A Razão A Imaginação Jung e O Teatro

“Razão e imaginação são partes
inseparáveis de um todo complexo
em tensão permanente” (CJ)

Já não é novidade nem novo que a construção integral do indivíduo passa pela razão e pela emoção. O nosso objetivo aqui é verificar como o teatro pode ser um dos muitos instrumentos possíveis para a formação integral do ser humano, a partir de um artigo sobre a obra de Jung, escrito por Maria Cecília Sanchez Teixeira.

Jung retoma e de alguma forma relembra e recoloca alguns conceitos que vão se generalizando e, portanto se fragmentando, perdendo sua essência e até adquirindo significados diversos daqueles de sua origem e verdade, como um esgarçamento e pluralidade de um conceito bastante uno e definido em sua origem.

Apenas uma frase de Jung nos coloca frente a um problema corriqueiro e cotidiano que se tornou banal, pois exatamente seu cerne se perdeu e foi adquirindo outro significado.

“O teatro é “educativo” apenas por facilitar e provocar o autoconhecimento e o conhecimento do outro.” (CJ)

Esta colocação nos volta aos conceitos de educar, que tem um sentido muito mais amplo do que hoje a maior parte das pessoas que lidam com esta área por vezes lhe atribuem. Se estamos pensando em teatro, esta colocação nos remete a Brecht, quando diz em seu Pequeno Organón que “o teatro não foi feito para ensinar”. E na leitura Jung x Brecht fica claro que o conceito de educar é comum a ambos.

Para Jung educação é um processo de autoconstrução da humanidade no sujeito, tanto em sua dimensão individual quanto social, como diz Beatriz Fétizon. Processo de autoconhecimento, de autoconstrução da humanidade, de “transformação da alma.”

Esta acepção de educar é ampla, e abrange na verdade toda a relação do indivíduo com o mundo e com si mesmo, com seu processo de individuação, mas também com seu processo de integração social. E esta ampla educação não é a que normalmente usamos quando falamos de criança, de escola, e mais uma série de afirmações esgarçadas de sua essência. Esta “educação” abrange o ser como um todo em seu processo de construção onde a lógica e a razão têm o mesmo peso que a intuição, a imaginação. Esquerdo e Direito se equilibram na balança dos processos intelectuais.

E sempre voltaremos ao teatro. O teatro tem esta função. Possibilita que o indivíduo se veja a si mesmo, se pense e se repense, ao mesmo tempo em que é possível ser tocado em sua emoção e sensibilidade, neste seu processo de individuação, mas também permite que o individuo se veja na cena do mundo, num processo de percepção do social.

“Perceber e criar por meio de símbolos são os modos básicos pelos quis o homem organiza suas experiências e ações. Os processos de simbolização permitem ao ser humano assumir sua humanidade, tomar consciência da condição própria dos seres vivos” (CJ) E para Durand, em As Estruturas Antropológicas do Imaginário “o universo humano é simbólico e só é “humano” à media que o homem atribui sentido às coisas e ao mundo.

Acreditamos que a essência do teatro é simbólico. Mesmo em se tratando do teatro realista, a realidade recriada ali o é muitas vezes através de símbolos. O próprio espaço cênico simboliza a casa, o mar, o universo. O mesmo espaço cênico, em questão de segundos muda o seu significado porque ele simboliza “N” espaços, que podem se modificar no decorrer de uma trama.

Não queremos aqui fazer uma análise profunda desta questão, pois mereceria um estudo à parte, mas o teatro tem este poder de usar o símbolo, assim como outras artes dramáticas. Mas nos parece que o teatro tende mais a se utilizar dos símbolos do que o cinema, que a nosso ver tende mais a usar o elemento real na construção de sua fábula. Tanto que as cenas imperecíveis do cinema são muitas vezes aquelas que utilizam uma forte simbologia, como em La Nave Va, onde o mar é um grande plástico ondulando ao vento quando o espectador esperaria um mar realista. Esta ruptura da linguagem mais tradicional causa um impacto e um significado muito maior que a imagem do mar. Da mesma forma que no teatro hoje, quando se utiliza imagens reais, como a do mar mesmo, em cena, em projeções, causa uma estranheza que provoca um redimensionamento da cena.

Persona

A abordagem de Jung sobre seu “pensamento pedagógico” é tão próxima por vezes do teatro que dele toma algumas questões . “Nesse jogo entre o individual e o coletivo, para driblar a individualidade, a psique coletiva se mascara da psique individual” A essa máscara Jung denomina PERSONA, considerando-a um segmento arbitrário da psique coletiva. E persona é como se designava originalmente a máscara usada pelos atores, significando o papel que desempenhavam no teatro, portanto o segmento naquele momento aflorado e ampliado – a persona , o personagem que se constrói a partir do todo – é a expressão de uma parte do todo que constitui aquela fábula e esta fábula está, ao mesmo tempo, inserida num macro texto universal. Seria ela um micro texto constituinte do macro texto que nos revela o universo. Jung diz “a individuação não nos separa do mundo, mas faz o mundo parte de nós, precisamos conhecer a sociedade para a qual educamos – no sentido de preparação do indivíduo para viver o todo que somos e que muitos atribuem a um falso conflito entre razão e imaginação. Na verdade são partes inseparáveis de um todo complexo em permanente estado de tensão. Quando se valoriza mais um dos pólos, rompe-se a relação de complementaridade e antagonismo entre eles, criando-se a ilusão de que são dicotômicos.” (CJ)

Como estamos nos reportando ao teatro, esta tensão equilibrada necessária é que coloca Aristóteles quando diz que a tensão equilibrada entre razão e emoção é que torna o “drama” equilibrado e, por conseguinte, temos uma fábula conseqüente.

A Arte

A arte, e principalmente o drama, pode ser um instrumento de reequilíbrio entre razão e emoção. O épico mais o lírico, segundo Hegel, constroem juntos o drama (ação). Aristóteles diz que a “mimesis” não é uma reprodução das ações, mas uma reprodução dos sentimentos que provocam as ações. Ações, portanto, são geradas pela razão e pela emoção e esta é a essência do drama, a essência do teatro.
O equilíbrio entre razão e emoção na construção integral do ser humano não pode prescindir da Arte, como também não pode prescindir da razão – o equilíbrio e tensão entre estes dois pólos mantêm a unidade e integridade do indivíduo. O teatro é isto exatamente e propicia que espectador vivencie esta tensão redentora; se rever e rever o mundo através desta ótica. Mas claro não só o teatro – o teatro é aqui, neste momento, nosso foco, mas a Arte e todas as linguagens que propiciam o desenvolvimento da imaginação, do sentimento, possibilitam, num processo de troca e tensão, um equilíbrio com a razão.

Portanto mais do que já dito visto e revisto que o homem, para sua formação integral depende da Arte. O teatro é uma arte bastante completa que abrange de forma totalizante esta sua função quando trabalha com diversos tipos de linguagem artística que formam a tessitura teatral.

“Autoconhecimento e adaptação ao mundo são os dois pólos em torno dos quais giram as propostas de educação Junguianas. Educar pra Jung é um processo relacional, em que não é a ciência ou a técnica que contam, mas a personalidade do educador, pois, o que está em jogo é a formação da consciência e da personalidade do indivíduo. E este pensamento Junguiano deve estar presente na construção do espetáculo teatral. Ele deve contribuir para esta formação da consciência e personalidade do individuo, se não, corre o risco de se tornar um discurso vazio e este “discurso” teatral só se torna denso e modificador quando tomado como Obra de Arte.

“ É possível imaginarmos uma pedagogia que reintegre razão e imaginação, que equipare pensamento simbólico ao pensamento lógico, que estimule a sensibilidade, que ative fantasias, utopias e mitos que possam ser compartilhados por todos.? “ (CJ)

Jung trata do indivíduo e do todo, o teatro fala do indivíduo e do todo - talvez este paralelismo seja tão propício a um estudo do teatro à luz de algumas idéias Junguianas que, com certeza, nos ajudarão a entender melhor a função do teatro.

Carlos Augusto Nazareth