A ORIGEM DA OBRA DE ARTE
por Cláudia Juliana Barbosa de Oliveira

A origem da obra de arte é um ensaio publicado pela primeira vez em 1977, de autoria
do filósofo alemão Martin Heidegger sendo considerado como um dos mais importantes pensadores do sec. XX. A versão em análise é a tradução portuguesa de Maria da Conceição Costa, editada em 1991, fruto de três conferências realizadas em 1936. Esta obra incorre numa abordagem à natureza da obra de arte, explicando, mas não resolvendo esse enigma que é a arte. Como o próprio título do livro explicita, Heidegger empreende uma busca pela origem da arte, e sua visão vai além da estética, entrando na essência existencial da obra de arte na qual a verdade é o seu fim último – verdade desde a qual a obra se inicia. Absorvendo todo o seu significado, concluindo que a essência da arte é a Poesia e a essência desta é a instauração da verdade que só é real na sua salvaguarda.

Heidegger explica a origem da obra de arte recorrendo à dissecação de várias palavras
presentes ao longo da obra , tais como: coisa, verdade, arte, poesia, devolvendo a essas palavras o seu sentido mais radical, de modo que o próprio fenômeno analisado ganhe visibilidade através delas.
Ao longo do seu ensaio Heidegger chega à conclusão de que a essência da obra de arte é a
poesia e a essência desta é a "verdade". Para Heidegger verdade, ou melhor, aquilo que faz da verdade o que ela é, se traduz como um acontecimento histórico desde o qual o mundo de um povo se revela. A verdade assim compreendida por Heidegger é uma retomada do fenômeno que o grego antigo denominou "alethéia" – fenômeno desde o qual o ser ( dos ho mens e das coisas) vêm à tona e ganha significado. Verdade que assim nos reporta para o próprio acontecimento do mundo. Ora, se a verdade assim compreendida se mostra como a essência da Poesia, essa não pode ser compreendida como um gênero literário, pois, Poesia para Heidegger é antes o movimento desde o qual às coisas surgem _ é o movimento de produção desde onde acontece à desocultação do ente fazendo com que este ganhe corpo e significado.

No início da obra por nós analisada, Heidegger diz que a obra nasce com a atividade do artista e este só é considerado desta maneira à medida que cria a obra. É também a obra criada que permite que o artista seja denominado dessa forma. Eles têm uma relação de co -pertinência.
Nesta relação artista /obra pode se observar a relação desde a qual ambos vêm a ser. Isso porque por exemplo, o pintor só é pintor á medida que traduz, através das suas mãos , a realidade como cor. Por sua vez, a cor se revela como cor através da habilidade do artista. Nesta afinidade artista/obra ainda há um terceiro elemento: o observador, aquele que olha para a obra de arte e para o artista. O terceiro elemento desta tríade reconhece o artista e a obra e só ele tem o direito de o fazer, é o primeiro a saber o artista e a obra e também o primeiro a ver nisso arte. Mas desta relação obtém-se apenas à realidade da obra de arte e não a sua origem.
A origem da obra de arte se encontra aquém quer do artista, quer da obra, quer do seu observador. A origem da obra de arte só pode ser compreendida desde a própria instauração do mundo - que na obra de arte se deixa e faz ver. Mundo, que como vimos acima, se instaura desde o próprio acontecimento da verdade.
Mas o que se quer aqui compreender por mundo?
No curso da sua interpretação do que é a obra de arte e a sua origem Heidegger analisa o
caráter de coisa da obra de arte. O processo do artista de tornar a obra de arte numa coisa é aquele desde o qual ele lhe confere um aspecto tangível, tornando -a algo que pode ser compreendido.
Para Heidegger esse aspecto coisal que a obra de arte adquire é oriundo do próprio mundo
que ela, enquanto obra de arte, deixa e faz ver. O mundo para o nosso autor se revela como uma conjuntura, isto é: um conjunto de significados articulados desde um sentido comum. É desde essa conjuntura que as coisas passam a ganhar um significado específico, desde a relação de uso e manuseio que se estabelece com as outras coisas e com os outros - relação que nasce desde o horizonte de sentido no qual (as coisas e os outros) se acham lançados. No caso do exemplo utilizado acima, o horizonte de sentido é a pintura – desde esse horizonte é que se dá a relação a qual o homem se descobre como pintor e a realidade se descobre desde a cor. Desde essa relação tudo mais ganha significado – o pincel se descobre como apetrecho de pintura, a cadeira como algo a ser pintado, o mesmo acontece com o sapato, o campo, etc. Pois bem, a obra de arte é para Heidegger, o lugar privilegiado desde o qual essa instauração do mundo ganha visibilidade.
Isso se observa porque, igualmente no processo de criação artística existe a mesma relação de co-pertinência no que diz respeito à construção do imaginário na obra de arte. Isso porque as coisas fazem parte da imaginário da arte, mas também a arte faz parte do imaginário das restantes coisas, pois, podemos ver coisas na arte que nunca vimos no mundo real, como também podemos imaginar coisas do mundo real como obra de arte. É a criação e a recriação do nosso mundo, onde as coisas são o que são e como são conforme o uso que delas fazemos a partir do horizonte de sentido no qual nos vemos lançados.
Como as coisas fazem parte do nosso dia a dia é então compreensível que a arte, as obras
de arte também façam parte do nosso dia a dia. A obra de arte está presente de forma similar às demais coisas: encontra-se na arquitetura de nossas cidades, nas estátuas erguidas nas praças, nas imagens pictóricas das igrejas e nas próprias igrejas para além de sua presença em museus e exposições e estando tão presentes é natural que sejam iguais primordialmente às restantes coisas e o que as distingue é o poder que elas possuem de sempre abrir um novo horizonte de sentido desde o qual se nos torna possível re -significar as coisas com as quais lidamos no mundo. No entanto o que distingue a arte das restantes coisas? O artifício do artista ou a noção do seu uso prático? Heidegger prova-nos através de duas formas. Ex.: Uma estátua em pedra será uma obra de arte ou uma pedra feita em arte? A coisa -pedra é transformada em coisa-arte através do artifício do artista e é alma deste que só ultrapassando os limites do seu corpo confere vida à pedra e a transforma em arte. Ele não se limita a bater na pedra dando forma à matéria o seu toque brinda-a para além da forma com uma existência própria que doseia a coisa-pedra em coisa-arte atribuindo-lhe uma existência única exterior ao artista, mas que nunca deixa de fazer parte dele. Mas sendo a arte uma coisa com vida, o que a distingue das restantes coisas? É essencial então falar no apetrecho que está próximo do representar humano, pois, faz parte da nossa produção. E para explicar isto, Heidegger usa os sapatos de um camponês e dos sapatos representados por Van Gogh. Aparentemente não existe nenhuma diferença entre eles e se um é apenas representação pictórica do outro o que é que confere aos sapatos de Van Gogh algo de tão especial que seja diferente de ser-apetrecho? Só se apreende os sapatos se os usarmos, se os sentirmos nos pés e se soubermos andar com eles. Já ao olhar para o quadro imaginamos o seu uso, mesmo que nunca os tenhamos usado, pois, a pintura que representa os sapatos apreende o sentimento real que Van Gogh tinha por eles, ultrapassando à própria imagem de forma que chega ao terceiro, o que reconhece a obra e o artista. O olhar para o quadro cria ou recria a noção que guardamos de tal apetrecho permitindo-nos distinguí-lo das restantes coisas e compreender o real e o não -real.
Daí ser necessário distinguir o real da representação e assumir neste o caráter de transpor para o nosso imaginário a função real de tal ser apetrecho.
O tempo ajuda a criar obras de arte através de sua história, mas também lhes tira o valor
sentimental, pois, é impossível sentir o impacto no presente que uma obra de arte teve no momento histórico do seu nascimento. O tempo desapropria-se desse impacto, sentimento, mas regozija a obra com outros olhares mais distantes que a perpetuam. O tempo se revela como o fenômeno desde o qual a obra se mantém sempre a mesma à medida exata em que se descobre sempre como outra - que se descobre desde outras interpretações. Assim, a obra de arte se mantém sempre aberta a novos significados, a novas reinterpretações à medida que sempre de novo deixa e faz ver um mundo. Essa condição da obra de arte é que a faz ser o lugar privilegiado de acontecimento da verdade para Heidegger, da verdade que se revela sempre como um acontecimento histórico, por isso temporal. A verdade é a sua origem e a poesia o modo como se nos torna possível apreênde-la.

Referências Bibliográfica
HEIDEGGER, Martin. A origem da obra de arte. Biblioteca de Filosofia Contemporânea. Ed.: Edições 70.
Tradutora: Maria da Conceição Costa.