo e, com ela, a um mergulho em sua própria obra original, onde não só as vozes se duplicam, mas o rosto de nosso tempo vai se desenhando, reconhecível e reconhecido: a metrópole é "a forma petrificada e petrificante da civilização. O imperialismo sua fase final". Porque a metrópole "não supõe mais um povo e sim uma massa". Porque o imperialismo "é civilização pura: só produz corpos mortos, desanimados (sem anima, sem alma), matéria gasta de uma história a serviço dessa abstração que representa o poder da civilização: o Dinheiro". O homem culto dirige suas energias para dentro: o civilizado, para fora. "Mas essa tendência expansiva se torna algo demoníaco na fase tardia das metrópoles, porque nela só subsistem possibilidades expansivas e as grandes decisões, inclusive as espirituais, já não são tomadas "no mundo inteiro", para o qual toda e qualquer aldeia tem alguma importância e sim em 3 ou 4 metrópoles que absorvem o sumo da história e para as quais o resto, com suas respectivas culturas, é rebaixado à condição de "província" e destinado a propiciar às grandes cidades suas derradeiras provisões."

A voz de Anderson já foi, distanciada, ecoar em outras praias. Mas a maré de ideias em nossa mente não mais para, excitada nas ondas de um pensar inquieto e provocado: então, negar essa civilização já adulterada e doente é negar, obviamente, seu conceito de "cultura", que a petrifica em produtos ou mercadorias que visam ao lucro (ideologicamente ditos "bens" culturais), cujo beneficiário é visto apenas como um consumidor e cujo valor e resultados têm na quantidade o parâmetro único, ou principal, de avaliação. E mais: é retornar àquele processo original e criador, às fontes residuais de sua forma nascente, isto é, às suas "raízes" – termo tantas vezes levianamente usado, ou tornado sinônimo de uma folclorização consumista, já distante do sentido definidor da própria cultura como o terreno ou solo em que se enraíza a própria vida social e, portanto, seu momento fundante, inaugural, nascido de sua força gestante buscando caminho e espaço desde a luta, ainda subterrânea, contra o escuro da terra; é reter a noção de que nesta raiz cultural está a alma de um grupo ou de povo, seu caráter – no sentido mais fundo do termo, de marco e marca de todo um grupo social. Ou mais: permite entender porque a "globalização", Janos de dupla face, busca esconder seu lado imperialista e dominante usando vestes e maquilagem "cultural" para iludir os desavisados e mascarar seus interesses econômicos, exclusivos e excludentes. E ainda: porque para tal se empenha em manter atrelados a seu pulso os meios de comunicação, em uma concentração que é espantosa, mas significativa: 41% na Inglaterra; 31% na França; 34% na Itália estão em mãos de um único indivíduo ou grupo, assim como 9 famílias controlam toda a rádio e Tv no Brasil. E também: porque dissocia a comunicação da educação e da cultura, tal como dissocia artificialmente o social, o político, o econômico e o "cultural" – ou mistifica o controle social nesta área revestindo-o de conceitos genéricos e ideológicos, como povo, identidade nacional, autenticidade, direitos humanos, participação de todos etc etc, evitando os conceitos analíticos e um tratamento metodológico (Ex: que parte caberia a cada segmento social naquele amorfo "todos"?...), com sua indispensável nitidez. Ou então: porque, na impossibilidade de iludir a diferença, ou mascarando os possíveis conflitos por ela gerados ("O choque das civilizações será cultural", diz Hutington) passa a dela se servir para tentar legitimar hierarquias, autoritarismos ou pretensas "superioridades" (Primeiro Mundo, Terceiro Mundo...) ou a trabalhar no sentido de uma generalizada in-diferença, pasteurizando notícias, dados e informações e fortalecendo o "império do efêmero" de que fala Lipovetsky.

Que esta civilização está doente se pode perceber em alguns de seus sintomas, que são seus valores (?...) atuais: o "vazio das aparências" (Maffesoli) em vez das essências; o efêmero do acidental em vez do permanente da substância; os "bens" se confundindo com o Bem; a novidade suplantando a beleza, a versão tornada mais importante que o fato. Enfim, uma civilização na qual o fundamento mesmo da sociedade, a pessoa humana – que já foi criatura de Deus, depois produto de evolução das células, depois um mecanismo, é agora um simulacro – o andróide. Olhando essas cascas vazias de cigarras que não mais cantam a luz e o calor, sentimos saudade daquele canto anunciador, de um retorno às fontes vivas de nossa cultura e sua força gestadora de nossa civilização. E quando uma teimosa Mãe Coragem (Brecht) começa a segredar em nossos ouvidos: atravessei guerras, tive perdas que me cortaram o corpo e a alma, mas fui adiante, na certeza de que o inverno há de acabar, como todos os invernos, se os que ainda não estiverem mortos se moverem. Mas onde um canto que anuncie, com este movimento, os possíveis tons claros de uma aurora por-vir?

Da carroça desta Mãe/Matriz surgem vultos: de Goethe, precursor, a Nietzsche, anunciador de que há auroras que ainda não brilharam. A suas vozes vão se somando outras, Deleuze, Derrida, Foucault, denunciando a Razão e a Moral instituídas como instrumentos mesmos de desvitalização e esvaziamento e instigando ao movimento de reflexão e crítica; um pouco adiante lhe fazem contraponto as vozes de Baudrillard, Lyotard, Maffesoli, Jameson e muitos mais, compondo e recompondo com o tema da ruptura o processo maior destes tempos instáveis, mas também já esboçando perspectivas, tendências, caminhos possíveis...

E o chinês sorri: dele são os provérbios que os estudantes de 1968 usaram. Sorri porque há muito sabe de caminho (Tao) e de caminhadas. Como sabe que o que em leitura nossa, atual e sofrida, aqueles jovens estavam aprendendo é a expressão de uma descoberta sua, milenar: a de que o “caminho que é o caminho não é o caminho” (Lao-tse). Sorri porque, como Spengler, sabe que a história humana se dá por ciclos, de nascimento, crescimento, declínio e morte, tal como o indivíduo humano; ou, como Nietzsche, sabe também que “todo fim é fogo, cinza, incandescência de uma nova aurora”. Sorri, revendo o homem ocidental, hoje, diante de uma Esfinge que já percebe fragmentada e ora o desafia com um enigma ou mistério ampliado às dimensões do cosmos. Este homem ocidental que, cessadas as Luzes que lhe iluminaram caminhos mas também o cegaram com seu brilho em um momento de sua caminhada, Édipo às avessas, hoje busca, em errância, seu rumo, afastado já da bússola das certezas e da tutela da verdade. Que revê ou retoma caminhos já percorridos, ergue o olhar ao horizonte aberto dos possíveis, re-interroga o passado – não mais como relato ou narrativa de eventos já distantes no tempo, mas como uma re-visão, ao vivo, de seu próprio ato original, já consciente do que lhe ensina a própria linguagem: que história e sabedoria têm uma mesma raiz, que a língua inglesa guardou em sua w-is-dom. Nele a certeza, única possível, de que nesta caminhada sem bússolas é necessário retornar à experiência, não só individual, ao ex-per-ire que revaloriza seu prazer e seu desejo, que o faz sentir o valor concreto e cotidiano daquilo que extrai do caminho por onde passa, como à experiência coletiva, que revê e questiona os caminhos e descaminhos da trajetória humana. E nesta experiência que também reaprende, renovada, a experiência de ver, não mais apenas com o limitado olhar "intelectual" do homem moderno, distanciado de um mundo que contempla à distância e que supõe uma imensa máquina que poderia desmontar pela análise e remontar pela síntese – sem perceber que o problema de todo mecanismo é que este simula a vida, mas não é vivo, e nesta produção de simulacros o que perde ou deixa de lado é o essencial: a própria alma. Reaprende que ver é a experiência do vidente, que interroga dos céus às vísceras dos animais, buscando todos os sinais que lhe permitam a leitura desejada, recuperando assim (viva a Grécia!) ainda que em forma nova e diversa, a categoria da totalidade, que lhe permite estabelecer relações, fios que ligam tempos e vivências, e falam da vida como continuidade e permanência. Visão hoje dita holística (holos = totalidade) que, além desse novo olhar, exige uma outra atitude e um outro ato de consciência: aquele que não se reduza à compreensão racional de causas e efeitos, mas retorne, ou se abra, não só àquela experiência de ver, como a um passo que ouse a errância; a um ouvido atento também ao silêncio e ao grito, ao som e ao ruído; a um olhar que incorpore o vazio e a falta; a um intelecto que, passando pelos sentidos, seja realmente capaz de inter-legere na intrincada rede de signos de que nos rodeia; e que se complete com a intuição, sintetizadora necessária. E dessa visão, dessa atitude e consciência a (re) descoberta de que a vida só se reinventa dando espaço não só ao novo, como ao imprevisto, ao acaso, ao desmonte das certezas e à re-criação.

Das alegrias e das angústias dessas buscas e descobertas, e da pressão que delas nasce, a ex-pressão das alternativas que, em sua diversidade e pluralidade – marcas de nosso tempo – mostrem esse novo Ulisses, navegante entre o desejo e a falta, o niilismo e a esperança, a indiferenciação e as reconfigurações que desenham as viagens da chamada produção pós-moderna. E, se autor é aquele que gera, que fecunda, faz nascer, nelas também a expressão da possível chegada a uma cultura nova, quiçá à desejada cultura estética (Maffesoli), de um indivíduo mais inteiro, já capaz de integrar em si prazer e sentimento, razão e intuição, e de uma sociedade em que o sentir coletivo (aesthesis), a emoção partilhada, em comum, seja o novo fundamento do próprio social.
Diante dessa possibilidade, nós, os inquietos, sentimos e vivenciamos que continua a ser válida a expressão de Antonio Machado, hoje tornada lugar-comum: se não há caminho, nós que fazemos o caminho, caminhando. E que, à falta de bússolas, a persistência (per-existere) e a resistência (re-existere) não afirmam apenas a própria existência, mas, enraizadas na cultura (a lembrar, Jameson) são as âncoras mesmas dos momentos de pouso para as breves e necessárias pausas, para meditar e olhar as estrelas tanto quanto os instrumentos e sondar os horizontes para traçar nossos rumos. Ou nossa forma de resposta ao desafio de uma humanidade, antes conceito abstrato, estar transformada em fato no mundo planetizado em que vivemos.
Desafio: porque diante do quadro que vemos, nós, os inquietos, não conseguiríamos adotar a postura do homem "prático" que, com a ideologia da adaptação, identifica liberdade com aceitação das instituições existentes, enfatiza o presente e justifica seu individualismo com a narcísica autocomplacência dos "engenheiros da vida". Porque nós, os inquietos, também recusamos a visão apocalíptica dos que vêem apenas um futuro sem redenção possível, com indivíduos fetichizados, unidimensionais e manipuláveis, assistindo, tranquilos, às catástrofes que mostram as TVs, sem nada mais a fazer ou a dizer. Porque nós, os inquietos, podemos até compreender a rebeldia, mas não acompanhar o caminho dos que crêem se opor à violência de uma sociedade que marginaliza e exclui com o cultivo da própria marginalidade, fazendo do isolamento, ou da auto-agressão pelo álcool e as drogas, seus pseudo-instrumentos de ação. Nós, os inquietos – e felizmente somos ainda muitos – buscamos apenas um tipo de resposta: a de quem sente que todos e cada um de nós somos responsáveis, isto é, tendo que responder por nós mesmos e pelo grupo social de que nos sentimos e sabemos parte. Com a consciência de que esta humanidade que já existe em si não existirá para si enquanto faltar essa responsabilidade planetária, fundada numa ética.

Uma ética: pois, como nos aponta a lucidez sempre atual de Spinoza, se a Moral e os "moralistas" falam pela Lei, que sujeita e impõe deveres, a Ética liberta, ao atentar para o ser do homem tal como ele é, recuperando o sentido original do ethos, ou sua maneira de ser, em que a existência de outros homens é a causa mesma de cada existência singular e o desejo a causa de sua ação. Em ambos os traços o rosto possível do homem atual, em trans-forma-ação. Forma em que o lastro cultural é o fundamento mesmo, ora perdido, e o elemento identificador, ora em crise. Mas se crise = perigo + oportunidade (como lembra o ideograma chinês que grafa o termo com a junção dos dois outros), a crise de fundamentos e de identidade por que passa o homem ocidental pode ser uma oportunidade a ser trabalhada, encruzilhada de caminhos a desafiar nossa escolha, possível e necessária. Utopia? Talvez. No sentido maior e atual do termo, de um pro-jeto que nos lança adiante, sem ficar com os olhos presos ao que morre, e sim mais, muito mais, atentos ao que se anuncia.

(*) Artigo escrito para e publicado na Revista VOX, Porto Alegre/RS.