A FILOSOFIA E A INFÂNCIA

A Filosofia na Infância e a Infância da Filosofia
CENTRO BRASILEIRO DE FILOSOFIA DA CRIANÇA

 
Diz-nos Gaston Bachelard que "a imaginação não é, como sugere a etimologia, a faculdade de formar imagens da realidade; ela é a faculdade de formar imagens que ultrapassam a realidade. É uma faculdade de sobre-humanidade".
Filosofia e infância parecem ser coisas distantes. O lugar da infância é o lugar da brincadeira, da espontaneidade, da descoberta e do não saber. Em contrapartida, o lugar da filosofia é o mundo dos conceitos abstratos, do conhecimento, da competência e da seriedade. Não é à toa que o Programa de Filosofia para Crianças causa um certo estranhamento.
Se por um lado encontramos críticos defendendo a incompatibilidade entre o universo da criança e o mundo enigmático dos conceitos próprios da filosofia; de outro, encontramos defensores do Programa de Filosofia para Crianças que julgam ser a filosofia a arte de perguntar sobre o que todo mundo já sabe e, conseqüentemente, entendem que crianças, loucos e artistas têm muito a ver com a filosofia.
Uma análise dessas duas formas de entender "filosofia" e "infância" pode revelar alguns equívocos. O primeiro diz respeito ao próprio conceito de infância ou da criança. Durante muito tempo ouvimos expressões do tipo "Isso não é coisa para criança" e assim as crianças comiam em mesas separadas dos adultos e não podiam participar das conversas familiares. O que era "coisa de criança" era determinado por aqueles que sabiam, tinham experiência e razão. A infância era o lugar da não razão. Desta forma, temas como o do conhecimento, da vida, da morte, do certo e do errado eram inacessíveis às crianças.
A descoberta das relações entre racionalidade e infância é bastante recente e só foi possível graças às contribuições da filosofia, da psicanálise e ao desenvolvimento da psicologia cognitiva. Muitos autores poderiam ser aqui citados como Rosseau, Montesquieu, Piaget, Vigostky, Dewey. A redescoberta da infância provocou uma verdadeira revolução nos meios educacionais, nas relações sociais e na própria concepção de infância. As crianças passam a ter vez e voz, passam a ter direitos e espaço para o desenvolvimento da autonomia moral e cognitiva na família, na escola, no bairro, etc.
Mas a descoberta das relações entre racionalidade e infância também coincide com o grande projeto iluminista que pretendia fazer o homem senhor de si e do mundo graças ao uso crítico da razão. A liberdade, a igualdade e a fraternidade ainda são quimeras do mundo contemporâneo. Alguns diriam que o sonho da razão que liberta fracassou. A pós-modernidade coloca a razão em cheque e resgata novamente o lugar da infância como o lugar da não razão. A infância é então aclamada como lugar da imaginação e da negação de um projeto fracassado. A infância passa a ser a meta dos que desconfiam da racionalidade. Fazemos a apologia da infância, como a apologia da loucura e nada mais comum do que contemplarmos, neste contexto, a infantilização das relações e a "ditadura da criança" em contraposição à "ditadura dos adultos". Assim é fácil entender porque alguns repudiam filosofia para crianças e afirmam a impossibilidade da filosofia com crianças. Razão e infância mais uma vez parecem não combinar
Para os que sustentam a crença na racionalidade como esforço de construção de sistemas explicativos e assim concebem a filosofia desde o seu surgimento no Ocidente, Filosofia para Crianças estaria distante do que é propriamente a filosofia. Já para os que desconfiam do esforço racional na construção de grandes sistemas filosóficos, a filosofia e a infância estariam mais próximas do que se imagina, entendida a filosofia como exercício de problematização e de criação.
Mas tanto para os que defendem a possibilidade de relação entre filosofia e infância como para aqueles que a negam, o Programa de Filosofia para Crianças de Lipman é visto como ginástica intelectual que retira da infância o que ela tem de melhor, ou seja, o brincar, a imaginação livre das regras da racionalidade.
Para Lipman, as crianças são filósofos inatos não apenas porque perguntam e se inquietam com as certezas, mas também porque são seres capazes de pensar de forma crítica, criativa e cuidadosa. O pensamento não estaria livre das regras da razão, mas submeteria essas regras ao exame de critérios razoáveis. Finalmente, poderíamos nos perguntar para que submeter crianças às regras da lógica e da racionalidade. Que sentido isso teria no universo infantil?
Pensar as ambigüidades e contradições presentes na linguagem cotidiana não é submeter crianças ao aprisionamento da lógica enquanto ginástica intelectual, nem tampouco fazer das crianças estudiosos dos grandes sistemas filosóficos, seja estes da filosofia da linguagem, da ética ou de qualquer área da filosofia. Aproximar filosofia e infância é buscar meios para um pensar mais reflexivo.
Neste sentido, a infância da filosofia é a inspiração para Lipman construir suas novelas filosóficas. Afirma o criador do Programa de Filosofia para Crianças: "Na Grécia dos pré-socráticos, os filósofos se sentiam à vontade com os modos de expressão poético e aforístico, bem como com a linguagem comum."
Por que então negar a aproximação da filosofia com a infância?

Publicado pelo CENTRO BRASILEIRO DE FILOSOFIA DA CRIANÇA no Jornal Informativo do CBFC, agora em edição virtual