ANTROPOLOGIA DA CRIANÇA
por Clarice Cohn

Clarice Cohn é graduada em Ciências Sociais na USP, posteriormente com mestrado e doutorado no Departamento de Antropologia da USP. Trabalha com antropologia da criança e fez dela sua tese de Mestrado. É professora de antropologia, na graduação e no curso de pós-graduação lato sensu “sociopsicologia” ambos da Fundação Escola de Sociologia Política de São Paulo. Abaixo transcrevemos a introdução de seu livro Antropologia da Criança, acreditando que esta introdução desperte um sem número de questionamentos para quem trabalha e principalmente cria para esse público tão especial e pelo que vemos, ao mesmo tempo, tão desconhecido.
Carlos Augusto Nazareth

Antropologia da Criança
Clarice Cohn
Jorge Zahar Editora

Introdução

“O que é criança? O que é ser criança? Como vivem e pensam as crianças? O que significa a infância? Quando ela acaba?
Perguntas nada simples de responder. Pelo contrário, elas podem esconder uma armadilha. Afinal, as crianças estão em toda parte, todos fomos crianças um dia, todos temos, desejamos ou não desejamos ter crianças. A literatura nos oferece textos de autores famosos que nos contam sua infância, poetas românticos falam com nostalgia de seu tempo de criança. É como se tudo já fosse sabido, como se não houvesse espaço para dúvidas.
Mas não é bem assim. Mesmo se fôssemos recolher todas essas informações sobre a infância e as crianças, veríamos que um punhado de idéias diferentes se apresentam. A criança pode ser a tabula rasa a ser instruída e formada moralmente, ou o lugar do paraíso perdido, quando somos plenamente o que jamais seremos de novo. Ela pode ser a inocência ( e por isso a nostalgia de um tempo que já passou) ou um demoniozinho a ser domesticado (quantas vezes não ouvimos dizer que “as crianças são cruéis” ?) Seja como for, em todas essas idéias o que transparece é uma imagem em negativo da crianças: quando falamos assim, estamos usando-a como um contraponto para falar de outras coisa, como a vida em sociedade ou as responsabilidades da idade adulta. E pior, como isso afirmamos uma cisão, uma grande divisão entre o mundo adulto e o das crianças.
Portanto se quisermos realmente responder àquelas questões, precisamos nos desvencilhar das imagens preconcebidas e abordar esse universo e essa realidade tentando entender o que há neles e não o que esperamos que nos ofereçam. Precisamos nos fazer capazes de entender a criança e seu mundo a partir do seu próprio ponto de vista. E é por isso que uma antropologia da criança é importante. Ela não é a única disciplina científica que elege esse obejto de estudo:a psociologia, a psicanálise e a pedagogia têm lidado com essas questões há muito tempo. Mas é aquela que, desde seu nascimento, se dedica a entender o ponto de vista daqueles sobre quem e com quem fala, seus objetos de estudo. ( ... )
Hoje, portanto, uma antropologia da criança pode ser desde aquelea que analisa o que significa ser criança em outras culturas e sociedades até aquela quef ala das que vivem em um grande centro urbano. Se a antropologia ampliou assim seus horizontes de estudo, não deixou de se definir como uma ciência social com certas particularidades. (...)
Mas estudar as crianças tem sido um desafio para a antropologia. As razões são muitas, e a principal parece ser justamente a dificuldade em reconhecer na criança um objeto legítimo de estudo. Afinal, em várias esferas, que vão do senso comum às abordagens do desenvolvimento infantil, pensa-se nelas como seres incompletos a serem formados e socializados. (...)
Desde a década de 1960, conceitos fundamentais da antroplogia, como cultura e sociedade ou estrutura e agência são revistos e reformulados. Além disso algo que não é menos importante: começou-se a perceber na criança um sujeito social. A partir dessa reformulação, que apresentaremos a seguir, novos estudos vêm sendo propostos e realizados, e com eles novas descobertas sobre o mundo das crianças têm surgido. Este livro traz um mapeamento das várias abordagens antropológicas sobre o tema, além de uma discussão sobre os limites e as possibilidades de uma antropologia da criança.
E-mail para contato com a autora: clacohn@uol.com.br