A ESTÉTICA PERVERSA
ANAMNESE CULTURAL
por Carlos Augusto Nazareth

UMA ESTÉTICA PERVERSA DO TEATRO INFANTIL
Ao longo dos anos se estabeleceu um conjunto de procedimentos a que chamamos de "estética perversa do teatro infantil”. Uma estética que se instaura em todas as linguagens que envolvem o espetáculo teatral.
Esta estética foi se estabelecendo e pais desavisados e/ou desinteressados passaram a entender esta estética da expressão teatral para crianças como: “teatrinho infantil é assim mesmo” e espichados em suas poltronas, quase adormecidos, mal vêm o que está em cena, enquanto a criança, se muito pequena, fica apenas atenta à mágica teatral – tenta, como num jogo, descobrir a “verdade”, o jogo teatral. Isto revela um total desinteresse pelo espetáculo e então a criança cria o seu próprio “Onde está Willie?” para se divertir.
Se a criança é maior, sua inquietação revela o desinteresse pelo que vai em cena.
O espantoso é que as platéias diminuem dia-a-dia e os produtores olham com naturalidade para este fenômeno.
Os pais não se dão conta que teatros vazios podem denotar espetáculos de má qualidade. Não aproveitam este índice para se perguntar e questionar sobre o valor do espetáculo ao qual estão levando seu filho. E, consequentemente, nem se perguntam o que os espetáculos, construídos a partir desta estético pode ser maléfica em termos da percepção da criança frente a Arte e o perigo de afastá-las do fenômeno artístico, que passa a ser algo chato, sem sentido – desnecessário.
Esta estética vem se construindo há anos por um grupo de produtores, que se alternam na cena carioca e que se aproveitam da inércia do público em busca de algo novo e de qualidade e que acaba aceitando pacificamente estas mistificações.
A escolha do espetáculo a ser visto é feito pelos pais, sem dúvida. Portanto a responsabilidade é total, mas parece que um grande acordo tácito entre produtor, teatro, público e pais, todos pouco preocupados com a ponta deste processo: a criança.
Por falta de informação, falta de preocupação, falta de senso crítico e estético ?
Há por outro lado um grupo de produtores que busca uma produção de qualidade, com textos que tenham algo a dizer, com uma estética instigante, que trate o espetáculo como obra de arte e a criança como um receptor em formação.
No entanto, neste embate, as “armadilhas” ou “arapucas” que não têm o direito de se chamar teatro acabam levando vantagem sobre os bons espetáculos.
Os motivos são vários. Em primeiro lugar a maioria destes espetáculos lidam com os clássicos. Os pais, sem referências para avaliarem os espetáculos em cartaz vêem, através de sua memória afetiva, a possibilidade de levar a seu filho o mesmo prazer que tiveram ao ouvir ou ver aquele clássico quando criança. E ali dentro do teatro apenas se transporta no tempo, abandona o seu senso crítico e na maioria das vezes nem estabelece um julgamento de valor, porque parte do princípio da memória afetiva e o que eles ali vêm não é o real, mas a lembrança do que trazem na memória. Esta inércia dos pais, a falta de senso crítico em relação ao teatro infantil hoje, fazem com que os pais continuem levando as crianças a este tipo de espetáculo, estimulando os maus produtores, que só quererem montar os clássicos, porque sabem que - por estas razões - têm um público garantido: os pais em busca do tempo perdido.
Mas isto não se dá evidentemente só com os clássicos. Esta estética perversa se estende a qualquer texto produzido por este segmento de produtores que acredita que pensa poder definir de forma estática o que seja teatro para criança, que acredita que já descobriu a fórmula e que só há uma coisa a fazer – repetir esta fórmula.
Esta estética perversa, a inércia do público em questioná-la, a visão apenas mercantilista destes produtores, a ausência e negação da crítica especializada, a falta de espaço de discussão vão aos poucos transformando o teatro infantil num dragão de sete cabeças, tornado-o um fenômeno, por vezes, incompreensível.

A recepção do espetáculo teatral 
OS PAIS Os pais que estão acompanhando seus filhos aos espetáculos nos teatros - têm uma expectativa sobre a reação deles. Evidentemente o pai que leva o filho ao teatro quer ter feito uma boa escolha. Quer que a criança curta o espetáculo. Com isto há um comportamento estereotipado de grande parte dos pais.
Ouve-se à entrada: “o palhaço vai aparecer, nós vamos bater palmas, cantar junto com eles” E nem palhaço a peça tem. E ao primeiro acorde, quem, ansiosamente inicia a bater palmas são os pais e durante o tempo todo do espetáculo incitam a criança, instigam, excitam. Os pais precisam de alguma resposta de seus filhos estão para se tranquililzarem de que “acertaram”. E ficam todo o tempo perguntando “está gostando, filho?” E interferindo todo o tempo chamando a atenção para isto ou aquilo que o pai acha interessante, recontando a história, enfim, impedindo que a criança se entregue ao espetáculo. TEntando suprir com sua ansiedade a mágica que aquele espetáculo não tem.

A CRIANÇA
Sem dúvida nesse processo de seleção do que ver, a criança é sempre conduzida - apenas eventualmente consultada - ao espetáculo a ser assistido. O teatro não é um assunto a ser conversado. Os pais decidem que este é o melhor espetáculo. E o melhor espetáculo muitas vezes é escolhido pela sua proximidade de casa, por ter estacionamento... Poucos são os pais que tentam se informar sobre eles e a partir daí conversarem com as crianças, animá=las , incentivá-las, deixando-lhes um mínimo de margem de decisão.
E assim a criança é exposta a esta estética perversa que vai formando o seu gosto estético de forma distorcida e equivocada.
Gosto não se discute? Se discute sim. Nada pior do que expor a criança a um numero limitado de possibilidades artísticas de má qualidade. Isso não só acontece com o teatro mas com a música, o cinema, a literatura. O pai consciente e crítico tem que estar atento à qualidade do que oferece á criança, assim como na maioria das vezes está á alimentação (nem sempre). Há uma máxima que diz: “Você é o que você come” Isto também acontece para o alimento da sensibilidade, do humano.

A ESCOLA
A Escola, na maioria das vezes não cumpre o seu papel. Não acreditamos que caiba a escola levar a criança ao teatro ou trazer o teatro à escola, mas com certeza cabe à escola incentivar e motivar a participação da criança no universo da Arte, como complemento indispensável na formação do ser humano.
Muitas vezes a escola quer se servir do teatro para atender as suas necessidades pedagógicas. O velho problema das datas comemorativa, hoje já até nem tão corrente, mas os PCN, temas transversais, enfim, a escola olha para o teatro como uma complementação pedagógica, quando o teatro, apesar de ter várias facetas, tem que ser visto principalmente como Obra de Arte. E aí ele tem a sua função em si mesmo. Não tem que haver um “aproveitamento” após o espetáculo como tanto gostam as escolas. O espetáculo teatral de qualidade cumpre totalmente sua função em si mesmo. Assistir é o bastante.Conversar informalmente sobre o espetáculo, motivar antecipadamente, tudo bem, mas atividades escolares decorrentes minimizam a ação do teatro, didatizam a obra de arte, escolarizam a expressão artística, afastam a criança deste universo.
Mas algumas escolas confessam se sentirem inaptas para trabalhar com este universo. Então que seja buscada, por ela, por sua responsabilidade, uma assessoria especializada. E neste mesmo cunho de sensação de inaptidão as escolas não oferecem à criança a literatura dramática, justificando-se dizendo que não há publicações de textos teatrais, o que não é verdade, embora este seja um problema grave que merece uma discussão à parte. Na verdade há uma sacralização do texto teatral. Os professores trabalham com os alunos as diversas linguagens - o jornal, o conto, a crônica, a publicidade e por que não a literatura dramática?

OS TEATROS
Os teatro, por sua vez, como “casa de espetáculos” são responsáveis sim por sua programação. Têm que escolher, selecionar o que há de melhor para oferecer a seu público. No entanto não é o que acontece. Teatros, dos melhores, acolhem em sua programação muitos destes espetáculos construídos dentro desta estética perversa. Os shoppings são mestres em exibir os espetáculos feitos sob a égide da estética Disney piorada. O que importa ao teatro é receber o valor mínimo do aluguel e não deixar “furo” em sua pauta, pois os próprios progamadores pouco estão interessados em avaliar os espetáculos que ali vão se apresentar. Um projeto é um enigma difícil de ser decifrado mesmo para os profissionais mais experiente. O que norteia esta decisão normalmente é a qualidade gráfica do projeto. É a estética do projeto que é avaliado, não a estética do espetáculo. Outro mal do teatro infantil são os clubes, que colocam qualquer espetáculo, sempre clássicos da pior qualidade como texto, como produção, como elenco e oferecem à criança que está ali a seu alcance e que o pai “manda pro teatrinho” para ele poder ficar mais à vontade no clube. E estes espetáculos ficam acima do bem e do mal, pois como já se sabe a falta de qualidade que têm, a crítica especializada a eles não vai, os jurados de prêmios de gabarito a eles não assistem. Como os pais não estão preocupados em se informar sobre eles, sobrevivem a custa dos sócios do teatro revezando as mesmas peças anos a fio, as vezes com o mesmo produtor ocupando dois horários e até mesmo dois ou três espetáculos em clubes diferentes.

OS PROGRAMAS DE APOIO AO TEATRO
Os patrocínios públicos ou privados não vêm no teatro infantil um bom investimento. Se privados, comercialmente não é de interesse da maioria das empresas; se público, politicamente não causa nenhuma repercussão a concessão de patrocínioa aos espetáculos infantis. Portanto aqui começa a se tornar visível a ponta do “iceberg” > Sem patrocínio, hoje, muito, mas muito difícil se construir um bom espetáculo e entrar em cartaz, com profissionalismo e competência. Há quem diga – se não há patrocínio não há teatro.
Portanto os profissionais de teatro cada vez mais se vêm cerceados de produzir bons espetáculos e aí começa a se desmanchar um castelo de cartas. Sem patrocínio, não temos bons espetáculos, sem informação na mídia, impossível saber o que é bom o que é ruim, a exposição da criança a estes espetáculos construídos dentro desta estética perversa ao os faz freqüentadores de teatro e deformam a sua recepção desta obra de arte. Daí os teatro cada vez mais vazios, e daí cada vez piores os espetáculos. E isto abre espaço para que os “aproveitadores” se instalem nesses espaços e que fiquem satisfeitos com trinta espectadores na sala porque são arapucas de pessoas que como não têm competência nem qualidade se satisfazem com uma remuneração irrisória.

A MIDIA A Midia abandonou completamente o teatro infantil. Hoje não há crítica especilizada em nenhum jornal. Ressalva para a Vejinha que não faz propriamente uma critica mas coloca uma resenha critica dos melhores espetáculos escolhidos por uma jornalista competente.
Há jornais que dizem tranquilamente – teatro infantil não interessa ao grande público. Claro, quando numa semana uma das manchetes de um dos principais jornais do país coloca como manchete “Bruna Surfistinha acha que Cicarelli extrapolou” isto é suficiente para se entender a política que rege o quarto poder ( ou segundo?)
O já mal conduzidos cadernos de cultura dos nossos jornais quando tratam de matéria de Arte para adultos não abrem espaço para que seja discutida a relação cultura e criança.
Há editores do caderno de cultura de grandes jornais que sabidamente detestam teatro infantil. E aí entraríamos na discussão do preconceito em relação ao infantil que é um fato ontológico, que não caberia aqui discutir.


Os meandros da estética perversa deste dito teatro, dito infantil O TEXTO
Comecemos pelo texto. Comecemos pelas adaptações.
Por que um dramaturgo escolhe um determinado texto para adaptar? Evidentemente porque há algo que o texto diz que ressoa naquele que faz a adaptação. O texto diz coisas que o dramaturgo considera como se fossem suas. E coisas que ele considera importantes, que ele acredita devam ser ditas para seu público-alvo. Esta consciência do por que adaptar, que se afasta de uma visão puramente mercadológica, é o primeiro passo para um bom trabalho. Aqui estamos falando das adaptações, mas isto vale para os textos inéditos, com certeza.
As adaptações dos clássicos deixam de lado a essência da história, que as fez atravessar anos, narrativas fundantes, mitos que se tornaram textos populares, transmitidos através da tradição oral. Esta essência TEM que estar na adaptação. E o que acontece é que os adaptadores normalmente pegam a tênue trama destes contos e só se importam com ela, modificando-a, “atualizando-a” de modo absurdo, onde celulares, shoppings, Hebe Camargo e Xuxa geralmente estão presentes. O sumo, o suco, a essência, o mítico é deixado de lado, talvez porque nem percebam a existência desta lado, talvez porque não estudem, não pesquisem aquilo que vão adaptar.
Os textos originais, que buscam criar tramas originais, novas, padecem de problemas semelhantes, pois muitas vezes os autores na realidade não têm o que dizer. E se expressar artisticamente pressupõe uma necessidade vital de dizer algo importante para alguém. Este talvez seja o maior malde muitos textos originais que têm estado no palco nos últimos anos – não ter o que dizer. Esta falta do que dizer aliada a uma falta de técnica de dramaturgia estabelece o primeiro preceito desta estética perversa do teatro infantil – o vazio do que dizer.

O ELENCO
Outro grande “fantasma” desta estética é a interpretação dos elencos. Os atores “cantam” as falas, exageram, canastram, ilustram, não se movimentam, não criam imagens (aí já ficamos por conta da direção) permencendo em cena em semi-círculo, dando o texto com péssima articulação, péssima projeção, porque qualquer um se acha apto a fazer teatro infantil.
O que é ser ator de teatro infantil? Subir no palco e fazer a criança rir. E tem ator que diz. “ah... teatro infantil? Eu sou muito rápido pra “pegar” o personagem.” Ignora totalmente qualquer necessidade de compreensão do personagem, de sua trajetória, enfim, é apenas decorar um texto (já vi ensaio de teatro infantil ser feito por dois atores que nunca haviam se visto “bater o texto’ por telefone e se encontrar no dia do espetáculo. Tudo isto porque teatro infantil é menor, é muito fácil de fazer. Esta falta de profissionalismo e mais do que isso eu diria de ética, é um dos baluartes desta estética perversa do teatro infantil.
Pessoas que NUNCA foram atores, não se furtam a subir num palco de um espetáculo infantil e se dizerem atores, e a dizer que fazem teatro e pior – convidar os amigos para vê-los em cena.

A PRODUÇÃO
Por toda a cadeia que expusemos acima que acaba inviabilizando o bom teatro apenas os maus produtores que reciclam figurinos, improvisam cenários, pagam cachês miseráveis a não-atores, acabam sobrevivendo e ocupando espaços por vezes nobres do espaço teatral.
Este segmento chamado produção está relacionado diretamente com a falta de dinheiro, a falta de patrocínio, a falta de apoio, a falta de divulgação, a falta de público.
E aí temos uma luz – fundamental no teatro – improvisada, cenários mal acabados e aproveitados, figurinos inadequados porque na maioria das vezes reaproveitados, trilha sonora da pior qualidade técnica, enfim, uma cadeia ininterrupta de uma crise que vai da criação do texto ao final da temporada.

Mas o artista tem uma capacidade de resistência inacreditável, porque alimentado por paixão e arte consegue resistir e sempre há movimentos para resgatar a qualidade do teatro infantil. E é importante que se diga que o artista não pode viver só de paixão e arte. Precisa de dinheiro, mas não do dinheiro ganho dolosamente com falsos espetáculos ditos teatrais, ditos infantis. Ganhar dinheiro por um trabalho profissional, digno e de qualidade desenvolvido pelos profissionais.