ADEQUAÇÃO
Esta carente, ignorada e disponível virgem, o público infanto-juvenil
Maria Helena Nazareth

Crianças e jovens não são categorias fixas, mas se referem a estágios do processo de desenvolvimento humnao, um complexo encadeamento bio-sócio-emocional.
As perspectivas da criança, do jovem e do adulto são diferentes e podem ser descirtas de acordo com as várias etapas do desenvolvimento. Cada fase da vida humana tem características próprias. Temos uma história social, uma biológica, uma emocional e uma cognitiva, tudo isto integrado por um amplo processo geral. Do nascimento até a morte passamos por sub-fases cuja riqueza se perde nas simplificações crianças, adolescentes, adultos, velhos.
Como criar um produto artístico para a criança, levando em conta cada fase de desenvolvimento, considerando os aspectos emocionais e cognitivos? Até certo ponto da vida, a criança é atemporal e absoluta – são os bebês.
Quando a criança começa a diferenciar com clareza entre o EU e o mundo real em transformação, seu pensamento egocêntrico começa a articular significante/significado; sua perspectiva é, ao mesmo tempo, mais realista e mais fantástica que a do adulto. Realista porque tem menos certezas, categoriza menos e a memória retém sem esforço, pois ainda é cheda de espaços. E mais fantástica porque as emoções são quase nada filtradas, a espontaneidade inspira perguntas sobre o imperguntável, proporporcionando conteúdos e significados estranhos para o adulto.
À medida em que a subjetividade progride para a definição de um EU diferente de um TU e que, com ele, se relaciona, a fronteira entre real e fantasia se demarca irremediavelmente, criando os espaços interior e exterior e o conhecimento da necessidade de pontes de transição entre eles. Esta transição proporciona o desenvolvimento emocional. Este ser que quase não é mais criança e ainda não é “outra coisa” tem que desempenhar uma diversidade de papéis na arena do seu cotidiano.
O processo cognitivo, que até aqui, tende ao concreto e ao formal, caminha para uma habilidade de abstração cada vez maior, para pensar o próprio pensar, até chegar ao sofisticado munda das emoções adolescentes, ao pensamento simbólico, formação de conceitos, juízos e senso crítico, tudo isto preparando a entrada na vida do adulto jovem ( uma outra categoria?).
Que ninguém pergunte com que idade se delimita cada fase. Só muito ingenuamente se tentaria tal restrição. Porém, sem os prazos de faixa etária, a questão adequação permanece. A quem se destina?
O encontro da obra de arate e seu “consumidor” se dá na superposição das duas áreas lúdicas – de quem produz e de quem consome. Sem esta superposição o encontro não ocorre. Como maximizar a riqueza deste encontro? Que se pesquise, se estude, se instrumentalize, para melhor entender e atender esta ainda ignorada e disponível virgem, o público infanto-juvenil.

Maria Helena Nazareth é Mestre em Psicologia pela Fundação Getúlio Vargas

Entre a cruz e a espada
Eliana Yunes

Quais seriam os critérios para sustentar uma leitura crítica de Leitura Infantil e Juvenil como suporte útil para a seleção de livros para crianças e jovens?
A modernidade trouxe o quase consenso de que o crítico é um leitor cuja obrigação é ter um conhecimento amplo do tema e explicar com clareza a fundamentação de suas opiniões.
Quem seleciona para crianças e jovens não precisa ser um crítico literário, mas deve ter alcançado a condição de leitor crítico. Além disso, dentro da moderníssima teoria da leitura, o leitor tem parte ativa no processo de interpretação, realizando uma interação com a obra, porque o campo de sentido é uma construção entre possíveis, cuja qualidade pode evidentemente diferir pela amplitude e especificidade de visão de cada leitor.
Isto exige que o crítico em literatura infantil seja uma pessoa do mundo, não confinada aos limites de convivência impostos à infância. Precisa, sim, ter familiaridade com leitores-destinatários de Literatura Infanto-Juvenil e com a produção de ontem e hoje, mas sobretudo a devida inserção cultural no contexto social e histórico, conhecendo a produção literária como um todo, obras nacionais e estrangeiras.
As condições mínimas se duplicam para quem avalia livros infantis. O especialista crítico precisa expressar e debater suas idéias com freqüência. Certamente em nosso ponto específico é indispensável que o crítico tenha ampliado, ao invés de estreitar, sua percepção infantil de mundo. E incluir mais poesia, mais aventura, humor sem ironia amarga, pois a criança não está imune à dor, a perdas a perplexidades.
Mas não há como tornar a crítica inteiramente objetiva e impessoal. Ela deve ser responsável, explicitar-se, mas não pode desvencilhar-se de quem a emite. E as opiniões públicas estão aí para serem debatidas com paixão, se preciso, mas com seriedade absoluta, face às limitações, decorrentes da inserção social da obra e do crítico.
A leitura crítica, que sem academicismos todos poderíamos exercer, subscreve as seleções e recomendações. Quando alguém busca um livro de literatura, busca-o para alcançar um prazer, não o prazer morno e ordinário, mas algo que dê arrepios, leve à percepção nova das coisas, amplie a imaginação que lhe dê o sentimento do mundo do homem. Há, pois, que se ler com dois olhos. Bem abertos.
Digamos que com um olho o leitor crítico abre a guarda da recepção e lê ansiosamente, sem estabelcer juízos, quase como a criança que mergulha na história. Com o outro olho, o crítico perscruta o como e o porquê esta obra seduz ou ainda o quê é fonte de prazer para os pequenos leitores. É fundamental, pois, ler com o coração e mente: a partir do emocional e sensível da leitura para uma análise crítica do livro.
Mas quais os critérios de avaliação? As listas às vezes orientam vendas ao invés de leitores, por uma deformação do mercado pobre em leitores.
Mas há algumas coisas que se buscam encontrar nos bons livros, que de formas diversas foram já aqui levantadas. Partindo da qualidade literária, falou-se aque da originalidade da abordagem que surpreende a criança e o crítico; do caráter vital que impele o leitora a colocar-se no lugar do outro, uma empatia que o faça encontrar-se com as personagens da obra e consigo mesmo, no melhor sentido da catarse aristotélica; da verossimilhança que convence o leitor, por mais fantástica que seja a obra e que deve alargar sua percepção do mundo: são alguns dos critérios fundamentais. A moderna teoria da literatura, nos passos da estética da recepção fala dos “vazios” que uma obra deixa à ação do leitor para que este se torne co-autor, partindo de seu próprio horizonte de expectativa da criança é fundamental para que ela possa encontar ressonância de suas questões mais prementes. Podemos no debate levantar outros aspectos onde as dúvidas são maiores que as certezas: com ou sem imagem? Com final feliz, sempre? Questões de gênero, postura do narrador, etc.
No fundo, a obra precisa refletir a articulação de muitos elementos, como em qualquer obra e estabelecer outro critério: o de respeito pela inteligência e sensibilidade infantis.
Em qualquer caso, a obra deve poder ser considerada em diferentes níveis, convidar o leitor “a releitura – uma boa história satisfaz as necessidades mais insuspeitas de quase todo leitor, sem diferenças de idade. O leitor pode não saber se o mundo real é bom, mas a obra se oferece como um distanciamento político e poético para ver o mundo, pois nela coabitam a imaginação e o real. Por isso a leitura literária não deve estar confinada ás elites, como nos séculos passados. Ela é instrumento de libertação pela linguagem.

Eliana Yunes é doutora em lingüística e teoria da literatura e professora da UERJ e da PUC Rio