A ESTRUTURA DRAMÁTICA
O TEXTO E O ESPETÁCULO
por carlos augusto nazareth

“A arte é a expressão da consciência humana em uma imagem metafórica única”
Susanne Languer

O espetáculo tem origem ritualística e como todo ritual tem a função de manter a tradição, através dos tempos, de seus princípios básicos. Da mesma forma que o texto possa ter sua origem divina, nas tabuas recebidas com os dez mandamentos, o teatro sempre foi a celebração do divino. E como ritual e celebração obedece a uma série de preceitos que o mantêm e constituem sua própria essência.
A essência primeira do teatro seria a possibilidade de mostrar, ao invés da essência da narrativa que é o contar.
O ritual do teatro congrega inúmeras manifestações do ser humano: a dança, o canto, a palavra, o gesto – e assim chegamos a idéia de tecido; inúmeras linguagens que se entrelaçam e criam uma tessitura una.

A DIVERSIDADE E A TRAMA TEATRAL
Partindo do conceito de trama, tecido, urdidura, o espetáculo teatral é um tecido composto da urdiduras, tramas de linguagens diversas: o texto, o ator – corpo, voz, interpretação - cenário, figurino, música, luz. Portanto o espetáculo é feito de idéias e emoções que são mostradas através da corporalidade das diversas narrativas em ação, no sentido de fisicalidade e principalemnte através da ação dramática.
Essas linguagens fomam um todo que tem sentido, código e sintaxe própria. A luz é uma narrativa, o movimento é uma narrativa, o som é uma narrativa, a música é uma narrativa, o ator em movimento é uma narrativa e narrativas que têm significado próprio, códigos próprios. Para que esta expressão emocione e faça pensar é necessário que todas estas linguagens formem um todo único e harmônico.

O TEATRO PARA A INFÂNCIA 
Num mundo capitalista onde a terceira idade e a infância são consideradas classes não produtivas e por isto desvalorizadas,muitas vezes as expressões artísticas destinadas a estes segmentos da sociedade também são vistos como menores. Mas esta produção é feita por artistas, conscientes de seu papel e da importância da obra de arte, que se nutre de talento e técnica, para subsistir.

Arte
Definições diversas tentam se acercar do indizível. Será arte todo objeto que possui qualidades artísticas, tendo na estética sua função dominante, dada pela intencionalidade do artista?
Será que existem valores característicos do belo? Hoje, como pensamos Arte e valores estéticos? Qualquer objeto ou atividade pode ser detentora de uma função estética?
Será arte a sensação de prazer que se dá quando estamos diante de uma obra de arte? Prazer este que produz à necessidade de repetição deste estado?
O diretor de teatro Peter Brook disse que a beleza de uma peça de teatro está na qualidade e na perfeição que o público é nela capaz de identificar.
Esta experiência do prazer estético é que provoca o desejo de repetição, ocasionado pela qualidade – e acrescentamos - equilíbrio e unidade. São inúmeras linguagens que se unem para mostrar a história. E por mostrarem, a palavra não é sua matéria prima única. Tudo serve ao objetivo central de encenar um texto - ou uma idéia, um fragmento.
Porém, mais que o suporte, importa o que se tem a dizer ao público. E todos os elementos devem estar a serviço deste objetivo. Esta muliplicidade de elementos atinge a sensibilidade do espectador através de um bombardeio uníssono - não sá à emoção, mas também ao racional - estímulos múltiplos, sendo absorvidos num mesmo momento e ativando, ao mesmo tempo, todas as áreas de percepção.
E o teatro continua discutindo as questões básicas do homem.
Quem sou?
De onde venho?
Para onde vou?
O teatro é ontológico. Fala da própria história do homem e é a única arte que acontece em presença do espectador; ali, naquele momento, naquele lugar você presencia e esta é a grande diferença entre do contar da narrativa.

MIMESIS 

A mimesis aristotélica tem que ser, por isso, aqui, melhor entendida. Não se reproduz um fato ou uma ação, se reproduz um estado de espírito. A emoção do teatro se repete todos os dias, se renova, se refaz. Não é uma simples repetição de palavras, ou gestos, uma repetição física. É um resgate de um momento onde a emoção tem que estar presente, ou corre o risco de não ser teatro.
E por tabalhar com a razão e a emoção, com o resgate dos momentos históricos, realistas ou ficcionais, o teatro acaba por questionar o próprio homem e acaba por transformá-lo política e socialmente. Uma obra de arte, que fala do homem, para o próprio homem, que questiona O homem.

A POÉTICA ARISTOTÉLICA

A Poética de Aristóteles é o paradigma primeiro, a partir do qual foram compostas quase todas as poéticas seguintes – exceto na Idade Média que, não conhecendo seu texto, recorria a um seu derivado, a Ars Poética de Horácio.
Como se viu, o conceito de mimesis aristsotélico é complementar de uma concepção gnosiológica da arte e não se confunde com imitação de fatos concretos, mas sim de questões humanas.
O imitar aristotélico das ações é uma criação, pois reconstroi os momentos com a mesma matéria com que foram produzidos - razão e emoção. O imitar o estado do homem e não a ação pura e simples do homem, recria a situação desencadeadora da ação,resgata a emoção presente, que domina o agente da ação e recria o clima da situação dramática em que se deu a ação. Medéia, ao se lamuriar da tragicidade de seu destino, reconstrói este seu trágico destino, através do sentimento que revive. Cria. Recria. Portanto, a mimesis é, para Aristóteles, ativa e criativa e não meramente reprodutora de ação desprovida de sentimento e descontextualizada.
A Poética de Aristóteles continuou a ser desconhecida até o fim da Idade Média. Teve-se conhecimento pleno dela a partir de 1498, através de uma tradução. Só na metade do século XVI as “poéticas” começaram a recorrer decididamente ao modelo aristotélico.

A AÇÃO DRAMÁTICA
Aristóteles, em seu tratado divide a ação dramática em dois tipos: simples e complexa.
A primeira é aquela que apresenta um desenvolvimento continuo, linear; a segunda é ditada por uma série de peripécias – entende-se por peripécia toda mudança de ação no sentido contrário do que está sendo indicado. Algumas dessas peripécias muitas vezes resultam numa “revelação” – o personagem toma consciência de um fato ou informação que mudará irremediavelmente sua história.
Esta revelação pode ser apenas final e de preferência inesperada – que é um dos elementos mais saborosos da ficção. Segundo Margareth Nicolescu, diretora do teatro oficial da Romênia, no Curso para diretores de teatro da América Latina realizado no Brasil - "só há teatro quando se surpreende o espectador" .

“A fábula deve deve compreender uma ação única, que forme um todo coerente e completo em si mesmo, QUE tenha princípio, meio e fim, de modo que seja um perfeito organismo vivo, que possa produzir o prazer o que lhe é peculiar.” Aristóteles

A estrutura da narrativa dramática

A matéria dramático-narrativa mostra uma história, a partir de um ângulo de visão ou foco e vai encadeando as seqüências de uma efabulação, cuja ação é vivida pelos personagens e está situada em determinado espaço, de um determinado tempo e se comunica através do discurso associado a muitas outras narrativas, pretendendo que seja vista e compreendida pelos seus espectadores - e/ou leitores - quando se fala de literatura dramática.
Estudando esta narrativa, Aristóteles apresenta em sua Poética a Lei das Três Unidades, que dominou todo o período do classicismo francês: unidades de tempo, lugar e ação. No entanto as unidades de tempo e lugar, com o passar do tempo, foram postas de lado, restando apenas a UNIDADE DA AÇÃO DRAMÁTICA.

Unidade – o todo do texto dramatúrgico deve formar um só corpo orgânico, com princípio, meio e fim, onde o final esteja atrelado ao meio e o meio ao início, a partir de uma ação dramática.

Ação dramática – é que provém da execução de uma vontade, com a deterninação de cumprir essa intenção.

Teatro, pois, é ação, ação dramática; ação dramática é conflito – em geral uma vontade consciente caminhando determinadamente em direção a seus objetivos.
No teatro dramático, estes são os elementos norteadores da narrativa teatral: Introdução-desenvolvimento-clímax-solução.
O conflito é o cerne de todo texto teatral. Assim a primeira exigência que temos que fazer de um texto teatral é que ele tenha conflitos e que estes conflitos possam ser identificados, que se possa determinar o conflito central, primordial, que vai nos dar a linha mestra do texto.
Num texto dramático, pode haver conflitos variados de toda espécie, mas subordinados a um conflito central.
Cada cena também traz um conflito que nasce, se instala, cresce, aumenta e se resolve. As forças em oposição, as vontades contraditórias, as energias opostas não permanecerão sempre iguais, o conflito crescerá, se intensificará, aumentará, até que atinja seu clímax e um novo momento onde percebemos uma modificação em seus protagonistas e na própria situção inicial proposta.
Portanto, tudo está ligado a tudo e tudo se move num conjunto como o das grandes constelações. Tudo depende de tudo e nada tem sentido tomado isoladamente. Por conseguinte, se aplicarmos esta afirmativa ao drama, tudo numa peça de teatro deve estar inter-relacionado. A peça deve ser um conjunto onde todas as coisas dependem umas das outras.

Um galo sozinho não tece uma manhã,
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito e o lance a a outro;
E de outros galos que com muitos muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

João Cabral de Melo Neto